Domingo, 28 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº943

CINEMA > Berlinale 2017

Personagens femininos dominam premiações

Por Rui Martins em 18/02/2017 na edição 934

O estranho filme húngaro “Sobre Corpo e Alma”, da cineasta Ildikó Enyedi, no qual um homem e uma mulher têm o mesmo sonho, embora não se conheçam e só trabalhem no mesmo lugar, ganhou o Urso de Ouro de melhor filme, no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Os sonhos ocorrem numa floresta. Maria, controladora de qualidade da carne bovina num matadouro moderno da qualidade da carne bovina, sonha ser uma alce fêmea.  Endre, o gerente do matadouro sonha ser o alce macho.

Essa coincidência de relações entre eles e o casal de alces, intriga uma psicóloga ao descobrir que ambos sonham a mesma coisa – uma atração entre os animais, que se aproximam mas não copulam. Informados pela psicóloga, ambos passam a se perguntar sobre os sonhos da noite anterior, se aproximam e chegam a dormir no mesmo quarto, a pretexto de conferir os sonhos.

Maria tem tudo de uma mulher fria, solitária, que, mesmo na cantina, procura ficar só para comer. Tem tudo de uma frígida, que vê pornografia por curiosidade e não par se excitar. Endre procura entrar nesse mundo frio e reservado.

Esse mesmo tema de mulher frígida ou com problemas de relacionamento sexual surgiu no filme romeno Ana Meu Amor, revelando ser provavelmente uma consequência do isolamento das pessoas na sociedade moderna.

O Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri foi para o filme do cineasta franco-senegalês Alain Gomis, “Félicité”, nome de uma mulher congolesa em Kinshasa, cantora num bar, cujo filho motoqueiro sofre um acidente e perde uma perna. Entre cantos e músicas, perda de emprego, falta de dinheiro para tratar do filho, Félicité, cujo nome quer dizer felicidade, se mantém forte, decidida, lutadora, social e exuberante, nada tendo a ver com a Maria apagada e fria do filme Urso de Ouro.

O terceiro prêmio pela ordem de importância, é o Urso de Prata Prêmio Alfred Bauer para filmes que trazem alguma inovação. No caso, o filme da polonesa Agniezka Holland, cujo título “A Pista”, consiste numa trama entre policial e naturalista, envolvendo uma engenheira aposentada Duszejko, vivendo numa região montanhosa perto da fronteira com a República Checa.

Vidrada em astrologia, ela garante poder dizer a data de sua morte, com base na data do seu nascimento e signo astral. Bem na moda, ela é vegetariana e não suporta temporadas de caçadores, carnívoros em geral e muito menos quem mata cachorro para medir a pontaria. Por isso, fotos de caçadores com seus troféus podem se transformar num guia para assassinatos em série, cometidos discretamente e de maneira orgânica e biológica.

O Urso de Prata de Melhor Direção foi para o filme o Outro lado da Esperança, dirigido pelo finlandês Aki Kaurismaki, no qual o papel principal é de um sírio clandestino acolhido por um dono de restaurante, enquanto a Finlândia se alinha entre os países sem solidariedade.

O Urso de Prata de melhor interpretação feminina foi para a coreana Kim Minhee, no filme “Sozinha de Noite na Praia”, de Hong Sangsoo.

O Urso de Prata de melhor interpretação masculina foi para Georg Friedrich, no papel de um pai numa viagem pelas montanhas desertas norueguesas, junto com o filho que o detesta por ter se separado da mãe. Filme “Noites Claras”, de Thomas Arslan.

O Urso de Prata do Melhor Roteiro foi para Sebastian Lelio e Gonzalo Maza, pelo filme transgênero Uma Mulher Fantástica de Sebastian Lelio, com a transsexual Daniela Vega.

O Urso de Ouro para o melhor curta-metragem foi para o cineasta português Diogo Costa Amarante com o filme Cidade Pequena.

O filme Pendular, de Julia Murat, ganhou o premio da crítica internacional FIPRESCI.

Como previmos, o filme brasileiro não ganhou nenhum prêmio, nem os oficiais dos júris independentes.

