O caminho da reportagem | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quarta-feira, 22 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1001
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CIRCO DA NOTíCIA > ARTES DO OFÍCIO

O caminho da reportagem

Por Carlos Brickmann em 18/03/2014 na edição 790

Os jornais tentam imitar a internet, publicando matérias pequenas, usando cores, tentando ao máximo transformar textos em imagens. Bobagem: a internet é instantânea, tem movimento, é de graça. Jornal impresso competir com internet é suicídio – e, no entanto, quantos seguem este caminho!

Mas a deserção de boa parte dos veículos impressos não fez com que a grande reportagem desaparecesse: ela apenas migrou. Na semana passada, uma matéria antológica explodiu na tela da Rede Globo: elaborada por dois repórteres de primeiríssimo time, Eduardo Faustini e Luiz Cláudio Azevedo, a reportagem investigou as escolas públicas dos estados que tiveram as médias mais baixas no Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (PISA). Os dois repórteres passaram dois meses percorrendo Alagoas, Maranhão e Pernambuco. Mesmo para quem já sabia que a situação era péssima, a reportagem surpreendeu: mostrou escolas sem água de beber, sem banheiro, sem transporte; há lugares em que não há salas de aula para dar aula. Como suprir a falta de banheiro? Alunos e professores vão para o mato. Há crianças que para chegar à escola tomam um caminhão que as leva até a rodovia por onde passa o ônibus escolar – isso se não chover. Se chover, o caminhão não consegue chegar à rodovia. Cadernos? Imagine!

Jaboatão dos Guararapes, a segunda cidade de Pernambuco, fica encostada a Recife. Ali não há papel higiênico, nem proteção contra as chuvas: choveu, a água entra. Vassoura, detergente? Só quando os pais de alunos se cotizam. E em duas escolas da cidade os esgotos estão abertos. Há seis anos é assim.

Numa escola indígena não há onde colocar os alunos. As aulas são dadas debaixo de uma mangueira, quando não chove. Já em Lagoa Grande, Pernambuco, a escola tem mais conforto: dispõe de um ventilador. Um ventilador para a escola inteira, para todas as salas. Em Codó, Maranhão, ventiladores não são o problema: como a escola não tem eletricidade, não haveria como ligá-los. E, como não há luz, as aulas são dadas apenas em dias ensolarados.

Merenda? Há em algumas escolas, mas apenas em parte do ano. Numa das escolas, a fossa aberta fica dentro da cozinha – a cozinha onde se prepara a merenda. E quando não há merenda? Saem os alunos para catar frutas no mato.

De acordo com a reportagem, 44,5% das escolas do país não dispõem da infraestrutura mínima necessária: água, banheiro, esgoto, eletricidade, cozinha. O ideal, claro, seria que a escola tivesse, além do básico, uma biblioteca, uma quadra de esportes, sala dos professores, parque infantil; e acesso à internet, alguns computadores, laboratório de ciências. Segundo a reportagem do Fantástico, só 0,6% das escolas públicas brasileiras dispõem desse tipo de equipamento.

Claro, claro, temos um ministro da Educação, todos os estados têm secretário da Educação, todos os municípios têm secretário da Educação. Só falta mesmo a educação propriamente dita. Exibida a reportagem, uma ou outra coisa foi resolvida – por exemplo, chegaram as cadeiras à escola onde as crianças não tinham onde acomodar-se. Dava para resolver, mas esperaram que alguém denunciasse.

E há quem estranhe o mau desempenho do Brasil no quesito Educação.

É uma reportagem cara, que envolve dois profissionais de primeira linha na reportagem, mais equipes técnicas, mais transporte, alimentação, hospedagem, tudo durante dois meses. Mas, se os meios de comunicação não existem para mostrar como é de verdade o nosso país, para que é que existem?

 

No vai da valsa

A presidente Dilma Rousseff está criando um novo Nelson Rodrigues, que nada tem a ver com o grande renovador do teatro brasileiro: é um Nelson Rodrigues a quem Sua Excelência atribui qualquer frase que lhe venha à cabeça e que, graças aos meios de comunicação, que com frequência funcionam como gravadores acríticos limitados a transcrever o que lhes é dito, acaba passando como verdade. Pior: essas frases vão para o Google e servirão de base para este Nelson Rodrigues que nunca existiu.

