Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIRCO DA NOTíCIA > APURAÇÃO & ANÁLISE

As parábolas da escassez

Por Carlos Brickmann em 10/03/2015 na edição 841

Podemos começar com a triste história do pão-duro e de seu magnífico cavalo. O pão-duro resolveu acostumá-lo, aos poucos, gradativamente, a ficar sem comer. Foi reduzindo a ração dia a dia, e economizou uma fortuna. Só teve um problema: quando o cavalo já estava se acostumando a ficar sem comer, morreu.

Continuemos com a história do pequeno granjeiro americano que fazia salsichas maravilhosas. Precisando de algum dinheiro, montou uma barraquinha na estrada para vender cachorros-quentes. Foi um sucesso instantâneo. Com o dinheiro, incrementou os cachorros-quentes com pão feito em casa, mostarda de primeira, boa maionese, batatinhas fritas sequinhas, estalando de frescas. Mais sucesso, e um luminoso foi instalado na estrada, indicando a barraca. Logo depois, uma barraca do outro lado da estrada. E as barracas se multiplicaram pela região. O granjeiro, quase analfabeto, deu-se ao luxo de mandar o filho para uma universidade caríssima, de alto prestígio.

O filho voltou formado e avisou o pai: corte as despesas que vem crise brava por aí. O pai começou reduzindo o tamanho das salsichas. A mostarda francesa deixou o cardápio. Pãozinho comum de hot-dog, mais barato e igual ao que todos os concorrentes usavam, substituiu o pão caseiro que saía quentinho o dia inteiro. E as vendas caindo. Para economizar, o granjeiro desligou os luminosos. Foi fechando as barracas que davam prejuízo. E um dia, de volta à única barraca que lhe restara, comentou orgulhoso: “Meu filho estava certo: ele previu a crise”.

Os meios de comunicação tradicionais, pressionados pela situação da economia, pressionados pela internet, tomaram duas providências parecidas com as do granjeiro com filho instruído: já que a internet faz sucesso, vamos transformar nossos veículos em algo semelhante a ela; e mandemos embora o máximo possível de jornalistas, fazendo economia para enfrentar a crise.

Acontece que, como o cavalo que não comia, certas coisas não funcionam. Rádio não é internet: é instantâneo, mas não tem imagem, não tem cores, não pode ser gerado de qualquer cômodo da casa de qualquer pessoa. TV não é internet: não tem o espaço ilimitado, não tem a instantaneidade, não tem o baixo custo. Impresso não é internet: não tem a instantaneidade, não tem som, não tem movimento, não tem a fartura de espaço, exige equipamentos caros, pesados, instalados em lugares próprios. Fingir de internet só demonstra ao público que a internet é melhor do que seus genéricos.

A solução é buscar algo que a internet, por suas próprias características, não pode oferecer: matérias articuladas, pensadas, hierarquizadas, aprofundadas – algo pelo qual valha a pena pagar, valha a pena sujar as mãos de tinta. Não é nem questão de notícias exclusivas, que isso a internet também tem; é de notícias completas, analisadas, que mostrem a relação entre os fatos e apontem suas consequências em nossa vida e de nossa comunidade. Não basta saber os fatos: é preciso compreendê-los.

Entra aí a segunda parte da história: não se pode economizar na hora de investir em talento, competência, conhecimento. Hoje, para fazer economia, o mesmo repórter escreve para a internet, faz um blog, canta, dança, sassarica, encaminha os dados para o infográfico e no fim dessa série de atividades ainda tem de escrever a matéria mais analítica, pensada, aprofundada, para os meios impressos. Como diria o padre Quevedo, “esso non ekziste”. A notícia bruta é a mesma; como um pato congelado enfiado às pressas no forno é a mesma ave com que se prepara um pato laqueado em Pequim. O que muda é o cozinheiro, o que muda são as condições oferecidas ao cozinheiro para que o mata-fome se transforme numa refeição de primeira linha, de alto valor adicionado, pela qual se paga muito mais caro.

