Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CIRCO DA NOTíCIA > DECISÕES CRUCIAIS

A piada que virou verdade

Por Carlos Brickmann em 11/12/2012 na edição 724

Este teste circula há muitos anos em redações: imagine que você, com uma máquina fotográfica, esteja fazendo a cobertura de uma enchente. De repente, vê um grupo de políticos (escolha aqueles de que menos gosta) sendo arrastados para a morte, e passando ao alcance de suas mãos. Você pode fotografá-los e ganhar um prêmio, ou pode salvá-los.

Escolha a alternativa: vai usar cores ou branco e preto?

Pois não é que aconteceu? Uma rápida desinteligência numa estação do metrô de Nova York levou um senhor a empurrar outro para a linha do trem, que estava chegando. A vítima ainda tentou escapar, e chegou perto; segundo dizem, se alguém lhe tivesse dado a mão, teria escapado. Não conseguiu e morreu esmagado.

Surgiram então dois debates éticos:

1. Deveria o fotógrafo ter largado a máquina e tentado salvar a vítima? Ele diz que bateu as fotos como consequência de sua decisão imediata: o que tentou fazer foi piscar o flash para que o maquinista do trem tivesse a atenção despertada para a tragédia que se aproximava. Mas, de qualquer forma, a foto, mostrando uma pessoa que sabia que ia morrer dentro de instantes, é impressionante, notável, inesquecível.

2. Deveria o jornal ter publicado a foto na primeira página? O argumento de quem foi contra é que a pessoa tem o direito de preservar sua privacidade no momento da morte, e esse direito foi violado.

As discussões são interessantes, mas algumas preliminares têm de ser debatidas. A primeira: teria o fotógrafo, efetivamente, a possibilidade de salvar a vítima? Estaria na distância adequada para isso? Segundo, pode-se questionar sua decisão, sabendo que foi tomada em centésimos de segundo, sem tempo para pensar? Foi algo que, à primeira vista, fez no reflexo. A segunda: existirá privacidade possível numa estação do metrô de Nova York?

São temas interessantes para pensar e para trocar ideias. A Abraji, associação de jornalistas investigativos, tem estimulado o intercâmbio de opiniões e já obteve uma série de posições estimulantes, que merecem estudos.

A questão da morte na primeira página foi, por muito tempo, estudada nos jornais brasileiros. Os grandes jornais evitavam fotos, exceto quando inevitáveis; noticiavam as mortes, informavam as causas, mas jamais tocavam no tema do suicídio. As normas parecem hoje mais frouxas, mas continua existindo a ideia de que boa parte dos leitores abre o jornal durante o café da manhã.

E há um detalhe que fragiliza a posição do fotógrafo. A CNN fez ampla cobertura do caso, mas não conseguiu ouvi-lo. Só lhes daria entrevista mediante pagamento.

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Nem com pauta?

Nélio Nicolai, o brasileiro que criou o sistema de identificação de chamadas telefônicas, o Bina, derrubou na semana passada, na Justiça Federal, a liminar que o impedia de receber pagamentos pela utilização de seu invento. Até hoje, era a festa do caqui: Nélio Nicolai trabalhou, criou o sistema, todo mundo o utiliza e pagar, que é bom, só agora, tantos anos depois de tê-lo patenteado.

Detalhe: só um veículo da grande imprensa deu a notícia. Foi o Jornal do Commercio do Rio, na coluna “Confidencial”, do sempre bem-informado Aziz Ahmed. Por que os demais veículos não terão dado a notícia? Certamente não foi para evitar desagradar grandes anunciantes, que isso certamente não lhes passaria pela cabeça. Será que foi para não passar recibo do furo que Aziz Ahmed lhes deu?

 

Pesquisa sem apoio

Esta coluna mostrou, na semana passada, alguns problemas enfrentados pelo Incor, Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, orgulho da medicina de ponta do estado de São Paulo e do país, e hoje necessitando de urgente recuperação – recuperação que só será possível se os meios de comunicação mostrarem os problemas e trabalharem a opinião pública para que um hospital público se mantenha na vanguarda da saúde.

