Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CIRCO DA NOTíCIA > ARTES DA BOLA

Devolvam o nosso futebol

Por Carlos Brickmann em 23/06/2014 na edição 804

Na verdade, senhor leitor, a Espanha e outros grandes times europeus foram eliminados por injunções políticas, porque a Copa está comprada pelo Brasil, já que assim Dilma se reelege. E o governo tucano de São Paulo permite os black-blocs na rua para desmoralizar a segurança, prejudicar o êxito da Copa e jogar a culpa no governo federal, ajudando assim a derrotar Dilma.

E, pensando bem, esses jogadores e a Comissão técnica, todos milionários, todos muito bem de vida, todos morando no exterior, não estão nem aí para a Copa. Imagine, na hora em que todos deveriam estar focados, concentrados, unidos, treinando, um repórter topa com o Felipão e o Neymar num avião de carreira, sem acompanhamento nenhum – tão solitários que o Felipão está até sem o Murtosa, tão pouco solidários que o Felipão até deu entrevista falando mal do seu time, que costuma chamar de Família Scolari.

E o público, talvez por isso, não se identifique com aqueles que deveriam ser seus ídolos. Felipão e Neymar, sem séquito, sem staff, sem papagaios de pirata, e nenhum passageiro, a não ser o repórter, se aproxima deles para pedir fotos, autógrafos, sugerir aquela modificação tática que, a seu ver, vai mudar tudo.

Abra os jornais, veja a TV: no lugar dos jornalistas esportivos, que sabem onde é que a jurupoca faz o ninho, dezenas de ex-jogadores, psicólogos, sociólogos, acadêmicos do esporte, artistas dos mais variados meios, escritores, granfinos, empresários, socialites (haverá diferença entre socialites e granfinos? Vale pesquisar), financistas, todo mundo botando a asneirenta colher torta na panela do futebol. E políticos, políticos, políticos!

Uma presidente que ia ao Mineirão com o pai numa época em que o Mineirão não tinha sido construído, um eterno candidato que se diz fanático torcedor de um time mas não conhece nenhum de seus craques históricos, os semiólogos da bola, embora jamais tenham entrado num estádio e, se entrarem, não saberão quem é a bola: que gente chata! O Brasil ganhou por 3×1, a manchete do jornal diz que o Brasil ganhou por 3×1, mas o jornal tem intenções malévolas, quer derrubar com essa manchete distorcida todo o edifício eleitoral de um dos lados, ou provocar, ao informar de maneira solerte que o Brasil venceu por 3×1, quando na verdade o Brasil venceu por 3×1, o crescimento da campanha de algum dos candidatos, sabe-se lá quem. Ou, talvez, insuflar os ânimos de quem queira vaiar alguém?

Este colunista já levou uma freira a um estádio (tinha um amigo maluco que pediu o favor, que fazer?), já cantou “1, 2, 3, o Santos é freguês” no jogo em que um tabu de alguns anos foi derrubado, já apareceu na primeira página do Jornal da Tarde com a bandeira do Corinthians, fotografado nas arquibancadas do Parque São Jorge ao assistir a um jogo contra o Botafogo de Ribeirão Preto. Já sustentou com seriedade a tese de que Flávio, o Minuano, era um goleador muito mais completo que Pelé. E queria Paulo Borges no lugar de Jairzinho na Seleção que seria campeã em 1970. Este colunista lembra quando o palmeirense Sandro Vaia celebrou a troca do corintiano Ribamar pelo palmeirense Neto. Neto é até hoje o Xodó da Fiel, foi várias vezes campeão pelo Corinthians; Ribamar não chegou a marcar a história do Palmeiras.

Futebol é paixão, é alegria, é emoção. Futebol é ver Renato Pompeu, o palmeirense, dizer que Copeu era o melhor ponta-direita do país. Tirem a análise política de cada chute, de cada resultado, e devolvam o futebol para nós, torcedores, que gostamos dele e sabemos do que se trata.

 

Cadê o editor?

