Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CINEMA > Berlinale 2017

Um jantar indigesto em Berlim

Por Rui Martins em 14/02/2017 na edição 933

N.R.  Estivemos fora do ar durante o início do Festival de Cinema de Berlim devido a migração do nosso site para um novo servidor. Neste período o nosso colaborador Rui Martins enviou notas sobre os filmes concorrentes, publicadas a seguir em ordem não cronológica.

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O filme O Jantar (The Dinner) com Richard Gere e Laura Linney nos papéis principais, embora servido num restaurante de alta classe com o maitre apresentando cada prato, desde a entrada ao digestivo, acaba sendo indigesto aos convivas.

Logo depois de servida a entrada e enchidos os copos com bom vinho, dois irmãos com suas esposas vão colocando sobre a mesa um recente problema criado por seus filhos, dois adolescentes.

A exemplo do ocorrido já algumas vezes em Brasília e em Porto Alegre, talvez também em outras cidades brasileiras, os dois garotos da alta classe norte-americana, o pai de um deles é político e deve se apresentar como candidato a governador, atearam fogo e provocaram a morte de uma indigente sem casa, maltrapilha, que enrolada num cobertor tentava dormir numa cabine destinada a um aparelho para retirada de dinheiro.

O gesto deliberado provocava gargalhadas nos adolescentes, que aproveitaram para filmar com o celular a luta da mulher contra as chamas.

Enquanto o jantar avançava a mãe de um dos rapazes defendia seu filho, colocando a culpa na mulher sem teto por ter assustado os garotões. A outra mulher era a segunda esposa do futuro candidato a governador (Richard Gere), mas embora não fosse a mãe, defendia o rapaz com ardor. Ela era também a madrasta de uma menina e de um filho adotivo negro também adolescente, deixados pela primeira esposa que abandonara a família para fazer meditação na Índia.

Bem antes da sobremesa, sabe-se que o filho adotivo, que não participara do crime, conseguira colocar na Internet a vídeo do irmão e primo criminosos, tendo rejeitado uma oferta em dinheiro feita pelo primo, para ficar quieto.

Enfim, depois do digestivo, o irmão do candidato a governador, que é psicótico, tenta quebrar a cabeça do sobrinho adotivo negro, que tinha colocado a vídeo do crime na Internet. E a esposa do candidato a governador ameaça seu marido de divórcio, se ele denunciar os culpados, como pretende, numa entrevista com a imprensa.

Na entrevista coletiva tanto o diretor Oren Moverman como o ator Richard Gere, conhecido por posições claras em defesa dos direitos humanos e que esteve ontem com a chanceler alemã Angela Merkel, afirmaram que o egoismo ou a defesa dos próprios interesses são paralelos com a ideologia pregada pelo novo presidente americano Donald Trump.

Richard Gere foi mais longe, pois ressaltou ter havido nos EUA um aumento de atos violentos e agressões racistas desde a campanha eleitoral de Trump. Os dirigentes que provocam o medo nas pessoas são responsáveis por incitar crimes terríveis.

O Jantar é o único filme americano na competição internacional do Festival de Berlim.

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O desafio de Berlim com filme transexual

“Será que os espectadores estão preparados para ver um filme com transexual? Eu acho que não”, diz o cineasta Sebastián Lelio, realizador do filme que é uma provocação até no título – Uma Mulher fantástica.

A mulher personagem do filme é a amante de um empresário, que morre subitamente de um aneurisma; a mulher atriz do filme é a colombiana Daniela Vega, transsexual.

Sebastian Lelio é conhecido em Berlim, onde seu terceiro filme Glória, ganhou o Urso de Prata de melhor interpretação feminina.

Para ele, fazer filme com personagem principal feminino é alguma coisa intuitiva, fora a fascinação e a atração provocada por filmar alguém diferente de sua condição masculina.

Assim como Glória, a mulher fantástica Marina é do gênero forte, marcante e autossuficiente, como definiu a atriz Daniela Vega sua personagem, vítima de acusações e perseguições da família do amante falecido, por ser algo diferente dentro dos conceitos admitidos.

Marina era a amante do empresário Orlando, que provocara a separação do casal legal, mas não era uma amante como tantas outras existentes nas melhores famílias burguesas. Marina tinha nascido homem e se transformara numa mulher, bela mulher por sinal, era uma transsexual, fazendo parte, portanto, do catálogo de rejeições dos conservadores. E isso inclui não apenas pessoas, como religiões e mesmo países, que confundem transsexualismo como homossexualismo.

Durante a entrevista com a crítica, o cineasta Sebastián Lelio aproveitou para se pronunciar em favor das diferenças sexuais. “Nosso mundo ocidental parece ser mais civilizado e defende uma bandeira humanista que aceita nossas diferenças inclusive sexuais. Mas as famílias conservadoras talvez não estejam preparadas para aceitar a inclusão dos transsexuais dentro da família”.

E diante do surgimento do populismo, mesmo sem citar Donald Trump, Sebastián Lelio coloca uma questão atual: “Como sociedade global vivemos um momento delicado, diante da contracorrente que ameaça fazer recuar todos os avanços por nós obtidos nos últimos tempos. Que mundo estamos construindo: um mundo de muralhas e guetos ou um mundo de inclusão e vida comum? Assistimos atualmente ao choque dessa colisão de forças e de energias. E o resultado dirá para onde iremos, não só no Chile mas no mundo inteiro, sobre os amores possíveis e impossíveis. Meu filme não pretende dar uma resposta para tudo, mas quer saber qual será a reação dos espectadores”.