A última frase de Dilma, citando Rodrigues, foi dita durante o anúncio da concessão de trechos de estradas federais, em Brasília. “Eu aproveito e uso de uma imagem feita pelo grande Nelson Rodrigues que dizia que os pessimistas fazem parte da paisagem assim como os morros, as praças e os arruamentos”.

Se lhe fosse dado ouvir essa frase mal elaborada que lhe foi atribuída, Nelson Rodrigues reagiria com arrancos triunfais de cachorro atropelado; é óbvio ululante que ele, criador de expressões notáveis, jamais diria ou escreveria algo tão tosco e desarrumado. Esta frase simplesmente não existe na obra de Nelson Rodrigues, nem ele usaria certas expressões nela contidas (Ruy Castro, o grande biógrafo de Rodrigues, que leu e releu todos os seus textos, jamais tinha se deparado com algo tão estapafúrdio).

Não se entende por que a fixação de Dilma em citar Rodrigues. Ela é perfeitamente capaz de criar suas próprias frases, sem buscar muletas externas. Por exemplo, caprichou ao falar de banda larga numa entrevista coletiva, logo após a reunião com investidores patrocinada pelo Goldman Sachs, em Nova York:

“Tem uma infraestrutura muito importante para o Brasil, que é também a infraestrutura relacionada ao fato de que nosso país precisa ter um padrão de banda larga compatível com a nossa, e uma infraestrutura de banda larga, tanto backbone como backroll, compatível com a necessidade, que nós teremos para entrarmos na economia do conhecimento, de termos uma infraestrutura, porque no que se refere a outra condição, que é a educação, eu acho importantíssima a decisão do Congresso Nacional do Brasil em relação aos royalties.

A destinação dos royalties e do fundo social para a educação, esses dois elementos, um de infraestrutura e outro na área de educação, constituem nosso passaporte também para o futuro. Então, é um programa ambicioso, ele tem vários desdobramentos, ele não para aí, porque ainda inclusive nós não vamos iniciar esse processo, estamos em fase de discussão, esse que estou falando da banda larga. Mas eu estou aqui completando para vocês porque eu vou falar, aí, então, fica completado para vocês.”

 

Coroando tudo

Frase de Dilma no Dia Internacional da Mulher:

“A mulher abre o negócio, tem seus filhos, cria os filhos e se sustenta, tudo isso abrindo o negócio”.

 

A cereja do bolo

Dilma Rousseff já abriu seu negócio, uma loja especializada em produtos de até R$ 1,99. Mas não conseguiu mantê-lo aberto.

 

Censura ou mentira

O candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, pediu à Justiça que obrigue o Google, o Bing e o Yahoo a excluir notícias que considera falsas. Aécio se coloca como vítima de crime virtual: a ampla divulgação de uma reportagem, que avalia como caluniosa, segundo a qual o Ministério Público de Minas o acusa de desvio de recursos. O pedido foi negado em primeira instância pela juíza Ana Cláudia Dabus. Segundo a juíza, o procedimento correto seria pedir a retirada de conteúdo ofensivo de determinadas páginas da rede. Diz também a juíza que não é possível impor aos portais de pesquisa um controle prévio dos termos utilizados nas matérias indexadas. Houve interposição de agravo e a desembargadora Mary Grun o negou.

É um belo debate (embora na hora errada: nas proximidades das eleições, as tendências partidárias influenciarão pesadamente quem opina nas redes sociais). Aécio, sem dúvida, está propondo que haja censura prévia aos mecanismos de busca, o que não apenas é inaceitável como também vai contra a Constituição. Entretanto, resta uma questão efetiva a resolver: basta publicar uma notícia caluniosa e falsa em algum lugar para que a patrulha entre em ação, divulgando-a ao máximo (isso vale em qualquer caso, não apenas neste, do candidato Aécio). E a repercussão será ampliada pelo registro nos portais de buscas. Até que o processo judicial para punir os caluniadores seja concluído, a notícia falsa continuará em exposição, prejudicando suas vítimas. E, quando o processo for concluído, mesmo que os caluniadores sofram penas pesadas, o objetivo da calúnia terá sido alcançado: o prejuízo eleitoral para um candidato.