Informação, hoje, é mercadoria barata, que se encontra de baciada em qualquer aparelho que tenha uma tela. Mas notícia é, como sempre foi, algo caro, elaborado, trabalhado. A farinha é a mesma, mas não é possível imaginar que o Fasano a utilize do mesmo modo que o botequim da esquina.

 

Exemplo definitivo

Que é que acaba acontecendo? Aquele produto mais nobre da indústria de informação, o que custa mais caro para fazer, o que custa mais caro para adquirir, perde qualidade. Um texto recente, maravilhoso, exemplifica direitinho essa tendência de gastar dinheiro em máquinas, em papel, em frotas, em softwares, e economizar em cérebros bem equipados.

A reportagem, superatual num Brasil e num ano em que as chuvas enlouqueceram, mostra como Israel, onde chove muito menos, onde há apenas um rio aproveitável (o Jordão, que aqui seria conhecido como córrego, no máximo riacho), cuida de seus problemas de abastecimento de água.

A matéria se compunha, como manda a atual tendência, de texto e infográfico coloridinho. Dizia-se que Israel consome anualmente 2,1 quatrilhões de litros de água, e a produção de suas fontes naturais de água doce é de 750 trilhões de litros. Não é bem isso: Israel consome anualmente 2,1 trilhões de litros – ou seja, o texto e o infográfico multiplicaram o consumo por mil. A produção não é de 750 trilhões de litros, mas de 750 bilhões (o erro, coerente com o anterior, foi multiplicar a produção por mil).

Aí vem a comparação com São Paulo: segundo texto e gráfico, o estado consome 4,8 quatrilhões de litros por ano. O erro aqui é mais completo: o número certo é 4,5 trilhões de litros. E a comparação está errada: em Israel, fala-se do consumo total, enquanto em São Paulo entra apenas o consumo urbano, esquecendo-se tudo o que é utilizado na agricultura e pecuária.

É difícil encontrar um repórter que tenha conhecimentos sobre o tema de abastecimento de água suficientes para evitar erros. Mas não é difícil para um bom repórter consultar fontes que possam esclarecer pontos obscuros (o importante não é que o jornalista seja capaz de fazer contas: é que conheça o suficiente de números para chamar o telefone de quem saiba) – desde que ele tenha tempo para trabalhar e não seja obrigado a fazer desenhos, escrever para o pontocom da empresa, para o blog e para a agência de notícias do grupo antes de redigir para seus leitores. Uma matéria sobre tema complexo pode exigir uma consulta final à fonte, para saber se não houve erros ou mal-entendidos. Isso consome tempo. Mas que será mais importante do que levar ao leitor a informação correta?

 

Números, números

Outro exemplo excelente da falta de pessoal, da desidratação das redações e da superexploração do trabalho dos repórteres – que ficam sem tempo para trabalhar o que estão informando e descobrir eventuais incongruências – está numa matéria sobre o Petrolão, publicada em jornal impresso de grande prestígio e circulação nacional. Diz a reportagem que o fechamento de determinados contratos custou R$ 100 milhões de propina. Pouco depois, informa que a propina representa 1% dos contratos. Façamos a conta: os contratos seriam, então, de R$ 10 bilhões. Mas não são: sempre segundo a matéria, a estimativa é de R$ 19 bilhões. Ou a propina está errada, ou a porcentagem, ou o valor dos contratos: 1% de R$ 19 bilhões é R$ 190 milhões – 90% mais que a propina informada.

Seguindo em frente: a empresa citada, segundo a matéria, detém 16% dos contratos, no valor de R$ 5,1 bilhões. O total dos contratos, portanto, seria de R$ 31,875 bilhões – um pouco mais que os citados R$ 19 bilhões.

Enfim, quanto custou a obra? Dez bilhões, 19 bilhões, 31,875 bilhões? De quanto foi a propina, em reais? E em porcentagem? Leia os próximos capítulos das delações premiadas e talvez o caro colega fique sabendo!