Na linha das provocações, a atriz Daniela Vega, respondendo a uma resposta sobre qual seu próximo papel, responde: “gostaria de viver o papel de uma mulher grávida”.

Qual a história do filme Uma Mulher Fantástica, que irá provocar reações e escândalos?

Um empresário de 57 anos, Orlando, tem um caso de amor com Marina, mulher transsexual, com quem vive e pela qual rompeu o casamento legal.

No aniversário de Marina, bem mais nova, depois de uma comemoração no restaurante e de terem se amado, Orlando acorda de noite se sentindo mal, acaba rolando pela escada e, embora levado ao hospital com urgência, morre.

Marina não é aceita como uma normal amante de Orlando, cuja família lhe impede mesmo de ir à cerimônia do enterro. Num encontro no qual Marina entrega a chave do carro de Orlando à esposa legal, esta lhe fala que a opção de Orlando poderia ser considerada uma perversão. Mesmo a polícia considera Marina suspeita pela morte do amante.

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Berlin, Trainspotting vinte anos depois

Eles formavam uma quadrilha, porém Mark Renton partiu com as 16 mil libras de um tráfico de heroína. Vinte anos depois, Renton retorna da Holanda a Edimburgo e reencontra Spud, Sick Boy e Begbie, em situações diversas e mesmo perigosas.

T2 é uma continuacão de Trainspotting? Seu diretor Danny Boyle nega essa suspeita, porém, a impressão é de um retorno dos quatro para reviverem, num contexto diferente, as aventuras que excitaram jovens hoje quarentões.

“Não é uma sequência, mesmo porque o clima da época de Trainspotting era outro, tudo mudou, e seria impossível se reeditar com o mesmo impacto as aventuras do passado”, diz Danny Boyle, o diretor e criador, que não precisa provar nada, pois já embolsou até um Oscar com Slumdog Millionaire.

Mesmo assim, não se pode evitar os comentários maldosos dos que vêem os amadurecidos jovens de outrora como num exercício de come-back no estilo dos Rolling Stones.

Mas não se pode negar, o filme tem música, movimento, fotografia, cenas, enfim, tudo de bom, mesmo para os jovens de agora que nunca viram o primeiro Trainspotting. A atriz búlgara Anjela Nedyalkova contou, no encontro com a imprensa, ter visto essa primeira versão quando bem adolescente e não ter gostado de certas cenas chocantes.

Agora participante do T2, ela viveu Veronika, a esperta garota que soube convencer o grupo a criar um grande bordel com sauna em Edinburg, mas fugiu para Sofia com as 100 mil libras obtidas para execução do projeto, deixando seus amigos sem nada e obrigados a viverem novas aventuras.

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Berlinale  lembra a perseguição nazista aos ciganos

Django, filme de abertura do 67.Festival Internacional de Cinema de Berlim,de Etienne Comar, é um dos raros que abordam a questão da perseguição dos ciganos pelos nazistas. Trata-se de um filme biográfico, biopic na linguagem cinematográfica, contando de maneira romanceada a vida de alguém importante. Django Reinhardt foi um dos grandes guitarristas europeus dos anos 40 e 50, tendo tocado com os grandes do jazz americano e feito uma tournée com Louis Armstrong pelos Estados Unidos

Apesar de ter dois dedos atrofiados em consequência de um incêndio, era um virtuoso da guitarra, com sua banda tocava swing, blues e principalmente jazz, tendo sido um ícone da música popular em Paris, na época da Ocupação.
No seu momento de maior prestígio, sentindo-se ameaçado por ser cigano, nascido na Bélgica, quando seus pais viajavam pela Europa em roulottes (carroças), decidiu fugir para a Suíça.

O filme Django deixa em suspenso se o guitarrista foi ou não acolhido pelos suíços, em 1943, mas o diretor Ettiene Comar, falou de uma rápida acolhida, seguida de um retorno à França, para a cidade de Toulon, onde possuía parentes. Em Toulon, Django permaneceu incógnito, mas retornou a Paris, depois da Libertação quando compôs um Réquiem para seus irmãos ciganos, para órgão, orquestra e coro.

Essa composição foi executada apenas uma vez, em Paris, foi dedicada a todos os ciganos massacrados pelos nazistas. A maior parte da partitura se perdeu, porém o diretor do filme, Etienne Comar, obteve uma reconstituição para as cenas finais do filme com fotos de ciganos mortos nos campos de concentração nazistas. Django não é um filme biográfico típico. Etienne Comar, seu realizador, preferiu colar a imagem de Django no contexto das perseguições contra os ciganos, alvos do mesmo extermínio projetados pelos nazistas.E essa história de perseguição étnica, num momento de guerra, se reveste de grande atualidade.

Ao ver os ciganos perseguidos, os espectadores se conscientizam de que hoje o mundo revive um momento de guerra e perseguição, gerador de centenas de milhares de refugiados. E a história se repete interpretada por outros líderes mundiais no papel dos mesmos personagens. Django não é um filme de entretenimento porque pode provocar má consciência nos espectadores. Fechar a Europa e as Américas aos refugiados? Quem quer ter hoje o papel de Hitler, na nova encenação do drama vivido nos anos 30 pela humanidade? Qual será o papel escolhido por Donald Trump?

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Rui Martins é jornalista e está em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

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