O problema, informa a pesquisadora Roseli Buzzanelli Torres, do conceituadíssimo Instituto Agronômico de Campinas, e que fala em nome da APqC, Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo, não se limita ao Incor. Outros tradicionais e importantíssimos centros de pesquisa de ponta estão sem verbas, abandonados pelo poder público.

O patrimônio dos institutos de pesquisa de São Paulo – que, na verdade, é patrimônio paulista e brasileiro, ilha de excelência no país – está em risco; a tal ponto que a ApqC já representou ao Ministério Público para que entre no caso. Os salários dos pesquisadores são tão baixos que até institutos federais (cujo trabalho é também de ótima qualidade) têm conseguido atrair o pessoal paulista. Os concursos públicos para ingresso nas carreiras de pesquisa e apoio à pesquisa são feitos em intervalos inaceitavelmente grandes. E, dados os salários baixos, muitos bons pesquisadores recentemente contratados prestam concurso para outros locais e deixam seus cargos.

O caro colega tem encontrado reportagens a esse respeito nos grandes veículos de comunicação – inclusive os que se dizem de oposição ao governo estadual? Não: sair atrás de informações dá trabalho e, não, a reportagem não pode ser resolvida via internet. É preciso gastar sola de sapato, tomar sol e chuva. Matérias declaratórias dão menos trabalho e exigem apenas dois ou três telefonemas.

Esta coluna está aberta para informações sobre pesquisa, pesquisadores, problemas de nossas instituições científicas de ponta. E torce para que os grandes meios de comunicação se lembrem da importância da pesquisa e relacionem os investimentos em pesquisa com o desenvolvimento dos diversos países

 

Adeus, amigo

Nunca cheguei a trabalhar com ele: estivemos próximos, ele no Estado de S.Paulo, eu no Jornal da Tarde. E mais próximos ainda com a boa amizade que cultivamos, sua mãe, Yole de Capri, escritora e jornalista (um único livro, O analista disse não, ocupa quatro páginas de citações no Google), e eu. Mas era difícil conhecer a fundo o Everton Capri Freire: ele trocava de emprego e de profissão, trocava de estado, foi morar nos Estados Unidos (e se deu muito bem por lá), voltou ao Brasil, virou autor teatral, agora com o nome de Tom Capri.

Neste vai e vem, muitas vezes perdemos contato direto, mas sempre foi possível saber o que é que o Everton andava fazendo – assessoria de imprensa, entrega de pizza, teatro, cinema, tudo. E agora, a pancada: na última semana, uma embolia pulmonar matou o antigo companheiro. OK, a vida continua, the show must go on, seja feita a Sua vontade, mas o fato é que é difícil saber que Everton se foi e tolerar este fato, se bem que não haja alternativa.

 

Como…

Está num grande jornal impresso, de circulação nacional, a informação de que o Napoli venceu o Palermo por 5×1. Excelente resultado: o time se mantém perto da liderança.

O resultado teria sido melhor ainda se o derrotado fosse o Palermo. Segundo o texto da notícia, o Napoli goleou mesmo foi o Pescara.

 

…é…

Artigo de um grande jornal europeu, republicado no Brasil por um veículo impresso de circulação nacional, comentando a colocação de mísseis da Otan na fronteira da Turquia com a Síria:

** “Será um ataque totalmente defensivo (…)”

 

…mesmo?

Da BBC de Londres, comentando a possível decisão do título mundial interclubes entre Corinthians e Chelsea:

** “O Corinthians tem dois estrangeiros no ataque: Paolo Guerrero e Emerson Sheikh são, respectivamente, peruano e qatari”.

Paolo Guerrero é peruano. Emerson Sheikh é de Nova Iguaçu (RJ).

E pensar que houve época em que se podia confiar nas informações da BBC!

 

Questão de cheiro: quem ganha…

O emprego tem salário atraente na maior parte do mundo; na China, então, onde operários olham o salário mínimo brasileiro com água na boca, é inacreditavelmente bom. Tudo bem, é meio árduo; mas, se trabalho fosse mesmo bom, o empregado é que pagaria para exercê-lo, não?