Depois das manifestações político-partidárias em Cannes, Locarno e agora em Berlim, fica nossa sugestão para os cineastas e atores brasileiros suspenderem essas iniciativas que vão se tornando ridículas e, se continuarem, acabarão virando piada. Deixem o manifesto, as faixas e os slogans para quando o filme ganhar algum prêmio, não antes. Não utilizem pretextos políticos para chamar atenção sobre seus filmes.

N.R. segue uma seleção das notas enviadas por Rui Martins sobre filmes participantes da Berlinale 2017

Nem Joaquim e nem Marcelo encontram o ouro

Joaquim, o personagem principal do filme brasileiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, não achou o ouro tão desejado pelo colonizador português. Marcelo Gomes, o realizador, também não. Mas o filme tem um filão precioso: o de incorporar a presença negra, no relato do episódio histórico daquela que seria a primeira tentativa de rebelião contra Portugal.

Porque, geralmente, quando se fala em libertação brasileira da colonização portuguesa são esquecidos os escravos, submetidos tanto aos portugueses quanto aos brasileiros da elite branca em formação. Ao criar a figura imaginária de Preta, a mulher por quem se apaixonara Joaquim, o realizador Marcelo Gomes, criou na condição da escrava que  Joaquim não podia comprar, o fator detonador da revolta de Titadentes.

Como costuma ocorrer, as explicações e mesmo um certo debate do realizador com a crítica, na tradicional entrevista coletiva posterior à exibição do filme, completaram a compreensão de alguns aspectos da nossa colonização, não muito claros no filme. Durante algumas dezenas de minutos, o filme se perde no garimpo do ouro, tornando-se mesmo um documentário desnecessário.

Marcelo Gomes na apresentação do filme descreveu a colonização portuguesa com uma das piores, provocando explicações contrárias de um crítico nascido na Eritréia, que enumerou os excessos cometidos pelos italianos contra as populações africanas. A própria produtora portuguesa e um crítico português reagiram contra à má catalogação dos colonizadores portugueses. Na verdade, não existiram bons ou menos maus colonizadores, tanto espanhóis, holandeses, ingleses, italianos como franceses tratavam os colonizados como seres inferiores, igualando-se embora de maneiras diversas nas suas políticas e crueldades.

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Um jantar indigesto

O filme O Jantar (The Dinner) com Richard Gere e Laura Linney nos papéis principais, embora servido num restaurante de alta classe com o maitre apresentando cada prato, desde a entrada ao digestivo, acaba sendo indigesto aos convivas.

Logo depois de servida a entrada e enchidos os copos com bom vinho, dois irmãos com suas esposas vão colocando sobre a mesa um recente problema criado por seus filhos, dois adolescentes.

A exemplo do ocorrido já algumas vezes em Brasília e em Porto Alegre, talvez também em outras cidades brasileiras, os dois garotos da alta classe norte-americana, o pai de um deles é político e deve se apresentar como candidato a governador, atearam fogo e provocaram a morte de uma indigente sem casa, maltrapilha, que enrolada num cobertor tentava dormir numa cabine destinada a um aparelho para retirada de dinheiro.

O gesto deliberado provocava gargalhadas nos adolescentes, que aproveitaram para filmar com o celular a luta da mulher contra as chamas.

Enquanto o jantar avançava a mãe de um dos rapazes defendia seu filho, colocando a culpa na mulher sem teto por ter assustado os garotões. A outra mulher era a segunda esposa do futuro candidato a governador (Richard Gere), mas embora não fosse a mãe, defendia o rapaz com ardor. Ela era também a madrasta de uma menina e de um filho adotivo negro também adolescente, deixados pela primeira esposa que abandonara a família para fazer meditação na Índia.

Bem antes da sobremesa, sabe-se que o filho adotivo, que não participara do crime, conseguira colocar na Internet a vídeo do irmão e primo criminosos, tendo rejeitado uma oferta em dinheiro feita pelo primo, para ficar quieto.

Enfim, depois do digestivo, o irmão do candidato a governador, que é psicótico, tenta quebrar a cabeça do sobrinho adotivo negro, que tinha colocado a vídeo do crime na Internet. E a esposa do candidato a governador ameaça seu marido de divórcio, se ele denunciar os culpados, como pretende, numa entrevista com a imprensa.