Este caso envolve Aécio e o PSDB; mas há na internet centenas de notícias totalmente falsas, ou distorcidas, atingindo também outros partidos e parentes de políticos. É fulano que comprou uma fazenda, sicrano que mora num palácio, beltrano que é viciado em cocaína etc.

Este colunista já enviou muitos desmentidos a amigos – por exemplo, com relação à compra de uma bela fazenda no interior paulista, informou que o dono da fazenda, milionário, bem sucedido, que destina boa parte de seu tempo e dinheiro a uma obra extremamente meritória, não havia vendido a propriedade. Não só não havia vendido, afirmou, como há muitos anos não recebia propostas por ela. Não adiantou. E um cavalheiro ainda reagiu dizendo que, mesmo não sendo a notícia correta, era bom divulgá-la por atingir adversários políticos.

A questão está na Justiça. Mas é um tema interessantíssimo de debate para os jornalistas. Que tal travá-lo neste Observatório da Imprensa?

 

Ao vencedor, as sardinhas

É melhor ler o jornal do que ficar desinformado. Mas, muitas vezes, a diferença não é tão grande assim. Outro dia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tinha marcado um almoço em São Paulo com empresários. O almoço foi remarcado para o dia seguinte, em Brasília, porque militantes da Força Sindical resolveram realizar uma sardinhada em frente ao restaurante onde haveria o almoço. Enquanto preparavam suas sardinhas na brasa, tumultuaram a agenda de Sua Excelência.

Há algumas perguntas que não foram feitas (e, portanto, nem respondidas):

1. Sendo São Paulo a cidade brasileira onde há mais restaurantes, não haveria nenhum outro, além do originalmente escolhido, para receber o ministro e seus convidados?

2. Não haveria à distância de dois, no máximo três quarteirões, vários outros restaurantes do mesmo padrão do bloqueado pela sardinhada?

3. Imaginemos que não houvesse nenhum restaurante, do padrão apreciado por ministros e empresários, com mesas suficientes para acomodar a todos. Mas há vários estabelecimentos de primeiro nível com salões utilizados para eventos. Os grandes hotéis têm salões de variados tamanhos, todos com serviço de refeições; o clássico restaurante francês La Casserole, no centro da cidade, tem um esplêndido salão de eventos, uma bela carta de vinhos, um cardápio muito bom, tradicional, sem concessões a modismos.

4. Um ministro tem assessores à vontade, todos munidos de celulares de última geração, que não teriam a menor dificuldade para avisar os convidados da mudança de local do repasto.

Em resumo, que é que aconteceu que levou ministro e convidados a usar uma sardinhada como pretexto para adiar a reunião e mudá-la de cidade?

 

Abrindo o jogo

Se der certo, será uma revolução no jornalismo esportivo e no próprio esporte; se não der certo (por exemplo, se não houver mobilização das entidades jornalísticas, exigindo que as investigações sejam levadas até o fim), os dirigentes do Esporte Clube Bahia serão entregues às feras e nunca mais terão oportunidades no clube. Pior: outros clubes preferirão, nesse caso, continuar mantendo eventuais prática antiéticas. Qual dirigente correrá o risco de suicidar-se politicamente?

O Esporte Clube Bahia, de Salvador, divulgou oficialmente o quanto foi gasto para agradar veículos de comunicação, jornalistas e radialistas, e apresentou a lista dos beneficiados, entre pessoas físicas e jurídicas. É coisa grande: R$ 865.037,73, divididos entre gastos com publicidade, pouco menos de R$ 500 mil, e quase R$ 400 mil em passagens aéreas para jornalistas, radialistas e parentes do ex-presidente Marcelo Guimarães Filho. Além disso, houve pagamento de despesas com refeições, bebidas alcoólicas, aluguel de carros, hospedagem em hotéis cinco estrelas.