 

Jornalista revoltada

Uma boa jornalista enviou um desabafo sentido a respeito da profissão, após a estúpida invasão pelo MST de uma empresa de pesquisa florestal, com o único objetivo de destruir tecnologia que levou anos para ser desenvolvida. “Há dias que me bate uma vergonha imensa da profissão que escolhi. Vergonha de ver colegas distorcendo sua função e, pior, deixando de cumpri-la por ideologia, leniência, omissão ou burrice mesmo”.

Comenta que uma horda feminina do MST invadiu uma propriedade privada apenas para destruir o resultado de 14 anos de pesquisas sobre novas variedades de eucalipto para a produção de celulose. “Um ato idêntico ao praticado pelos fanáticos do Estado Islâmico”.

E aí? Aí, um grande jornal dá em manchete a assinatura do contrato de Xuxa com uma rede de TV – nenhuma novidade, já que o fato era conhecido, e só faltava formalizá-lo. Na capa, nenhuma linha sobre a invasão. Outro grande jornal dá uma pequena notícia abaixo da dobra, como se o fato não tivesse a menor importância. Houve invasão de propriedade privada com o emprego de violência, destruição de bens, prejuízo a todo o país, já que o Brasil perde importante vantagem competitiva na produção de celulose para exportação – e a grande imprensa praticamente ignora o fato.

 

Começar de novo

Jacques Lewkowicz fez carreira de sucesso na publicidade, com casos marcantes, importantes. Vendeu sua agência, a Lew Lara, e agora, aos 73 anos, pediu para ser estagiário no Google. Começou na semana passada. Jacques Lewkowicz acredita, corretamente, que a geração analógica precisa mergulhar um pouco no universo digital. E já enfiou a mão na massa.

 

Livro bom

São 450 anos de Rio. E um grupo de grandes jornalistas montou uma lista de 90 personagens do Rio, todos decisivos para a história da cidade (e do país). Num livro bonito, de capa dura, com 180 imagens, textos leves e saborosos, há verbetes sobre D. João 6º e Joãozinho Trinta, Chacrinha e Ruy Barbosa, Machado de Assis e Heleno de Freitas, Estácio de Sá e Ibrahim Sued, Portinari e Pixinguinha. A seleção de personagens do livro – Gente do Rio – eles iluminaram a História – é como o Rio: carioca não é quem nasceu lá, é quem partilha o espírito carioca de ser. Os autores estão em todas as antologias de jornalistas importantes: Nilo Dante, Wilson Figueiredo, Cícero Sandroni, Vicente Senna. Vale muito a pena. Leitura rápida, prazerosa, informativa. Pode ser encontrado na Livraria da Travessa, Rio.

 

Como…

De um grande jornal impresso, de circulação nacional – um erro de digitação, claro. A palavra correta seria “tensão”. Mas ficou bem engraçado:

** “(…) a iniciativa de Renan, que também serviu para escancarar a tesão entre o peemedebista e o Palácio do Planalto”.

 

…é…

Duas frases da mesma matéria. Dois cacófatos. Na versão virtual de uma grande publicação nacional (do jeito que andam os textos, parece até que os cacófatos deixaram de ser vícios de linguagem):

** “A Polícia Civil estava oferecendo uma recompensa de 5.000 reais por cada um deles”.

** “O respeito que ela tinha entre as detentas podia ser comparado ao que os presos nutrem por Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, chefe do PCC”.

 

…mesmo?

De um grande portal noticioso, pertencente a um grande grupo de comunicação, que hoje é elaborado por uma equipe nada grande:

** “(…) a o número de insetso começa se reduz de uma geração para outra.”

 

Frases

>> Do jornalista Sandro Vaia: “Assim que descobrir a diferença entre mandioquinha e banana prata, o MST colocará seu exército na rua.”

>> Do procurador-geral da República, Rodrigo Janot: “Se eu tiver que ser investigado eu me investigo.”