Na entrevista coletiva tanto o diretor Oren Moverman como o ator Richard Gere, conhecido por posições claras em defesa dos direitos humanos e que esteve ontem com a chanceler alemã Angela Merkel, afirmaram que o egoismo ou a defesa dos próprios interesses são paralelos com a ideologia pregada pelo novo presidente americano Donald Trump.

Richard Gere foi mais longe, pois ressaltou ter havido nos EUA um aumento de atos violentos e agressões racistas desde a campanha eleitoral de Trump. Os dirigentes que provocam o medo nas pessoas são responsáveis por incitar crimes terríveis.

O Jantar é o único filme americano na competição internacional do Festival de Berlim.

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O desafio de Berlim com filme transexual

“Será que os espectadores estão preparados para ver um filme com transexual? Eu acho que não”, diz o cineasta Sebastián Lelio, realizador do filme que é uma provocação até no título – Uma Mulher fantástica.

A mulher personagem do filme é a amante de um empresário, que morre subitamente de um aneurisma; a mulher atriz do filme é a colombiana Daniela Vega, transsexual.

Sebastian Lelio é conhecido em Berlim, onde seu terceiro filme Glória, ganhou o Urso de Prata de melhor interpretação feminina.

Para ele, fazer filme com personagem principal feminino é alguma coisa intuitiva, fora a fascinação e a atração provocada por filmar alguém diferente de sua condição masculina.

Assim como Glória, a mulher fantástica Marina é do gênero forte, marcante e autossuficiente, como definiu a atriz Daniela Vega sua personagem, vítima de acusações e perseguições da família do amante falecido, por ser algo diferente dentro dos conceitos admitidos.

Marina era a amante do empresário Orlando, que provocara a separação do casal legal, mas não era uma amante como tantas outras existentes nas melhores famílias burguesas. Marina tinha nascido homem e se transformara numa mulher, bela mulher por sinal, era uma transsexual, fazendo parte, portanto, do catálogo de rejeições dos conservadores. E isso inclui não apenas pessoas, como religiões e mesmo países, que confundem transsexualismo como homossexualismo.

Durante a entrevista com a crítica, o cineasta Sebastián Lelio aproveitou para se pronunciar em favor das diferenças sexuais. “Nosso mundo ocidental parece ser mais civilizado e defende uma bandeira humanista que aceita nossas diferenças inclusive sexuais. Mas as famílias conservadoras talvez não estejam preparadas para aceitar a inclusão dos transsexuais dentro da família”.

E diante do surgimento do populismo, mesmo sem citar Donald Trump, Sebastián Lelio coloca uma questão atual: “Como sociedade global vivemos um momento delicado, diante da contracorrente que ameaça fazer recuar todos os avanços por nós obtidos nos últimos tempos. Que mundo estamos construindo: um mundo de muralhas e guetos ou um mundo de inclusão e vida comum? Assistimos atualmente ao choque dessa colisão de forças e de energias. E o resultado dirá para onde iremos, não só no Chile mas no mundo inteiro, sobre os amores possíveis e impossíveis. Meu filme não pretende dar uma resposta para tudo, mas quer saber qual será a reação dos espectadores”.

Na linha das provocações, a atriz Daniela Vega, respondendo a uma resposta sobre qual seu próximo papel, responde: “gostaria de viver o papel de uma mulher grávida”.

Qual a história do filme Uma Mulher Fantástica, que irá provocar reações e escândalos?

Um empresário de 57 anos, Orlando, tem um caso de amor com Marina, mulher transsexual, com quem vive e pela qual rompeu o casamento legal.

No aniversário de Marina, bem mais nova, depois de uma comemoração no restaurante e de terem se amado, Orlando acorda de noite se sentindo mal, acaba rolando pela escada e, embora levado ao hospital com urgência, morre.

Marina não é aceita como uma normal amante de Orlando, cuja família lhe impede mesmo de ir à cerimônia do enterro. Num encontro no qual Marina entrega a chave do carro de Orlando à esposa legal, esta lhe fala que a opção de Orlando poderia ser considerada uma perversão. Mesmo a polícia considera Marina suspeita pela morte do amante.

