Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CIRCO DA NOTíCIA > JORNALISMO & POLÍTICA

O valor do poder

Por Carlos Brickmann em 12/08/2014 na edição 811

O general Carl von Clausewitz que nos perdoe, mas no Brasil a guerra não é, como ele dizia, a continuação da política por outros meios. No Brasil, a política é uma das mais cruéis modalidades de guerra, e não é por outros meios: o objetivo é matar no mínimo a reputação de quem não concorda com o político-guerreiro.

É surpreendente que os meios de comunicação estejam assistindo quase em silêncio a duas iniciativas político-partidárias extremamente nefastas: o organizado trabalho de distorção da Wikipédia, para incluir em biografias de pessoas odiadas pelos bem-pensantes seus preconceitos e idiossincrasias (pelo menos em dois casos, os alvos são jornalistas de prestígio, competentes, de elevado conceito profissional, ambos das Organizações Globo: Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg). Em outro caso, também de interferência na Wikipédia, a fonte das distorções foi identificada pelo IP dos computadores; é gente do governo, funcionários públicos pagos pelo cidadão para trabalhar e não para fuxicar e fazer campanha usando bens adquiridos, pagos e mantidos pelos impostos de todos.

O governo se defende com um argumento extremamente frágil: o de que o IP identificado se refere à internet sem fio do Palácio do Planalto, o que torna impossível identificar exatamente qual o computador de onde partem as distorções insultuosas. Se o governo está dizendo, deve ser verdade. Mas, seja quem for, o próprio governo admite que está sendo usada a rede sem fio do Palácio do Planalto. É uma rede protegida, e só consegue usá-la quem tiver a senha. E é uma rede paga com dinheiro público. Não pode ser utilizada exceto para os fins a que se destina – e que não são difamar adversários nem louvar aliados.

Não é o único caso: este colunista já recebeu e-mails insultuosos provenientes de uma empresa estatal; e, quase todos os dias, recebe alguns e-mails de propaganda do partido preferido do remetente ou contendo insultos e acusações contra adversários desse partido, enviados de uma fundação beneficente não governamental – mas que busca arrecadar fundos na sociedade para cumprir seus objetivos específicos, não para fazer propaganda político-partidária de quem quer que seja.

Se este colunista recebe o material, imagine os grandes veículos de comunicação e seus articulistas – que, no entanto, se calam. E não deveriam calar-se, venha o abuso do lado que vier, do governo ou da oposição (que, em muitos estados, é governo). Não se pode aceitar como normal que pessoas pagas por toda a população usem dinheiro público, instalações públicas, equipamento público, ou recursos de doações para fins beneficentes, para atacar adversários ou louvar aliados.

Alguns milhares de pessoas, contratadas publicamente por pelo menos duas coligações partidárias, têm como função atacar adversários nas redes sociais. É feio; mas, sendo feito com recursos privados, dentro de limites precisos, previstos em lei (nada de calúnia ou difamação, por exemplo), vá lá.

Mas nem isso justifica certas grosserias como as que estão ocorrendo na internet. O blogueiro responsável pelo perfil Dilma Bolada, oficialmente contratado para a época de campanha, não precisaria abusar do preconceito, do machismo e da baixaria como nesse post, atribuído a Dilma Bolada, endereço @dilmabr:

“Marina Silva de biquíni é a cena mais aterrorizante que já vi na minha vida. Agora entendo porque ela defende tanto a Amazônia”.

 

Tira o sofá daí!

As modificações feitas com uso de computador do Planalto na Wikipédia não são novidade: só durante o mandato de Dilma, houve 170 intervenções na Wikipédia, para criticar adversários, elogiar aliados e dar mais visibilidade ao trabalho dos ministérios. Neste caso, as modificações classificam as análises econômicas de Míriam Leitão como desastrosas, acusam-na de ser ligada a banqueiros controvertidos; e atribuem a Sardenberg posição contrária ao corte nas taxas de juros (que foi feito na época e revertido a seguir, estando hoje no mesmo nível de antes do corte) para defender interesses de uma federação em que seu irmão é alto funcionário. A circunstância de que Beto Sardenberg tem mais de 40 anos de carreira jornalística, sempre como profissional de primeira linha, nos mais diversos veículos, das mais diversas tendências, é convenientemente omitida.

O mais curioso é a reação do governo, diante dos fatos revelados por O Globo: proibiu o acesso dos computadores oficiais à Wikipédia. E, ao que se saiba, parou por aí. Procurar os responsáveis pela lambança é cansativo, difícil. E, eventualmente, pode ser danoso à carreira profissional de quem os descobrir.