>> Do jornalista Jorge Moreno: “ Governo tão fraco que qualquer um que o critique, como Renan, vira herói. E qualquer um, como eu, que tente ser justo, vira governista.”

>> Da jornalista Marli Gonçalves: “São tão poucos os defensores do governo que por qualquer coisa que falam viram celebridades.”

>> Do jornalista Fabio Sinegaglia: “Governo do PT é assim: governa para poucos, mente para muitos e suga todos.”

>> Do jornalista Reinaldo Azevedo: “Dilma sai em defesa de Dilma em razão das medidas adotadas pelo governo Dilma contra medidas adotadas pelo governo Dilma. Dilma diz que Dilma está errada, mas Dilma jura que errada quem está é Dilma.”

>> Do jornalista Palmério Dória: “Dilma pode sair do tal circulo vicioso no dia em que despachar Mercadante e Cardozo para o Círculo Polar Ártico.”

>> Do jornalista Fred Navarro: “Prestes, Julião, Gregório, Mário Pedrosa, para não sair da esquerda, mereciam a atenção de nossos cineastas. Mas vão filmar a vida de Zé Dirceu.”

 

E eu com isso?

Na vida real, o clima está tenso demais. Os preços sobem, manifestantes ameaçam se atacar nas ruas, num jogo de torcida única, em Porto Alegre, à falta de torcedores adversários, os torcedores do Internacional brigaram com torcedores do Internacional. A coisa se radicalizou tanto que gostar de alface é de direita e gostar de rúcula é de esquerda. Não, não dá: mergulhemos no universo paralelo (e quem disse que esse não é o verdadeiramente real?) onde o bem sempre vence e as pessoas, sempre felizes, nunca se preocupam com o fim do mês.

** “Taylor Swift diz que ‘nunca falará’ sobre Katy Perry”

** “Kelly Key se derrete e elogia a filha”

** “Beyoncé sai provocante nas ruas, com decote e sem sutiã”

** “Karina Bacchi mostrou estar em boa forma enquanto curtia a praia”

** “Taylor Swift será madrinha de bebê da modelo Jaime King”

** “Deborah Secco sai da praia tomando água de coco”

** “Jared Leto aparece sem barba nas redes sociais”

** “De shortinho, Alessandra Ambrósio leva o filho para a escola”

** “Marido de Ana Hickman leva o filho para cortar cabelo”

** “Antonio Banderas sai para jantar com a nova namorada”

** “Julinho do Carmo tira dia para cuidar de seus pets”

** “Robert Pattinson leva seu relacionamento com FKA Twigs a novo patamar”

** “Angélica e Luciano Huck se divertem na festa de aniversário do filho mais velho”

** “Selena Gomez vai passar o feriado de Páscoa com o novo namorado”

** “Reynaldo Gianecchini mostra bumbum molhado nos bastidores de longa”

** “Lindsay Lohan mostra sua elegância nas ruas de Londres”

** “Glenda Koslowski curte sol em praia”

 

O grande título

Há manchetes curiosíssimas nesta semana. E uma é absolutamente fantástica. Mas comecemos com aquele tipo de título que precisa ser decifrado:

** “Lista de Dunga expõe incógnitas nas laterais”

Este colunista acompanha futebol há muitos anos. E jamais tinha ouvido falar na escalação de incógnitas, e não apenas nas laterais.

O próximo título talvez seja decifrado com mais facilidade – ou não.

** “Mercado do cérebro é tendência de bons negócios”

Há manchetes bizarras:

** “Grávida, médica que mandou cortar pênis do ex-noivo é localizada”

Alguma coisa deve ter a ver com alguma coisa. Ou com algo semelhante, talvez.

E agora o título mais notável. Heidi Klum, modelo de fama internacional, salvou o filho e a babá que estavam se afogando no mar. E qual foi a manchete, caro colega?

“Mamilo de Heidi Klum aparece enquanto salva o filho e a babá de morrer afogados”

Pode?

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Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

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