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Berlin, Trainspotting vinte anos depois

Eles formavam uma quadrilha, porém Mark Renton partiu com as 16 mil libras de um tráfico de heroína. Vinte anos depois, Renton retorna da Holanda a Edimburgo e reencontra Spud, Sick Boy e Begbie, em situações diversas e mesmo perigosas.

T2 é uma continuacão de Trainspotting? Seu diretor Danny Boyle nega essa suspeita, porém, a impressão é de um retorno dos quatro para reviverem, num contexto diferente, as aventuras que excitaram jovens hoje quarentões.

“Não é uma sequência, mesmo porque o clima da época de Trainspotting era outro, tudo mudou, e seria impossível se reeditar com o mesmo impacto as aventuras do passado”, diz Danny Boyle, o diretor e criador, que não precisa provar nada, pois já embolsou até um Oscar com Slumdog Millionaire.

Mesmo assim, não se pode evitar os comentários maldosos dos que vêem os amadurecidos jovens de outrora como num exercício de come-back no estilo dos Rolling Stones.

Mas não se pode negar, o filme tem música, movimento, fotografia, cenas, enfim, tudo de bom, mesmo para os jovens de agora que nunca viram o primeiro Trainspotting. A atriz búlgara Anjela Nedyalkova contou, no encontro com a imprensa, ter visto essa primeira versão quando bem adolescente e não ter gostado de certas cenas chocantes.

Agora participante do T2, ela viveu Veronika, a esperta garota que soube convencer o grupo a criar um grande bordel com sauna em Edinburg, mas fugiu para Sofia com as 100 mil libras obtidas para execução do projeto, deixando seus amigos sem nada e obrigados a viverem novas aventuras.

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Berlinale  lembra a perseguição nazista aos ciganos

Django, filme de abertura do 67.Festival Internacional de Cinema de Berlim,de Etienne Comar, é um dos raros que abordam a questão da perseguição dos ciganos pelos nazistas. Trata-se de um filme biográfico, biopic na linguagem cinematográfica, contando de maneira romanceada a vida de alguém importante. Django Reinhardt foi um dos grandes guitarristas europeus dos anos 40 e 50, tendo tocado com os grandes do jazz americano e feito uma tournée com Louis Armstrong pelos Estados Unidos

Apesar de ter dois dedos atrofiados em consequência de um incêndio, era um virtuoso da guitarra, com sua banda tocava swing, blues e principalmente jazz, tendo sido um ícone da música popular em Paris, na época da Ocupação.
No seu momento de maior prestígio, sentindo-se ameaçado por ser cigano, nascido na Bélgica, quando seus pais viajavam pela Europa em roulottes (carroças), decidiu fugir para a Suíça.

O filme Django deixa em suspenso se o guitarrista foi ou não acolhido pelos suíços, em 1943, mas o diretor Ettiene Comar, falou de uma rápida acolhida, seguida de um retorno à França, para a cidade de Toulon, onde possuía parentes. Em Toulon, Django permaneceu incógnito, mas retornou a Paris, depois da Libertação quando compôs um Réquiem para seus irmãos ciganos, para órgão, orquestra e coro.

Essa composição foi executada apenas uma vez, em Paris, foi dedicada a todos os ciganos massacrados pelos nazistas. A maior parte da partitura se perdeu, porém o diretor do filme, Etienne Comar, obteve uma reconstituição para as cenas finais do filme com fotos de ciganos mortos nos campos de concentração nazistas. Django não é um filme biográfico típico. Etienne Comar, seu realizador, preferiu colar a imagem de Django no contexto das perseguições contra os ciganos, alvos do mesmo extermínio projetados pelos nazistas.E essa história de perseguição étnica, num momento de guerra, se reveste de grande atualidade.

Ao ver os ciganos perseguidos, os espectadores se conscientizam de que hoje o mundo revive um momento de guerra e perseguição, gerador de centenas de milhares de refugiados. E a história se repete interpretada por outros líderes mundiais no papel dos mesmos personagens. Django não é um filme de entretenimento porque pode provocar má consciência nos espectadores. Fechar a Europa e as Américas aos refugiados? Quem quer ter hoje o papel de Hitler, na nova encenação do drama vivido nos anos 30 pela humanidade? Qual será o papel escolhido por Donald Trump?

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Rui Martins é jornalista e está em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

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