Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

CINEMA > Festival de Locarno

Filme búlgaro ganha Leopardo de Ouro com forte crítica social

Por Rui Martins em 15/08/2016 na edição 916

Cerca de trinta anos depois da queda do comunismo na Bulgária, nada mudou na vida das pessoas comuns. Num filme extremamente pessimista, a realizadora Ralitza Petrova critica a desumanidade e a insensibilidade da sociedade búlgara de hoje, porém seu filme pode ser interpretado num sentido mais amplo e universal, o de uma sociedade humana destituída de valores.

O título em inglês do filme búlgaro ganhador do Leopardo de Ouro é “Godless”, que se pode traduzir por impiedade ou sem Deus. Seja qual for sua escolha, ela corresponde à história filmada pela realizadora Ralitza Petrova ao contar a vida da enfermeira Gana, especializada em visitas domiciliares a idosos já sem memória ou com demência senil. As tomadas em close do rosto de Gana dominam o filme, mostrando uma mulher fria, infeliz, de olhar mau, duro e antissocial, alguém que não gosta da profissão e acaba utilizando o contato com essa clientela perto da morte, para ganhar um dinheiro a mais.

Ralitza Petrova, a realizaodra do filme Godless, Leopardo de Ouro em Locarno

Ralitza Petrova, a realizadora do filme Godless, Leopardo de Ouro, em Locarno

Gana subtrai os documentos de identidade desses velhos para vendê-los, com o auxílio de seu companheiro, a uma máfia de falsificadores de documentos e ladrões de identidades que vão utilizá-los em negócios diversos. O companheiro de Gana é mecânico de automóveis ligado a delinquentes e, ao mesmo tempo, amigo do delegado local e de policiais, que conhecem seus contatos com delinquentes, havendo um clima de cumplicidade. Gana gostaria de ter uma vida sexual ativa, mas seu amigo poderia ser definido como impotente, talvez pelo uso que ele e Gana fazem da morfina.

O negócio de revender as identidades dos velhos funciona sem problemas, mas vez ou outra aparece alguém desconfiado e se Gana informa seu companheiro, sempre se dá um jeito. Insensível, Gana pouco se importa com os métodos ou soluções usados. Porém, surge na sua vida árida um cliente velho, ainda bastante ativo e  ligado em música, disposto a criar um coral, do qual Gana decide participar. Entretanto, a identidade roubada do velho provocou uma pesada dívida, que ele não poderá pagar.

Gana cai na realidade e percebe os efeitos funestos dos roubos de documentos. Decide parar com seu comércio e denunciar à polícia o tráfico, sem pensar na cumplicidade dos policiais. A miséria provoca a desumanidade e acaba com todos os bons sentimentos entre as pessoas? E o que causa a miséria?
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Rui Martins, está em Locarno, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.
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