 

Uma curtição

Ainda na questão da guerra internética: este colunista descobriu, por acaso, que tinha “curtido” no Facebook a página da ex-ministra Gleisi Hoffmann, candidata do PT ao governo do Paraná. Acontece que:

1. Este colunista escreve sobre política e acompanha o setor há muitos e muitos anos. Não vai “curtir” página de candidato nenhum, menos ainda uma página que nem sabia que existia;

2. Na improvável hipótese de que fosse “curtir” um candidato no Paraná, não seria Gleisi Hoffmann. Por duas vezes, ela escolheu coordenadores de campanha de conduta pouco ortodoxa. Um está preso no Paraná sob acusação de pedofilia. Outro é o deputado André Vargas. Quem faz essas escolhas tem problemas de critério.

3. A hipótese de “curtir” um candidato no Paraná, seja tucano, pedetista, petista, não existe. Aliás, nos demais estados da Federação, também não. Na disputa presidencial, também não. É lamentável, mas nenhum dos candidatos à Presidência é entusiasmante. No segundo turno, vota-se contra alguém e, portanto, a favor do adversário. Nada mais do que isso.

Mas fez-se uma pequena investigação sobre pessoas apontadas como tendo “curtido” a página de Gleisi Hoffmann. Pois é: tem gente lá que nem sabia de quem se tratava, ou jamais tinha visto a tal página, ou prefere, no estado, outro candidato – e mesmo assim aparece como avalizador da candidata.

Não espere que esses fatos apareçam nos meios de comunicação. Todos estão preocupados com temas bem mais próximos de nossa realidade – como a manta Louis Vuitton do cachorrinho do milionário, que teve de ser substituída porque foi lavada na máquina e que mereceu amplo e nobre espaço jornalístico. E pensar que árvores foram sacrificadas para que soubéssemos tudo sobre o cobertorzinho chique do totó de luxo!

 

Tentando entender

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou mais de uma vez que as reservas internacionais do Brasil são de quase US$ 380 bilhões e nos protegem contra eventualidades cambiais. O Banco Central confirma o número; os meios de comunicação já o divulgaram amplamente, por diversas vezes.

Acontece que o Brasil não paga suas contas na ONU desde 2013. A dívida alcança hoje aproximadamente US$ 150 milhões. O Brasil é o quinto maior devedor entre os 196 integrantes da ONU. Esta notícia saiu em primeira mão na coluna Diário do Poder (www.diariodopoder.com.br), de Cláudio Humberto; talvez mereça maior divulgação por jornais, rádio e TV.

O que ninguém explicou é o motivo pelo qual, detendo reservas de US$ 380 bilhões, o Brasil não separa uma porcentagem minúscula, pequetitinha, menos da metade de um milésimo de que dispõe, para pagar a ONU, ainda mais considerando-se que pretende se transformar em membro permanente do Conselho de Segurança. Deve haver algum motivo – qual?

 

A vila das bandeiras

Tem tudo para ser um belo livro: neste dia 12, o jornalista Ricardo Viveiros lança A Vila que Descobriu o Brasil, uma história que mostra a importância de Santana do Parnaíba, SP, no avanço dos bandeirantes que formou nosso país.

Para escrever o livro, Viveiros fez oito anos de pesquisas, com viagens a Portugal e mapeamento do caminho dos bandeirantes para o interior, seguindo o rio Tietê. “A principal constatação do livro”, diz o autor Viveiros, “é que o Brasil foi efetivamente descoberto a partir de Santana do Parnaíba, fruto da coragem desbravadora de bandeirantes como Fernão Dias Paes Leme, Raposo Tavares, Bartolomeu Anhanguera Bueno da Silva, Borba Gato e Domingos Jorge Velho.”

Lançamento na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em São Paulo, a partir das 19h.

 

Como…

De uma boa apresentadora de TV, que se atrapalhou na Flip, Festa Literária Internacional de Paraty:

** “Comemora-se o centenário de Iracema, de Jorge de Alencar”.

Mas quem escreveu o romance sobre a virgem dos lábios de mel e cabelos negros como a asa da graúna (e do ex-ministro Delfim Netto) foi José de Alencar.

 

…é…

De uma importante agência noticiosa internacional:

** “Israel aceita adiar cessar-fogo com Hamas em Gaza”.

Não era bem isso: o que se negociava era a prorrogação da trégua, não seu adiamento.

 

…mesmo?

De um portal da internet, onde tudo se encontra:

** “Motorista tem mau súbito, bate em árvore e morre de infarto (…)”

Há quem tenha dificuldade em distinguir mau de mal e bom de bem. Ou, como diria o próprio redator, é um mal hábito, esse de escrever mau.

 

As não notícias

Há muitos e muitos anos, o elemento – ou perigoso elemento – era detido e, portanto, imediatamente passava a ser tratado como “bandido”, “vagabundo”, “marginal”. Estava errado: como diz a lei, a pessoa só é culpada após o julgamento regular. Surgiram então algumas expressões específicas: “o acusado”, “o indiciado”. Mas dava trabalho escolher a palavra correta. E entrou o “suposto”, que não só vale para tudo, de unha encravada a ataque cardíaco, como serve como desculpa para evitar processos, quando se verifica que o indivíduo era inocente. Mas como mostrar à equipe que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e ambas não se misturam?

