Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CINEMA > Entrevista com Carlo Chatrian

Boas Maneiras é renovação no cinema brasileiro

Por Rui Martins em 01/08/2017 na edição 952
chatrian 2017

Carlo Chatrian é diretor artístico do Festival Internacional de Locarno.

Carlo Chatrian é diretor artístico do Festival Internacional de Locarno, nos afirmou numa entrevista exclusiva, que o cinema latino americano está numa boa fase, tomando como exemplo o cinema brasileiro. Para ele, o filme As Boas Maneiras, na Competição Internacional, de Juliana Rojas e Marco Dutra, produzido por Sara Silveira, mostra a renovação do cinema brasileiro. Deu também destaque para Severina, de Felipe Hirsch, e para Era Uma Vez Brasília, de Adirley Queirós.

Uma atração latinoamericana em Locarno, contou Chatrian, será o filme La Telenovela Errante, uma espécie de filme póstumo do realizador chileno Raúl Ruiz, pois sua viúva, Valeria Sarmiento – também cineasta – recuperou as bobinas do filme perdidas mas encontradas depois da morte de Ruiz, e cuidou a montagem, com a experiência de quem sempre montou os outros filmes do marido. O Festival de Locarno começará quarta-feira dia 2. O filme Boas Maneiras será exibido domingo dia 6, um dia depois da exibição de Severina.

Rui Martins – Quais os critérios na seleção dos filmes?

C.C. – Os filmes que escolhemos foi porque gostamos e porque são bons filmes. Nada mais que isso.

Gostou, então, do filme brasileiro?

C.C. – O filme brasileiro na competição, As Boas Maneiras, é um filme para se ir descobrindo à medida que se desenvolve a história, por isso eu não quis fazer revelações durante a coletiva com a imprensa suíça e internacional. É um filme de jovens realizadores, Juliana Rojas e Marco Dutra, que estiveram com seu primeiro filme Trabalhar Cansa, em Cannes, na mostra Um Certo Olhar.

É um filme único, mesmo se começa como tantos outros filmes brasileiros com uma jovem afrobrasileira que trabalha como doméstica para uma mulher rica, branca. A partir disso, o filme toma diversas direções. Iremos descobrir a patroa grávida, mas acho que não devo desvendar tudo, apenas que o filme se transforma depois num filme de horror. Este ano quisemos colocar dois ou três filmes desse gênero na competição, mas com realizadores já consagrados. Esse filme produzido por Sara Silveira representa a renovação no cinema brasileiro.

Outro filme brasileiro?

C.C. – Na mostra Sinais de Vida temos o filme de Adirley Queirós, com bons filmes anteriores: Era Uma Vez em Brasília. Um filme de ficção científica que deverá ser surpreendente. Ele inclui política no filme com o impeachment de Dilma Roussef, mas com esse episódio deslocado para o futuro.

Outra participação latino americana?

C.C. – Um filme póstumo do realizador Raúl Ruiz, falecido em 2011, que dispensa apresentação por ser um dos grandes cineastas não só do Chile, mestre do surrealismo, um dos herdeiros de Buñuel. O filme, cujo título é La Telenovela Errante, é algo extraordinário. Foi filmado em 1990, portanto há 27 anos, mas não chegou a ser montado por terem se perdido as bobinas. Finalmente, no ano passado, essas bobinas foram encontradas numa Universidade americana. Não sei que viagem fizeram essas bobinas para chegar lá, mas a realizadora Valeria Sarmiento, que sempre montou os filmes de Ruiz e que era sua esposa, concluiu em pós-produção e cuidou da montagem do filme, coisa não tão difícil, imagino, pela maneira como Ruiz ordenava suas filmagens facilitando a montagem.

Este filme será exibido pela primeira vez aqui em Locarno, na competição internacional. Será um presente de aniversário para os 70 anos do Festival de Locarno, mesmo porque Ruiz foi um dos cineastas premiados com o Leopardo de Ouro, aqui em Locarno, com seu filme Três Tristes Tigres. La Telenovela Errante é um filme que vem do passado mas fala do presente. É um filme que emprega o estilo da telenovela para falar da realidade que não existe mais,  de um mundo imaterial. Filme dividido em sete dias ou sete temas diferentes. Começa com o adultério, a seguir um tema político tratando de um terrorista, depois aborda uma espécie de vagabundagem, e assim por diante, entrando numa espécie de pesadelo, com as pessoas olhando a televisão e ao mesmo tempo sendo vistas pelas personagens da televisão. É um filme 100% Ruiz.

Como se pode definir o cinema hoje na América Latina?

C.C. – Encontra-se num estado muito bom. Há um outro filme brasileiro aqui na mostra Cineastas do Presente, do produtor Rodrigo Teixeira, dirigido por Felipe Hirsch, Severina. Foi todo rodado no Uruguai e tem o estilo do francês Jacques Rivette, um tanto fantástico. É a história de um livreiro e de uma jovem que frequenta a livraria, embora não se saiba se ela é real ou um fantasma projetado pelo dono da livraria.É um ano com mais filmes brasileiros em Locarno, enquanto no ano passado era a Argentina com mais filmes. Os aspectos principais tratados pelos filmes são o fantástico e o político.

E, enfim, o cinema português?

C.C. – É um ano forte do cinema português, mas infelizmente tivemos de deixar de lado dois filmes muito bons que não entraram na competição internacional. Temos, porém, um primeiro filme, na mostra Cineastas do Presente, Verão Danado, de Pedro Cabeleira, que será uma das boas surpresas deste ano.

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 Rui Martins é jornalista e convidado para participar do Festival Internacional de Locarno.

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