Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CINEMA > A Lava Jato nas telas

Feitiço brasileiro

Por Alberto Dines em 10/02/2017 na edição 933

São Paulo dá café, Minas dá leite , e a Vila Isabel dá samba. “Feitiço da Vila” , composto por Noel Rosa em 1934 , pode ganhar nova estrofe 82 anos depois, começando com o nada lírico “O Brasil dá ficção”. A realidade brasileira é tão cinematográfica que nem precisa de script, é só aguardar o desenrolar dos fatos que as cenas surgem prontas , vigorosas, enquadradas. Foi assim em toda América Latina na década de 70, 80 , com o realismo mágico traduzido na literatura por Garcia Marques, Julio Cortázar, Alejo Carpentier, Jorge Luis Borges, Manuel Scorza. Depois veio o exorcismo dos anos de chumbo deslanchado com filmes como “A Historia Oficial”,  do argentino Luís Puenzo em 1985, na época proibido no Brasil.

De repente o Brasil se encontrou com um realismo cruel, nada mágico. Quase ganhou o Oscar com “Cidade de Deus” que rendeu filhotes, e com a bilheteria de ” Ônibus 174″ e ” Tropa de Elite” a nossa cinematografia nem se preocupava em trilhar a linha bem sucedida da chanchada , do Cinema Novo. Agora tínhamos outro filão.

É o Brasil real. Com estréia marcada para junho, “Lava-Jato”,  o filme, vai exportar para o mundo a nova modalidade brasileira.filme lava jato

É a maior operação anticorrupção do mundo, com personagens para Lula (Ary Fontoura), o juiz Sérgio Moro ( Marcelo Serrado), contando a história fantástica da dilapidação da imagem de um país que já foi capa do The Economist para o bem e para o mal. Dirigido por Marcelo Antunes e produzido por Tomislav Blazic , orçado em 14 milhões de reais, vai ser um sucesso. A Lava-Jato também vai virar série na Netflix dirigida pelo mesmo José Padilha de “Tropa de Elite”.

O próximo a aparecer nas telas é ” Tudo ou Nada”, dirigido por Mariza Leão, baseado no livro de Malu Gaspar sobre Eike Batista que durante muitos anos foi a esperança de um Rio de Janeiro equiparado ao Primeiro Mundo.

Eike comprou o Hotel Glória para dar ao Brasil o primeiro hotel cinco estrelas , com 18 lojas, um luxo só , para inflar seu projeto de uma cidade turística à altura de Paris. A Marina da Gloria teria atrações como o Sena, com passeios programados até a ilha Fiscal. A Lagoa Rodrigo de Freitas seria despoluída pelo Centro de Controle Operacional de Esgoto para retirar 28 mil metros cúbicos de sedimentos e a dragagem de 97.300 metros.

Para minar a violência das gangues dos mortos do Rio, Eike contribuía com 20 milhões por ano a serem utilizados pelas UPPs. Para fazer Madona chorar doou 12 milhões de reais para a Fundação “Success for Kids ” criada para ajudar crianças brasileiras ,filhas de mães vítimas de violência. Para tirar a Santa Casa da Misericórdia da penúria em que se encontrava, deu um aparelho de ressonância magnética que custou 2 milhões de reais.

Sem Eike , o filme “Heleno de Freitas ” com Rodrigo Santoro não seria feito, nem “A Suprema Felicidade” de Arnaldo Jabor , muito menos “Cinco Vezes Favela ” de Cacá Diegues.

Para chatear os paulistas

” Faço isso tudo pelo Rio só para chatear os paulistas”, brincava.

Agora o empresário do Lamborghini estacionado na sala de jantar e de um projeto milionário para uma pasta de dentes internacional é hóspede em Bangú com a peruca high-tech raspada e a acusação de ter dado propina de 16 milhões e meio de dólares para Sérgio Cabral, agora seu colega de xilindró. Com essa bondade ganhou do governador o espaço do Porto do Açú em São João da Barra, Norte Fluminense.

 

Sem contribuir um centavo para a produção de 14 milhões de reais do filme em que será protagonista , Eike aparecerá comprando ouro no Xingu aos 22 anos, brigando com o pai por trocar a faculdade pelas empresas, e vivendo o sucesso e a derrocada do grupo X. Agora, pagando com a liberdade pelo contrato fictício da compra da mina de ouro nunca explorada na Colômbia, utilizada para repassar a Cabral os tais 16 milhões e meio de dólares.

Trágico e cômico como nas peças de Shakespeare, o projeto de Marisa Leão já ganhou filhotes na TV com a minissérie de seis capítulos e outra mais longa orçada em 8 milhões de reais.

Depois de Eike , outro script pronto, o Lava-Jato carioca produzindo a história de Sérgio Cabral, garoto da zona norte que virou governador e tornou-se o maior corrupto do país. Casado com ” Riqueza” , apelido de Adriana Ancelmo, colecionava joias, diamantes raros, ouro na bolsa de Nova York, viagens internacionais, jantares em Paris provocando a falência da cidade que Eike queria salvar. Filmaço.

***

Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa

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