A mesma reportagem com o sósia de Felipão foi publicada em dois jornais de primeira linha. OK, o repórter errou. E os editores dos dois jornais? Ninguém achou estranho que dois expoentes da Seleção estivessem num voo comercial, sem seguranças, sem amigos, sem papagaios de pirata, sem um mercadante por perto, sem um pingo sequer de comoção entre os passageiros? Ninguém estranhou que Felipão tivesse falado mal de dois de seus jogadores preferidos, David Luiz e Thiago Silva? Ninguém estranhou que o cartão de visitas de Felipão tivesse outro nome e a indicação “sósia de Felipão”?

Um jornalista experiente, Ulysses Alves de Souza, que brilhou na Folha de S.Paulo, no Jornal da Tarde, na Veja (e apresentou a obra de Campos de Carvalho a este foca, há algumas dezenas de anos), costumava definir da seguinte maneira as funções num veículo de comunicação: “O repórter reporta, o redator redata e o editor acochambra”. Pois é.

 

Tá faltando um

Este era dos grandes: Arnaldo Fiaschi, Bacalhau, fotógrafo que se destacou no O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde em equipes estreladas por Rolando de Freitas, Mílton Ferraz, Reginaldo Manente, Solano José, Kenji Honda, Sidney Corralo, Domício Pinheiro, Geraldo Guimarães, José Bento Lenzi, Iwame “Wakamoto” Yamasaki, Francisco Lucrécio Jr, José Pinto, tantos outros craques das câmeras. Bacalhau era um dos preferidos dos personagens que apareciam nas fotos.

Certa vez, resolveu abolir o apelido – o que, sabemos, é mais difícil do que assistir a um jogo de golfe pela TV. E ameaçou brigar com quem quer que o chamasse de Bacalhau. Foi o suficiente: os gentis companheiros avisaram as fontes. Na hora do jogo, qualquer repórter que fizesse uma pergunta ao técnico recebia uma resposta mais ou menos nos seguintes termos: “Como eu disse ao Bacalhau (…)” E a resposta era publicada em todos os jornais e divulgada em todas as emissoras, com o esclarecimento: “Bacalhau é o repórter fotográfico Arnaldo Fiaschi”. Ou, numa entrevista sobre Economia, o empresário dava o exemplo: “Se o Bacalhau aqui pedir um financiamento (…)” E toque a resposta na íntegra. Sinal de que jornalistas e fontes podem entender-se numa boa.

Bacalhau, bom profissional, bom amigo, morreu há poucos dias. Fará falta.

 

Falta mais um

Jornalista, tradutor, correspondente internacional, publicitário, ghost-writer? Em seus 50 anos de jornalismo, Wladir Dupont foi bom em todas as áreas. Como redator, nos principais órgãos de comunicação do país; como tradutor, trouxe para o português Mário Vargas Llosa, William Faulkner, Octavio Paz, Isaac Bashevis Singer. Cobriu a revolução sandinista na Nicarágua, foi correspondente no México. Afável, tímido, reservado, extremamente leal, transitava sem problemas entre jornalistas das mais diversas linhas partidárias. Um derrame o levou na segunda-feira (2/6). De vez em quando, um grupo de jornalistas da Folha da Tarde se reúne para uma pizza, para jogar conversa fora. É difícil saber que, na mesa daquela pizza, estará faltando ele.

 

Como…

De um grande jornal impresso:

** “Hulk (…) guarda boas recordações, como o Hino Nacional cantado à lapela”

Não, não devia ser à capela. Talvez ele olhasse para o lado, como se um microfone daqueles de TV estivesse pendurado lá.

 

…é…

De um grande jornal impresso, em matéria assinada:

** “E Gilberto Gil chegou ao estádio do Castelão, em Fortaleza, vestindo uma réplica da primeira camisa do Flamengo, time do seu coração”

Tudo bem – exceto que Gilberto Gil torce pelo Fluminense.

 

…mesmo?

