Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CINEMA > Festival de Locarno

A ausência brasileira na mostra competitiva

Por Rui Martins em 01/08/2016 na edição 914

O diretor do Festival Internacional de Cinema de Locarno, Carlo Chatrian, nesta entrevista exclusiva dá uma visão geral do 69  Festival, que começa na quarta-feira, e deixa entrever nas entrelinhas o porquê da ausência de filmes brasileiros nas competições.

Carlo Chatrian  /  foto divulgação

Carlo Chatrian / foto divulgação

 

Pergunta – alguma razão para a ausência de filmes brasileiros nas competições do Festival de Locarno?

Carlo Chatrian – que questão engraçada, é preciso haver todo ano filmes brasileiros nas competições?

Pergunta – Não tenho a menor ideia, mas quando não há filme brasileiro, os brasileiros e os cinéfilos se perguntam o porquê e fica sempre a dúvida: será que nosso cinema vai mal, por que o cinema de outros países tem mais filmes que o nosso?

Filme “O Beduino”

Filme “O Beduino”

Carlos Chatrian – Bom, então se a pergunta for – o Festival de Locarno mantém interesse pelo cinema brasileiro? – a resposa é evidentemente, sim, e a prova é que existem  coproduções com o Brasil. Em seguida, essa ausência é consequência de escolhas que fazemos, mas essas escolhas não levam a conta a nacionalidade dos filmes. Este ano, há o filme de Júlio Bressane, O Beduíno, na mostra Sinais de Vida, filme que gostamos mas achamos ser o filme ideal para figurar nessa mostra. Há também uma pequena homenagem que faremos ao cineasta Jean-Claude Bernadet com um filme novo a ele dedicado (A destruição de Bernadet, de Cláudia Priscila e Pedro Marques, produzido por Kiko Goifman, na mostra História do Cinema), e há um brasileiro, Rodrigo Teixeira, no júri principal, o da competição internacional. Me parece que o Brasil está bem representado.

 

Filme “ A destruição de Bernadet”

Filme “ A destruição de Bernadet”

Pergunta – Por que ter sido escolhido Rodrigo Teixeira entre os produtores, existem outros, e o mexicano Arturo Ripstein?Isso significa que os latinos vão escolher os filmes premiados?

Carlo Chatrian – Nas nossas escolhas não olhamos os passaportes dos convidados e sim o que representam em termos de cinema e de experiência. Ora, Ropstein é um dos grandes cineastas do cinema moderno e me deu grande prazer por ter aceitado meu convite para presidir o júri da competição internacional, por ser um cineasta determinado a fazer um cinema livre, coisa que colocamos em evidência na competição. Quanto a Rodrigo Teixeira é um importante produtor que trabalha entre o Brasil e os Estados Unidos, bastante atento ao mundo do cinema independente e como ajudá-lo, razão de sua escolha. São dois jurados vindos da América Latina, porém por pura coincidência. Não acho que isso vá desequilibrar o júri, mesmo porque Rodrigo Teixeira representa também o cinema americano.

Pergunta – O Leopardo de Ouro ao iconoclasta chileno Alexandro Jodorowski é um aceno aos filmes de contestação de países emergentes dos antigos festivais de Locarno?

Carlo Chatrian – Não vejo muita ligação do cinema de Jodorowski com os filmes de contestação do cinema novo, daquela época. Acho que o percurso de Jodorowski é singular, alguém capaz de viver entre diversas disciplinas e agir como um franco atirador, sem pertencer a nenhum dos movimentos artísticos dos quais participou, guardando sempre uma grande independência e autonomia. Ao lhe conceder um Leopardo de Ouro por sua carreira, quisemos celebrar e prestar uma homenagem à sua carreira e, ao mesmo tempo, mostrar uma outra maneira de se fazer cinema.

Pergunta – O cinema português tinha este ano seis filmes em Berlim,e esse número dobrou aqui em Locarno, serão 13 filmes, dos quais 6 em competições. O cinema português é realmente tão bom assim?

Carlo Chatrian – Depende dos anos. Há anos com filmes brasileiros, outros sem filmes portugueses. Sou muito ligado ao cinema português, é um dos mais fortes no cinema contemporâneo. Mas na seleção dos filmes não olho a geografia, de onde vem o filme. Procuro representar o mundo todo, porém escolho principalmente os filmes, cada um em separado, único. É verdade que este ano existem muitos filmes portugueses, mas são filmes que nos tocaram. Há um filme que não escolhi para Locarno mas vejo ter sido escolhido para o Festival de Veneza, hoje, é verdade, o cinema português está muito forte. Os filmes O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, e Correspondências, de Rita Gomes Azevedo, que tem muito a ver com o Brasil, foram filmes escolhidos porque nos tocaram muito de perto e não por serem portugueses.No meu primeiro ano, prestei homenagem a Paulo Rocha, no ano passado a Manoel de Oliveira.

Pergunta – O Brasi, a lusofonia e a África se encontram no filme de Licínio Azevedo, O Comboio de Sal e Açúcar, de Moçambique. Há outros filmes africanos em Locarno?

Carlo Chatrian –  Sim, há um filme egípcio na competição internacional e outro na mostra Cineastas do Presente. este ano estou contente por poder dizer que a África retorna a Locarno. O filme de Licínio Azevedo  tem bastante força, é um western, no estilo dos grandes filmes do gênero, utilizando a história de Moçambique. Estou muito curioso por ver qual será a reação do público na Piazza Grande, foi um grande desafio programá-lo para o grande público, mas estou convencido que irá tocar o público pela força de sua história, de seus personagens e pela beleza de suas imagens.

Pergunta – O filme sobre Jean Ziegler é uma homenagem ao suíço pioneiro da luta contra o segredo bancário?

Carlo Chatrian – É um diálogo entre dois homens, o realizador e Jean Ziegler, que se conhecem há muito tempo mas que pertencem a duas gerações diferentes e com conceitos de ideologia diferentes.

Pergunta – Segui a trajetória do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, desde seu primeiro filme em Locarno, mas desconhecia sua presença na Escola de Cinema de Havana, pode nos contar alguma coisa?

Carlo Chatrian – Foi um projeto realizado por Abbas Kiarostami, com alunos da Escola Internacional de Cinema e TV, de Havana, em Cuba, no começo do ano. Escolhemos sete curtas, inclusive um do próprio Kiarostami. Para mim era importante mostrar o último filme feito por ele e, ao mesmo tempo, ver Kiarostami exercendo a função de professor, com a ironia e a leveza que sempre caracterizou sua atividade. Foi por isso que, decidimos incluir no programa de Locarno, esse trabalho escolar, logo depois de sua morte.

Pergunta – Foi intencional criar um equilíbrio de quase 50% entre cineastas masculinos e femininos na competição internacional?

Carlo Chatrian – Quando faço a seleção, olho os filmes e não os nomes dos realizadores e nem se são homens ou mulheres. Escolhemos os filmes em função do que propõem. Mas é verdade que, este ano, percebemos ter havido uma presença bem maior de filmes feitos por mulheres. Realidade que constatamos também em outros festivais e nos alegrou haver na competição internacional jovens cineastas. Ora, entre os jovens, a presença feminina é muito maior e muito mais marcante que no passado, é um bom sinal dos tempos.

***

Rui Martins é jornalista e escritor. Ele cobrirá o Festival de Locarno, entre os dias  3 e 13 de agosto.  como jornalista convidado.

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