Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CIRCO DA NOTíCIA >

Bater na Fifa virou esporte nacional

Por Carlos Brickmann em 23/07/2013 na edição 756

O esporte nacional não é mais o futebol. O esporte nacional é bater na Fifa, organizadora da Copa do Mundo. Não importa o que a Fifa diga, está errado – mesmo quando o que a Fifa diz está de acordo com as opiniões de quem a critica. Trata-se a Fifa, nos meios de comunicação, como se fosse uma entidade todo-poderosa, acima dos países e governos, a quem humilha por pura maldade, embora a Fifa seja apenas, para o bem e para o mal (e frequentemente para o mal, já que há inúmeros casos de corrupção a ela relacionados, que sempre procurou contornar em vez de esclarecer), uma empresa privada, não pertencente a governo nenhum, criada e operada com o objetivo exclusivo de desenvolver seus negócios e dar lucros.

Alguns fatos básicos têm sido esquecidos pelo jornalismo deste país – inclusive que, sob o comando da Fifa, o futebol cresceu constantemente no mundo inteiro. Como lembrava o ex-presidente João Havelange, há mais países filiados à Fifa do que à ONU. As tentativas de minar a organização internacional (como a formação de times não-afiliados, em especial o Millonarios, da Colômbia, que reuniu em certa época alguns dos maiores nomes do futebol mundial) sempre falharam. Estarão todos errados, não haverá ninguém que se salve?

1. A Fifa não pediu ao Brasil para organizar a Copa. Vários países, entre eles o Brasil, pediram à Fifa que os escolhesse para realizar o torneio. Entre vários candidatos, o Brasil venceu – não apenas a CBF, Confederação Brasileira de Futebol, mas o Estado brasileiro, já que o presidente da República participou das articulações para que o país fosse escolhido e assinou, oficialmente, uma carta em que se comprometia a realizar ou garantir uma série de providências. Entre elas, por exemplo, providenciar a permissão de venda de cerveja nos estádios, o que era vedado pela lei brasileira. O Brasil poderia ter rejeitado a exigência e a Fifa ou aceitaria a decisão ou realizaria a Copa em outro país. Simples assim.

2. A Fifa não determinou que o Brasil construísse estádios em cidades onde o futebol não é lá muito popular. Brasília, Manaus, Campo Grande provavelmente terão problemas para utilizar os estádios depois da Copa. Quem escolheu essas cidades? O governo brasileiro e a CBF. Se Belém fosse escolhida, em vez de Manaus, para a Fifa não faria diferença. E no Pará o futebol é esporte popular. Em Goiânia há um belo estádio que poderia ser modernizado a custo muito inferior ao da construção de um novo. Em Brasília é bem mais difícil utilizá-lo – a tal ponto que querem importar jogos cariocas para dar-lhe sentido.

3. A Fifa não determinou, também, que a Copa se realizasse em doze cidades-sede. Doze é muito; encareceu as obras (o que talvez tenha deixado muita gente satisfeita), encarecerá o turismo, tornará mais cansativo e mais caro o giro das seleções. Por que doze, e não seis? Porque o Brasil assim o quis.

4. O Brasil precisa de escolas, hospitais, transporte, e não de novos estádios. Voltamos à questão inicial: a opção foi oficial, brasileira. Para realizar a Copa, seria preciso deixar os estádios confortáveis, modernos, prontos para transmissão internacional de TV, equipados para uso de Internet. A Fifa também não obrigou o governo a colocar dinheiro em equipamento esportivo. O governo é que fez as opções: estádios padrão Fifa, muitos deles com dinheiro público. É ruim? Se for, a escolha foi nossa, do nosso governo democraticamente escolhido.

5. A realização da Copa não deixa nenhum legado útil à população do país. Aceitemos, para argumentar, que isto seja rigorosamente verdadeiro (e não é). Mas Barcelona aproveitou a oportunidade dos Jogos Olímpicos para modernizar-se, tornar-se mais bonita, mais agradável, mais acolhedora. A oportunidade é a mesma; se o Brasil a perdeu, não pode botar a culpa em gente de fora.