De um grande jornal impresso, que em outras épocas se preocupava com a qualidade do texto, um exemplo notável de concordância criativa:

** “(…) mais de 70% dos carros exportados peças fabricantes brasileiras têm como destino a Argentina. A indústria automotiva é o principal exportadora de produtos industrializados para o país vizinho”.

 

Frases

>> Do jornalista Cláudio Tognolli: “O melhor lance da Copa, até agora, foi a pernada de anão que o falsário deu no jornalista experiente.”

>> Do leitor Ney Gonçalves: “A Espanha perdeu o rei em Madri e a majestade no Maracanã.”

>> Da jornalista brasileira Adriana Setti, que vive na Espanha: “Esses corações que o povo tem feito no estádio me dão saudades da vuvuzela.”

>> Do jornalista Fred Navarro: “Chamar Joaquim Barbosa de capitão-do-mato, pode. Aécio de cheirador, pode. Eduardo Campos de traíra, pode. Xingar Dilma, não pode.”

>> De cartaz exibido por torcedores mexicanos no jogo contra o Brasil: “Se os políticos mexicanos jogassem futebol como nos roubam, o México seria decacampeão mundial.”

>> Do ex-presidente Lula, irritado com o coro contra Dilma nos estádios: “A elite brasileira está conseguindo fazer o que nunca conseguimos: despertar o ódio de classes.”

Ué, isso quer dizer que ele tentou, mas não teve êxito?

 

E eu com isso?

O mundo é mágico, uma grande Disneylândia, com príncipes e princesas, amores e desamores, muita festas, gente que, como Peter Pan, não envelhece, tudo com final feliz. Mas às vezes a pergunta tem de ser feita de novo:

** “Milton Neves conta como foi sua primeira vez no sexo”

 

E eu com isso?

E muito frufru, muito frufru, todo o frufru necessário, no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, para que certas cenas sequer sejam imaginadas:

** “Filha de Mauro Naves beija muito em jogo do Brasil”

** “Jennifer Hudson exibe boa forma em foto de biquíni”

** “Hanna Romanazzi fala sobre carreira e revela: ‘Estou solteira há um ano e meio’”

** “Courtney Love e Mariah Carey posam sorridentes para foto”

** “Belo exibe novo visual após dreads pela primeira vez”

** “Kim Kardashian almoça com North West em NY”

** “Bruna Lombardi e filho visitam as Cataratas do Iguaçu”

** “Grávida, Mila Kunis passeia com Ashton Kutcher”

** “Sophie Charlotte e Daniel de Oliveira se divertem no Rio”

** “Filha de Madonna se arrepende de ter usado looks mais abusados na escola”

** “Letícia Birkheuer passeia com o filho no Rio”

** “Jennifer Lopez usa vestido tomara que caia para lançar novo disco”

** “Adriane Galisteu mostra o filho vestido de caipira”

** “Shakira usa vestido curtinho e transparente em gravação de clipe”

** “Letícia Spiller curte férias com os filhos na Disney”

** “Kelly Clarkson dá à luz sua primeira filha, River Rose”

 

O grande título

Só títulos da Copa – de futebol, de algumas excentricidades, de fenômenos paralelos. Comecemos com a excentricidade, na Internet, que nunca nos falha:

No alto da página, como chamada:

** “Croatas promovem boicote à imprensa após fraude de nudez”

No título da matéria:

** “ (…) após fotos de nudez.”

Se bem que, hoje, até fotos bem trabalhadinhas se transformam em fraudes. Mas não era o caso.

E, numa declaração bombástica, o secretário da Segurança de São Paulo explica a atuação da Polícia Militar durante a passeata-que-era-pacífica-mas-foi-desvirtuada-pela-infiltração-de-baderneiros:

** “PM falhou na depredação de carros de luxo, diz secretário de SP”

O secretário talvez não tenha notado, mas os carros foram muito bem depredados.

E o grande título:

** “Assista AO VIVO a Austrália 0 x 0 Holanda”

O jogo só podia estar 0x0: ainda não tinha começado.

******

Carlos Brickmann é jornalista

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