Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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CINEMA > Festival de Locarno

Ancine, censura e diálogo impossível com Bolsonaro

Por Rui Martins em 06/08/2019 na edição 1049

(Foto: Divulgação)

Começa nesta quarta-feira o Festival Internacional de Cinema de Locarno, onde o Brasil está sempre presente, desde a época do Cinema Novo. Este ano, as notícias sobre os planos de criação de um filtro ou pré-censura na Ancine já deram a volta ao mundo e geram inquietação.

A própria nova diretora do festival, Lili Hinstin, está inquieta, pois o risco de controle dos filmes se insere na preocupação geral e mundial em favor da liberdade de criação.

Se nada for feito para impedir as transformações dentro da Ancine, é provável que os filmes brasileiros em competição este ano, no Festival de Locarno e logo a seguir na Mostra de Veneza, sejam os últimos filmes sem censura nos festivais. E, depois da vigência da censura, é muito provável não haver mais filmes brasileiros nos festivais.

Surpreendeu a proposta do principal produtor brasileiros, Rodrigo Teixeira, de se dialogar com Bolsonaro para o Brasil não perder a importância conquistada no cenário internacional e para que a indústria cinematográfica não seja paralisada, gerando desemprego e deixando de trazer milhões de dólares ao Brasil.

É normal a preocupação de um produtor diante da ameaça feita ao cinema e suas repercussões comerciais. Porém, a questão principal, no momento, está relacionada com a liberdade de criação, e isso interessa e reúne todos os realizadores, roteiristas, criadores – enfim, toda a classe, inclusive artistas.

Que tipo de diálogo seria possível? Negociar até onde a tesoura poderá cortar? Negociar um cinema evangélico, conservador, reacionário, digno da época de Franco e Salazar? Negociar um cinema brasileiro comercial? Não acredito nesse tipo de diálogo com o diabo.

Filmes brasileiros na competição internacional
Este ano, participam da competição internacional um filme longa-metragem e dois curtas. Pode-se talvez dizer: os últimos filmes brasileiros participantes do Festival de Locarno não submetidos a filtros ou censuras. Teme-se também que os novos filmes submetidos à censura não tenham mais as qualidades exigidas pelos festivais para serem selecionados.

Mas ainda não chegamos a essa situação e é brasileiro o primeiro filme a ser exibido para o público na quinta, dia 8, na competição internacional. Trata-se de A Febre, de Maya Da-Rin, uma cineasta cuja biografia não passaria, por certo, no filtro imaginado pelo presidente Bolsonaro.

Carioca, Maya, que é cineasta mas também artista visual, tem mestrado em cinema na Nova Sorbonne, em Paris, e participou de trabalhos visuais e cinematográficos na Escola de Cinema de Cuba.

O tema do filme também não passaria pelo filtro, pois é a história da vida de um índio já “civilizado”, que trabalha como vigia no porto de Manaus. Aos quase cinquenta anos, o índio tem nostalgia da época vivida na floresta.

O filme A Febre é extremamente atual porque se insere no noticiário brasileiro publicado aqui na Europa, dando conta da invasão das reservas indígenas por garimpeiros e da intenção do presidente Bolsonaro de quebrar a sacralização das reservas para exploração de ouro e outros minérios. O tema do ataque aos indígenas vem junto com as notícias sobre o desmatamento da Amazônia, E a previsão é de salas de cinema cheias para ver A Febre e da presença de um público interessado em fazer perguntas à realizadora sobre a situação brasileira logo após a projeção.

Existem dois curtas-metragens brasileiros na competição internacional “Pardos de Amanhã”, abreviação de Leopardos de Amanhã. Um é o filme de Camila Kater, A Carne. O outro é Chão de Rua, do paranaense Tomás von der Osten. Há ainda um curta-metragem, Swinguerra, de Barbara Wagner e Benjamin de Burka, na mostra “Going Ahead”.

Cinema negro em destaque
O Festival de Locarno programou um grande destaque para os filmes que focalizam os negros no Brasil dentro de um programa geral que inclui também obras de outros países enfrentando o racismo. “Ser negro numa perspectiva internacional de contos do último século”, como definiu a diretora Lili Hinstin.

Os filmes em destaque são Orfeu Negro, de Marcel Camus, Amor Maldito, de Adélia Sampaio, e Abolição, de Zózimo Bulbul. Essas escolhas se integram também a filmes americanos sobre a realidade dos Estados Unidos, mais evidente depois dos recentes atentados naquele país. Como diz a diretora Hinstin, não se pode escolher um filme apenas por seu conteúdo, mas esses três integram também a arte ao conteúdo.

Orfeu Negro, que talvez a nova geração não conheça, será a oportunidade para muitos verem esse antológico filme musical franco-brasileiro, inspirado em Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes – Palma de Ouro em Cannes e Oscar de melhor filme estrangeiro.

Amor Maldito foi o primeiro filme dirigido por uma realizadora negra. Nisso é um filme histórico, feito em 1984. Mas seu enredo se ajusta perfeitamente à realidade atual, envolvendo homossexualidade e evangelismo, quando ainda no começo de sua fase de expansão.

Baseado numa história real, o filme mostra a relação amorosa entre a executiva Fernanda e a ex-miss Sueli. Reprimida pela família evangélica e conservadora, Sueli comete suicídio. Fernanda é acusada como responsável pela morte da companheira e julgada por um tribunal preconceituoso.

Um pormenor importante: a Embrafilme, que cuidava do cinema durante a ditadura militar brasileira, se negou a veicular o filme, considerado na época como pornochanchada, e ele só foi exibido em alguns cinemas de São Paulo.

Agora redescoberta, Adélia Sampaio é mineira criada no Rio de Janeiro, filha de empregada doméstica. Trabalhava como telefonista da Difilm, onde aprendeu a fazer filmes, até chegar ao longa-metragem Amor Maldito.

Abolição, de Zózimo Bulbul, foi um filme feito em comemoração aos cem anos da abolição da escravidão no Brasil. Zózimo era ator e realizador negro, preocupado com a valorização dos negros no Brasil.

Esses filmes foram sugeridos pela militante LGBT Janaína Oliveira, do Fórum Itinerante do Cinema Negro, que participará das mesas redondas com o público, após a exibição dos filmes.

Outros destaques em Locarno?
O Festival de Locarno exibirá na Piazza Grande um curta-metragem de Jean-Luc Godard, Carta a Freddy Buache, que foi diretor do festival e da Cinemateca Suíça, falecido este ano. O filme não foi feito agora, mesmo porque Godard já deve ter quase 90 anos. Foi feito em 1982. Uma preciosidade.

Outro destaque vai para um filme rodado na Notre-Dame de Paris, mas antes do incêndio, dirigido por Valérie Donzelli. Notre-Dame será exibido no telão de 300 metros quadrados da Piazza Grande de Locarno. O filme sobre Diego Maradona, de Asif Kapadia, também será projetado no telão da Piazza Grande.

Para concluir: o ex-diretor do Festival de Cinema de Locarno, o italiano Carlo Chatrian, deixou o posto para ser diretor artístico do Festival de Cinema de Berlim, que ocorre em fevereiro.

***

Rui Martins, do Festival Internacional de Cinema de Locarno.

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