5. O presidente da Fifa, Joseph Blatter (que este colunista, a propósito, considera uma figura pouquíssimo recomendável), disse que talvez a entidade tenha cometido um erro ao escolher o Brasil para realizar a Copa. Pode ter razão ou não; mas não é exatamente a mesma coisa que dizem os críticos da disputa da Copa no Brasil? Blatter disse, em outras palavras, que poderia ter escolhido lugar mais tranquilo. Poderia; e parece estar arrependido da escolha. Não há em suas palavras, entretanto, nenhuma ameaça imperialista de violar a soberania brasileira e mudar a Copa de país, embora isso possa acontecer (e pelo menos dois outros países americanos, Estados Unidos e México, têm condições de realizá-la com pouquíssimo tempo de preparação). Se isso ocorresse, realizaria o sonho de quem acha que a Copa é um desperdício de tempo e dinheiro. E não seria a primeira vez: a Colômbia, em 1986, desistiu da Copa devido a problemas de segurança, e o México a realizou com tranquilidade.

Quanto ao mais, caro leitor, tanto Blatter como seu adjunto Jerôme Volcker não são pessoas cuja visita possa considerar-se agradável. Só que o problema não é este: os dois, arrogantes, autoritários, prepotentes, antipáticos, foram convidados pelo governo brasileiro. Não vieram à força; foram chamados. É duro admitir, mas estão aqui porque ueremos, conforme decisão de nossos governantes.

 

Prender, depois perguntar

Um detalhe vem passando despercebido na terrível notícia de que policiais paulistas encarregados de combater o tráfico de entorpecentes foram presos, acusados exatamente de participar do tráfico de entorpecentes: o chefe do Serviço de Inteligência do Denarc, Departamento de Narcóticos da Polícia Civil, delegado de carreira, foi preso e sua prisão, como não poderia deixar de ser, foi amplamente divulgada. No dia seguinte, a Justiça o libertou; e o Ministério Público, que havia pedido a prisão, concordou com a libertação, já que nada havia contra ele. Este colunista não entende:

1. Se nada havia contra ele, por que foi preso, com as consequências previsíveis para sua família, seus filhos na escola? Não importa a destruição de sua reputação?

2. Se o objetivo era apenas ouvi-lo, por que a prisão? O correto é chamar o cavalheiro a depor; caso não se apresente espontaneamente, deve ser conduzido ao depoimento (“sob vara”, coercitivamente). Em geral, para que uma pessoa seja interrogada coercitivamente, basta que um policial – ou, no caso, delegado do mesmo nível hierárquico – vá buscá-lo. Em último caso, determina-se a prisão. Prisão, com fotos, filme, divulgação, não é comprimidinho para dor de cabeça, que mal não faz, mesmo que o problema continue a existir; prisão é coisa séria, já que envolve reputação, família, carreira. Não é para ser usada à vontade.

3. Como no caso do cirurgião da antiga piada, comunicando ao paciente que, por engano, cortara os testículos em vez das amígdalas, que é que se vai fazer? Pedir desculpas? Deixar pra lá? Esquecer que, a cada vez que o nome do delegado for consultado no Google, lá estarão as notícias de sua prisão por motivo vexaminoso (e falso, só que isso não estará nessas notícias)? E aquela ideia tão popular neste país, “ele deu um jeito de se esquivar”, como é que vão tirá-la da cabeça da opinião pública? Qual o tipo de punição para os responsáveis pela prisão que, ao que eles mesmos disseram, foi feita sem que nada houvesse contra o preso? Ficarão um dia sem sobremesa? Ou serão aposentados compulsoriamente, com aposentadoria integral, ganhando sem trabalhar?

Houve época em que os grandes jornais fariam editoriais sobre o tema e pediriam a importantes juristas que escrevessem sobre isso. Ainda bem que, hoje, há confortáveis poltronas para que o consumidor de informação espere sentado.

 

Se é bom, disfarce

A história é sensacional: uma juíza, Sônia Moroso Terres, da 1ª Vara Criminal de Itajaí, SC, estava num avião pronto para decolar, em Viracopos, SP, com destino a Itajaí, e reconheceu um cavalheiro que havia condenado há três anos, e que estava desde então foragido, numa poltrona próxima. Discretamente, avisou a Polícia Civil de Itajaí e o comissário de bordo. Quando o voo chegou ao destino, o condenado foi preso. A juíza explicou a situação aos demais passageiros e foi aplaudida. O cavalheiro tinha sido condenado por abusar sexualmente de seus filhos, então com quatro e cinco anos de idade, nas visitas semanais que lhe faziam.

E que tem a imprensa com isso? O condenado foi preso no dia 14. E quem melhor publicou a notícia, até o dia 23, foi o bom portal jurídico gaúcho Espaço Vital. TV, jornais, rádio, Internet foram discretíssimos: quem procurar o caso no Google verá que o portal especializado divulgou o caso com muito mais ênfase do que a imprensa em geral. É tão raro aparecer uma notícia boa como esta (um criminoso que atacava sexualmente os próprios filhos é reconhecido e preso)! E, quando acontece, sai com a máxima discrição possível?