Pois do que se trata: uma vertente médica acredita que é possível diagnosticar alguns males (e o progresso ou não do tratamento) a partir do cheiro da flatulência. Os especialistas em cheirá-lo estão sendo procurados a bom preço: salários de R$ 100 mil anuais, mais de R$ 8 mil mensais, uma beleza. Exige-se olfato apurado, claro; e um treinamento para distinguir as diversas nuances odoríficas da flatulência, classificando-as para que o especialista faça o diagnóstico.

Apenas como comentário, alguns notáveis homens públicos dispõem de avantajado captador nasal e poderiam fazer sucesso nesse trabalho. Pena que, como já demonstraram, sejam incapazes de sentir o mau cheiro no seu entorno.

 

…e quem perde

A notícia abaixo, fantástica, foi divulgada por O Diário, de Maringá (PR). Um cavalheiro de 68 anos encontrou-se com uma conhecida (de cujo nome não se recorda, ou prefere dizer que não se recorda) e, depois de algum tempo de conversa, resolveram partir para os finalmentes. Entraram como clandestinos numa garagem fechada, acomodaram-se e a senhora pediu que o cavalheiro baixasse as calças, para que ela pudesse cheirar suas partes íntimas. Ele topou. A moça então foi embora e ele não pode segui-la com as calças arriadas. Quando se ajeitou, ela já tinha sumido. Tinham sumido também R$ 550 que estavam em seu bolso. A polícia investiga o caso como “golpe do suadouro” – aquele em que um dos parceiros é distraído por brincadeiras sexuais enquanto o outro rouba seus pertences.

 

E eu com isso?

Comeu, não comeu? E por que nem ele, nem ela, nem a terceira falam? E por que um deputado de Minas Gerais, na Câmara dos Deputados, em Brasília, quer dar palpite em São Paulo e mudar o nome do aeroporto mais tradicional da cidade? Por que ele não muda o nome da igreja da Pampulha, que fica em seu estado, para igreja da Pampulha – Marcos Valério? Ou, na frase imortal do rei Juan Carlos da Espanha, por que não cala a boca?

É chato demais! Enquanto isso, acompanhemos os ídolos em suas atividades diárias, que consistem em aparecer em público e mostrar que são ídolos:

** “Mari Alexandre curte feriadão ao lado do filho”

** “Hale Berry circula sorridente por Los Angeles”

** “Revista divulga foto romântica de Ivete Sangalo com o marido”

** “Anne Hathaway passeia com seu cão por Nova York”

** “Famosos apoiam a posse de Joaquim Barbosa”

** “Justin Bieber não gosta de elevadores”

** “Com look de oncinha, Fernanda Lima inaugura shopping no Rio”

** “Robert Pattinson não conhece nenhuma música do One Direction”

** “Relax de Michelle Alves com a família em Miami”

** “Rihanna sensualiza e posa com a língua de fora”

** “De vestido de renda, Scheila Carvalho vai a evento em São Paulo”

** “Famosas conferem inauguração de salão de beleza em São Paulo”

 

O grande título

Há uma bela variedade, caprichadíssima. Podemos começar com um título daqueles de índio americano de cinema:

** “Mãe de Lindsay Lohan está disposta a ficar se internar na reabilitação com a filha”

A gente entende, se bem que o português continue a ser a última flor do Lácio cada vez mais inculta e menos bela. Ou talvez não seja isso: é que prestar atenção no serviço de colocar títulos dá muito, muito, muito trabalho!

Outro inesquecível título é aquele que, considerando-se a maldade que reside no cérebro de cada um, pode induzir a alguns pensamentos não apenas indecentes como também engraçados:

** “Prefeito de Porto Velho é afastado e proibido de se aproximar de órgão”

Que evite ao máximo os líquidos, as frutas com caldo; diuréticos, então, nem pensar. Quem o ajudaria o tempo todo, já que nem se aproximar do órgão ele pode?

E o grande, notável título da semana:

** “Máquinas devem voltar a crescer no ano que vem”

Essas máquinas não deviam fazer isso. Quando crescem, têm problemas nas juntas, as engrenagens não mais combinam, os parafusos começam a soltar-se. Dão um trabalho danado!

***

[Carlos Brickmann é jornalista e diretor da Brickmann&Associados Comunicação]

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