A divulgação, claro, tem objetivo político: atinge o ex-presidente, adversário do atual grupo dirigente. Mas é extremamente útil: rompe uma caixa preta de que sempre ouvimos falar, mas que só era aberta para a turma alugada ao poder e nele alinhada. E é dinheiro: se no Bahia atinge quase R$ 1 milhão, se houver algo semelhante em clubes do Sul e do Sudeste a que alturas chegará?

 

Como…

De um dos maiores portais noticiosos da Internet:

** “Os promotores exibiram (…) imagens de Pistorius sem camisa (…) Havia manchas de sangue até os seus tornozelos (…)”

Pistorius teve as duas pernas amputadas. Que tornozelos?

 

…é…

De um grande jornal impresso, sobre o enterro do rapaz e de sua namorada, ambos assassinados pela mãe dele, que se suicidou em seguida:

** “A maioria dos presentes se mostrava triste com a situação.”

Como, aliás, é hábito em sepultamentos.

 

…mesmo?

De um grande portal informativo de internet:

** “O ex-casal Thiago Rodrigues e Cris Dias não cansam de discutir em público”

Pelo jeito, não são apenas os dois que não atingem a concordância.

 

Frases

>> Do internauta Manuel Antônio, no Facebook: “A decoração dos pratos de alguns restaurantes de São Paulo faz crer que o chef é o Clovis Bornay.”

>> Do jornalista Josias de Souza, comentando as derrotas de Dilma na Câmara: “Quem puxa o rabo do gato arrisca-se a tomar uma mordida. E aprende que, se não puder dar uma cacetada na cabeça do gato antes de puxar-lhe o rabo, é melhor continuar servindo leitinho fresco no pires.”

>> Do apresentador Gilberto Ribeiro: “Odeio pessoas dramáticas, mas abro uma exceção para mim.”

>> Da panicat Babi Rossi, no programa Mega Senha: “O ovo vem do leite.”

 

E eu com isso?

Modificações importantes acontecem na vida dos famosos (que, por serem famosos, são citados em revistas de famosos; e, por ser citados em revistas de famosos, são famosos). Claro, há aquele encantamento, aquele glamour. O astro não brinca com seu filho pequeno: ele curte o filho. A estrela nem sempre passeia na praia: muitas vezes, caminha pela orla. As celebridades, mesmo quando se dedicam a atividades prosaicas, como ir ao cinema, não são fotografadas, apenas: são flagradas. E não vão ao casamento de alguém, mas à boda.

Mesmo assim, pasme, há ocasiões em que o famoso se comporta como uma pessoa normal, como qualquer um de nós.

** “Chico Buarque compra baguetes para o lanche da tarde”

** “Victoria Beckham acha pizza das Spices no freezer”

** “Caetano estaciona carro no Leblon nesta quinta-feira”

** “Rob Kardashian não quer ir ao casamento de Kim por causa de seu peso”

** “Filhas de Luciano Camargo comemoram aniversário em São Paulo”

** “Joe Jonas e a namorada combinam visual durante passeio”

** “Marina Ruy Barbosa e Klebber Toledo em dia romântico”

** “Flagra! Justin e Selena dançam juntos em estúdio”

** “Yasmin Brunet curte praia no Rio de Janeiro”

** “Jack Johnson surfa sob o olhar da mulher”

** “Thiago Lacerda curte dia de praia com a família”

** “Ricky Martin dança o Passinho do Volante no Rio”

** “Eva Longoria aposta em tubinho com zíper”

** “Príncipe Harry discursa em evento em Londres”

** “Cauã Raymond procura ter hábitos saudáveis”

Por exemplo, faz questão de comer bem.

 

O grande título

Safra esplêndida! A começar pelo notável título de um jornal regional, a respeito de um acidente automobilístico:

** “Carro capota com 4 pessoas e uma mulher”

Em seguida, vêm as manchetes em que as pessoas maliciosas encontrarão mais de um sentido.

“Cresce o alojamento de pintos de corte”

E o grande título:

“Reckitt compra K-Y para entrar com tudo no mercado”

Sem dúvida, é a união de duas marcas de grande penetração.

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Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

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