 

Dinheiro na mão é vendaval

O caro colega sabe como é difícil, hoje, convencer as empresas a liberar recursos para uma reportagem fora da sede. Mas isso não ocorre em todas: uma revista, pelo menos, escancara os bolsos para repórter que precisa viajar. Enviou dois profissionais de primeiro time a Adis Abeba, capital da Etiópia, exclusivamente para entrevistar o ex-presidente Lula. E, embora a revista seja mensal, com todos aqueles problemas que tanto conhecemos para apresentar matérias recentes, no caso nada atrapalhou: em poucos dias saiu a reportagem.

Não há voos diretos do Brasil para Adis Abeba. Com uma escala, são pouco mais de 20 horas de voo; com duas, 30 horas. Também não há muitos voos: normalmente, é preciso ficar uma semana por lá para enfrentar as 20 ou 30 horas do voo de retorno. O preço por pessoa, ida e volta, oscila perto de R$ 4.500,00. Dois repórteres, portanto, só com passagens, gastaram R$ 9 mil, mais uma semana de hotéis, alimentação, transporte, tudo para entrevistar um político que mora em São Bernardo, no máximo a uma hora de São Paulo, sede da revista.

Louvemos, pois, o retorno dos investimentos jornalísticos em viagens!

 

Quem confia em quem

Há quem reclame, quem jure que ninguém se preocupa com o que é noticiado naquilo a que chamam de “grande mídia”, que diga que só se informa em determinados blogs de Internet (aqueles que chamam americano de “estadunidense”, garantem que inflação é invenção de golpista e louvam o “Querido Líder” Kim Jong-un, herdeiro da dinastia criada pelo “Estimado Líder” Kim il-Sung e o “Grande Líder” Kim Jong-il). E que é que mostram as pesquisas?

A Edelman Global Entertainment Study ouviu 31 mil pessoas em 26 países, entre eles o nosso. No Brasil, a imprensa é a instituição de maior credibilidade: 66% confiam nos veículos de comunicação. O governo tem metade: 33% de credibilidade. O estudo da Edelman confirma pesquisa realizada no início do mês pela Transparência Internacional, que mostra que no Brasil “a percepção sobre corrupção envolvendo a mídia é menor na comparação com a maioria dos países”.

 

Um dos grandes

Uma perda imensa: morreu Mansour Chalitta, diplomata e escritor, grande conhecedor da cultura árabe e um de seus principais divulgadores no Brasil. Um homem de múltiplas culturas: nasceu na Colômbia, passou muitos anos no Líbano, estudou Direito na França e Jornalismo nos Estados Unidos, radicou-se há mais de 50 anos no Brasil – aqui traduziu o sagrado Corão, a obra de Gibran Khalil Gibran, contribuiu poderosamente para que obras como as Mil e Uma Noites, na versão completa, se tornassem acessíveis ao leitor brasileiro. Diz o provérbio que ninguém é insubstituível. Mas há pessoas difíceis de substituir.

 

Xega de abuzo

Tudo bem, como em toda atividade profissional, a Assessoria de Imprensa conta com gente de maior ou menor capacidade, de maior ou menor conhecimento, de maior ou menor discernimento. Mas espera-se que um senador milionário, presidente de uma milionária confederação nacional patronal, com verbas milionárias de gabinete saídas de nosso bolso, busque alguém capaz de escrever “assessoria” – e não, como é constante, “acessoria”. Não, não é engano eventual, nem erro de digitação: a insistência é notável. Pelo menos seguem uma norma rígida e estável no mau português.

 

Frases

Do consultor e apresentador de TV Ricardo Amorim:

** “Beneficiários do Bolsa Família pagam meia na Copa. Alguém que consegue pagar os ingressos para a Copa recebe Bolsa Família?”

Do humorista Hélio de la Peña:

** “Você é a favor de transformar Renan Calheiros em crime hediondo?”

Do jornalista e apresentador Pedro Bial:

** “Há que se respeitar a ignorância dos outros.

Do ator Eri Johnson, sobre uma cirurgia pela qual passou:

** “Não quero levantar a bandeira da hemorroida, mas as pessoas precisam ficar alertas.

 

Como…

De um grande portal noticioso, ligado a um jornal impresso de circulação nacional:

** “Governo brasileiro desiste de exportar 6.000 médicos cubanos”

Só que o governo brasileiro parece ter desistido é de importar os cubanos.

