Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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CINEMA > Novo olhar

O Papa Francisco é comunista?

Por Norma Couri em 05/11/2019 na edição 1062

(Foto: Reprodução YouTube)

No melhor momento histórico, a Netflix oferece no cardápio da sua plataforma o filme Dois papas, de Fernando Meirelles, que encerrou a 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É neste momento, também, que se encerra o Sínodo da Amazônia no Vaticano, em Roma, quando as críticas de “comunista” engrossam os ataques ao papa Francisco pela ala bolsonarista. A imprensa foi pródiga na cobertura do Sínodo para os leitores deste ex-maior país católico do mundo, expondo o desagrado do Exército brasileiro e dos conservadores do Vaticano às iniciativas do papa, traduzidas como “blasfêmias”.

Na realidade, o que o Sínodo e o papa Francisco propuseram foi identificar assuntos comuns aos nove países do bioma e novos caminhos para a evangelização dos povos indígenas da Amazônia, que vêem sua terra, sua produção e sua fé usurpadas. “Me entristeceu ouvir um comentário sarcástico sobre um homem devoto que carregava oferendas com plumas na cabeça”, reagiu Francisco. “Me digam: qual é a diferença entre ter plumas na cabeça e o chapéu de três pontas utilizado por certas hierarquias em nosso dicastérios? Os povos amazônicos possuem entidade própria, sabedoria própria, consciência de si. A Igreja precisa abrir suas portas, criar pontes, não muros”. A imprensa estampou ecos que os católicos julgavam nunca ouvir do Vaticano, a recomendação de ordenação de homens casados, apontando “pecados ideológicos” na destruição do ambiente, e ainda ampliar espaços da presença feminina, ou seja, um futuro diaconato para mulheres.

Na ficção, o que o belo filme Dois papas propõe é um novo olhar sobre a Igreja Católica. Para isso, usa a atuação excelente de Anthony Hopkins no lugar do cardeal alemão Joseph Ratzinger, eleito papa Bento XVI, e de Jonathan Pryce fazendo com brilho o papel do cardeal argentino Jorge Bergoglio, atual papa Francisco. Já no filme, Bergoglio reage ao uso de um chapéu extravagante, capas elaboradas e sapatos vermelhos (“o Carnaval já passou!”), e esgrima uma conversa difícil com o papa Bento XVI, que acredita na versão diametralmente oposta à sua do que deve ser a Igreja Católica. Bergoglio quer abrir, arejar, impedir a fuga de fiéis de uma religião onde não se reconhecem, quer dar comunhão e aceitar casamento entre casais divorciados e homossexuais, e condenar com veemência os crimes pedófilos cometidos nas dioceses e acobertados pelo Vaticano durante anos. Espantado, mas admirando a coragem e a popularidade do colega, o papa Bento XVI reage, irrita-se, mas afinal reconhece que, diante dos escândalos ocorridos no Banco do Vaticano e os crimes sexuais dos padres, está na hora de renunciar. O que não quer aceitar é a aposentadoria de Bergoglio, uma coisa depende da outra e o que acontece é a substituição de um papa antipatizado e com alcunha de nazista por um cardeal que é o retrato mais aproximado da opção pelos pobres trilhada por Jesus.

No meio disso tudo, a vida de Jorge Bergoglio quando era noivo, antes de receber o chamado de Deus para se tornar padre jesuíta, e o papel que teve nos anos da ditadura argentina, dialogando a favor dos perseguidos com os generais enquanto seu Colégio Máximo, de orientação marxista, sofria sequestros, sumiços, torturas que resultariam nos 3 mil argentinos “desaparecidos”. Pagou um preço por isso.

As cenas entre Bento XVI, que gosta de comer sozinho, beber Fanta e rezar missas em latim, e Bergoglio, que adora vinho com pizza, futebol, ouvir Beatles e dançar tango, são impagáveis. Um perdoa o outro na confissão, ambos buscam ouvir a voz de Deus no silêncio, ambos duvidam. Resulta um filme imperdível a ser buscado na plataforma da Netflix enquanto os resultados do Sínodo provocam tremores no Vaticano e pedidos de exclusão do papa taxado de “vermelho” pela ala direita do governo e pelo Exército brasileiro, que reinvidica as terras indígenas forradas de minérios. Vale a pena aprofundar a compreensão dos conflitos religiosos com outros filmes apresentados na Mostra. Joana D’Arc, de Bruno Dumont, retrata a divisão do sagrado e do profano, da arrogância dos cardeais formados nos moldes do Direito Canônico e da teologia no século XV, da fé da menina de 15 anos que ousa ser soldado para defender a França dos ingleses e acaba queimada como bruxa pelos inquisidores. E o filme da cineasta argelina Mounia Meddour, Papicha, ao mostrar, nos anos 1990, a jovem estudante de moda Nedjema, que ousa desafiar o fundamentalismo islâmico.

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Norma Couri é jornalista.

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