E surge esta preciosidade, que junta todos os defeitos do antigo jornalismo e do novo:

“Uma suposta tentativa de assalto a um policial terminou em tiroteio” – ou seja, não havia certeza de que a tentativa era mesmo de assalto. Mas a matéria continua: “(…) a PM trocava tiros com ao menos dois assaltantes” – ou seja, eram assaltantes mesmo. “O crime aconteceu às 13horas” – ou seja, eram assaltantes de verdade cometendo efetivamente um crime. Então, de onde sai a “suposta tentativa” de assalto?

Há mais:

** “EUA teriam pagado jovens latino-americanos para promover subversão em Cuba”

Pagaram ou não pagaram?

E outra, sobre o assassínio da dona de um conhecido restaurante carioca:

** “Suspeito diz que escolheu vítima dentro de banco”

Se ele mesmo diz que escolheu a vítima dentro do banco, seguiu-a para fazer o assalto e disparou o revólver, por que “suspeito”?

 

Frases

Do jornalista Fred Navarro: “A não notícia do dia: o equatoriano Rafael Correa cancelou a visita que faria a Israel. Ninguém sabia. Talvez nem Israel.”

Do novelista Aguinaldo Silva, alfinetando com muita maldade um crítico – e só quem conhece o alvo sabe quanta maldade há no comentário: “Sabem por que o blogueiro Maurício Stycer implica comigo? Porque ele morre de inveja da minha pele de pêssego.”

Do tuiteiro Dr. Fernando Ortiz, sobre o aeroporto construído pelo governador Aécio Neves: “Aécio lança um novo programa social: ‘Pousa Família’.”

Da tuiteira Vânia Santana: “Pô, Marcelo Tas, você não consegue nem dialogar com meia dúzia de judeus, e cobra de Israel entrar em acordo com Palestina?”

Do jornalista Palmério Dória: “Não se pode negar que José Eduardo Cardozo evoluiu. Na campanha era papagaio de pirata. Agora, como ministro, é garoto-propaganda de curso de Direito.”

Do médico Luiz Nusbaum: “O PT me faz lembrar do velho disco de vinil quebrado na vitrola, repetitivo. Tal qual. Vamos investigar a fraude, a fraude, a fraude, a fra…”

Do tuiteiro Fernando Cabral: “Que ironia. Antes da Copa, aeroporto era um dos assuntos preferidos do PSDB.”

 

E eu com isso?

O político americano Adlai Stevenson, duas vezes candidato do Partido Democrático à Presidência da República (perdeu as duas para Eisenhower) costumava dizer que a função do editor era separar o joio do trigo, e publicar o joio.

Nem sempre. Às vezes, a função do jornalista é separar aquilo que é importante do que não tem a menor importância. E publicar o que é divertido.

** “Filho de Ana Hickman come mamão pela primeira vez”

** “Katie Holmes fala da educação de Suri Cruise”

** “Angélica curte tarde com seus filhos no shopping”

** “Miley Cyrus quase beija fã nos Estados Unidos”

** “Cleo Pires mostra fotos da infância”

** “Kristen Stewart conta o motivo de não sorrir para fotos”

** “Juliana Silveira leva o filho à loja de brinquedos”

** “Adele, Take That e One Direction vão lançar CD no mesmo dia”

** “De férias, Klara Castanho curte o visual”

** “Beyoncé exibe as pernas em fotos de short”

** “Roberta Almeida curte férias com o namorado na Argentina”

** “Filha de Madonna mostra o corpão em Cannes, na França”

** “Susana Werner leva os filhos para patinar no gelo”

** “Filhos de Mariah Carey também vão à pedicure”

** “Juliana Paiva abre álbum de família e mostra fotos de quando era criança”

** “Megan Fox anda sem tempo para ter intimidade com o marido”

** “Bianca Bin pedala para manter a forma na orla carioca”

** “Jennifer Garner e Ben Affleck não vão aumentar sua família”

** “Paloma Bernardi e Thiago Martins cortam cabelo juntos”

** “Justin Bieber revela que Miranda Kerr queria ‘fazê-lo homem’”

Tem gente que gosta de desafios.

 

O grande título

Há bons títulos, caprichados. E há um que, embora evidentemente seja fruto de erro de digitação, é magnífico.

O primeiro: na chamada

** “Organização russa rouba mais de 12 bilhões de senhas na Internet, diz NYT”

No título da matéria

** “Organização russa rouba mais de 1,2 bilhão de senhas na Internet, diz NYT”

Simples, simples. Uma pequena diferença de 10,8 bilhões de senhas.

Há um daqueles títulos que certamente fazem sentido, desde que sejam decifrados por um bom especialista:

** “Há desistência do MVP da NBA não tem relação com o corte de Paul George”

Se, em vez de “há”, fosse “a”, seria mais fácil decifrá-lo. Mas estaria correto?

E agora, o grande título:

** “Yasmin Brunet caminha na rola e exibe barriga chapada”

Era “orla”.

******

Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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