Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CIRCO DA NOTíCIA > JORNALISMO CULTURAL

Harakiri literário

Por Norma Couri em 06/08/2013 na edição 758

Num harikari literário em golpe de mestre a Editora Abril cometeu semana passada seu suicídio ritual fechando a revista Bravo!, os sites literários Sibila, Germina Literatura, Musa Rara e outros afins. Brutal quando o leitor ainda (mal) se recuperava do fim do “Sabático”, no Estado de S.Paulo, do encolhimento da “Ilustríssima” na Folha, do fim da revista Cult e outros tantos que até me espanta. E enquanto os órfãos corriam para o que restou foi ficando visível, às vezes risível, o empobrecimento do material com a rubrica “Cultura”. Estão vetados temas que o marketing da empresa não considera adequado à classe emergente. Cultura virou Geni, joga pedra. Se o cinto aperta, os samurais afiam as espadas, cortam “Cultura”.

Ninguém vai notar. A última Bravo!, de junho, trazia uma capa herética para o departamento de números, um guia do Renascimento para o século 21. Falava de Graciliano Ramos e Rubem Braga, num teatro surreal, em todo aquele jazz genial que inclui Charles Mingus e Chet Baker, no documentário sobre a performer Marina Abramovic, no filme sobre a filósofa judia alemã Hanna Arendt que identificou a banalização do mal ao descrever o nazista Adolf Eichmann julgado e enforcado em Jerusalém.

Que falta essas coisas farão? Essa traição ao leitor trará dilemas?

Lá e cá

Vou recorrer ao El Paísdeste sábado (3/8) e ao suplemento Babelia onde Antonio Muñoz Molina percebia – como nós – como tudo ficava mais claro de repente. “As autoridades culturais e econômicas se aliam com êxito para estrangular de uma vez o teatro, o cinema, prejudicar a indústria editorial”. Muñoz Molina falava da destruição de riquezas culturais que levam ao desastre de uma sociedade, agrava a ignorância, extingue o debate nas áreas de ciências humanas, ética e filosofia. E contribui para formar cidadãos cada vez menos críticos, subalternos, asfixiados.

Viva a cultura de massa, o pagodinho, a dança da garrafa, o levezinho. Viva a língua mal falada e pior ainda escrita, viva a capacidade de não pensar, viva uma sociedade à qual não fará falta a ética, a filosofia, a ortografia, a literatura com suas revistas literárias. Um lugar onde os livros cada vez mais caros são produto vintage. E Muñoz Molina falava da Espanha, imaginem.

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Norma Couri é jornalista

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