 

…é…

De um importante jornal impresso, de circulação nacional:

** “(…) entre os motivos que desenham um horizonte mais difícil, estão a desvalorização do dólar, que traz um risco para a inflação (…)”

Só que o dólar não se desvalorizou: ao contrário, valorizou-se em relação ao real. Já o real, sim, se desvalorizou em relação ao dólar.

 

…mesmo?

De um press-release, daqueles que, imagina-se, são feitos com todo o cuidado, examinados e aprovados pelo cliente e enviados às redações:

** “Helicóptero (…) – Dê ‘hélises’ a sua imaginação com este belo helicóptero você passará horas se divertindo, voa de verdade, e tem lindos efeitos luminosos!”

Talvez os lindos efeitos luminosos tenham mexido com a pontuação e trocado o “c” das pobres hélises.

 

As não notícias

Um dia (ou noite, talvez – quem sabe madrugada, como se vai noticiar assim com certeza um horário que talvez esteja errado?), algum leitor, ou eventualmente ouvinte, pode ser também telespectador ou internauta, é preciso tomar cuidado porque a informação nunca é bem checada, vá reclamar desses textos. É preciso estar prevenido!

E toque a fugir da notícia, a jamais dar uma informação precisa. É uma nova norma jornalística: procurar a não notícia.

1. Ataque a ônibus no Sinai deixa três mortos, diz o título. Segundo o texto, houve lançamento de granadas num ônibus que transportava trabalhadores egípcios. E quem lançou as granadas? Diz o texto: “Supostos militantes”.

Quem atira granadas num ônibus de trabalhadores é militante, ou suposto? Por que evitar o nome “terroristas”, já que o objetivo do ataque a civis egípcios desarmados era exatamente espalhar o terror?

2. O rapaz é ferido quando alguém lhe atira um cinzeiro no rosto, na famosa festa de casamento do Copacabana Palace. Ele reconhece quem jogou o cinzeiro. E que diz o título? “Ferido reconhece suposto agressor”.

3. Este é mais requintado, porque vem com vídeo. Dá até para ver pessoalmente qual é a notícia que o próprio portal que a divulga tenta colocar em dúvida. “Vídeo mostra suposto carro da PM atirando contra manifestantes no Rio; assista”.

Como será um carro da PM que não seja “suposto”?

 

E eu com isso?

Manifestações, confrontos, tumultos? Pois aqui está um recanto tranquilo: só boas notícias, só notícias de paz (com exceção de um ou outro divórcio). Aqui a notícia é aquela que, com a qual ou sem a qual, o mundo seria tal e qual.

** “Bebê de Kate Middleton e do príncipe William pode assumir o trono britânico”

** “Kayky Brito brinca com borboleta”

** “Orlando Bloom leva Flynn e Sidi para passear no Central Park de NY”

** “Reflexiva, Luana Piovani curte praia no Rio de Janeiro”

** “Johnny Depp revela que não usa cueca”

** “Luiza Possi caminha pela Lagoa em tarde ensolarada”

** “‘Tive arrepios dos pés à cabeça’, diz Avril Lavigne sobre seu casamento”

** “Carmo Dalla Vecchia passeia com seus cachorros na orla do Leblon”

** “Gêmeas, Ashley Olsen e Mary-Kate Olsen comemoram 27 anos”

** “Gisele Bündchen gosta de comprar lingerie sexy para dias especiais”

** “Amanda Bynes ataca Obama e Michele”

** “Neymar é flagrado vestido de caipira em festa julina em Florianópolis”

 

O grande título

Às vezes, quem escreve a frase conhece tão bem os fatos que nem percebe a possibilidade de um duplo sentido. Neste título, por exemplo: o bebê nem nasceu e já está grávido de seu primeiro filho?

** “Zara Phillips, prima de William e neta de Elizabeth 2ª, anuncia gravidez de seu primeiro filho”

Ou neste, já partindo para o duplo significado mais apimentado:

** “Férias pedem enrolado de salsicha”

Às vezes, da certeza do redator surge um título esquisitíssimo:

** “Ministério contrata Assistência Técnica para 1.440 mulheres de seis Estados”

Este colunista é do tempo em que assistência técnica era destinada a aparelhos que estavam funcionando mal. Gente costumava ser tratada por médicos.

São títulos ótimos, todos. Mas nenhum bate o que se segue:

** “Cego é preso acusado de vigiar assalto em Goiás”

A história que não foi contada deve ser ótima!

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Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

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