Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIRCO DA NOTíCIA > BANCO SANTOS

A cultura como gazua

Por Alberto Dines em 23/11/2004 na edição 304

Todo mundo sabia que o Banco Santos ia quebrar, inclusive a mídia. Mas a mídia não podia avisar os correntistas do banco nem os aplicadores dos seus fundos sobre o perigo que corriam seus depósitos e aplicações. Se o fizesse, a mídia seria enquadrada como responsável pela corrida aos guichês.

Em 1995, quando o governo interveio no Banco Econômico, o então presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, junto com uma roliça tropa de acólitos, atravessou a trote a Praça dos Três Poderes para defender a instituição financeira – da qual, aliás, era acionista.

Naquela picaresca circunstância, a mídia reproduziu, sem qualquer titubeio ou discrição, em letra de forma, ao vivo e em cores, a advertência de ACM: ‘Quem vai quebrar é o Bamerindus e, depois, o Nacional!’. Quebraram, e nesta ordem. ACM era o manda-chuva, pintava e bordava na República. Ninguém ousaria processá-lo.

Nove anos depois, o sucessor de ACM na presidência do Senado, José Sarney, amigo e compadre do controlador do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira, foi avisado de que o banco ia quebrar. Como é mais sabido do que o colega baiano, não botou a boca no trombone e, na moita, tirou o seu rico dinheirinho vinte e quatro horas antes da intervenção do Banco Central.

Com o seu garantido, o senador esqueceu a infração cometida (aproveitar-se de informação privilegiada), mas precaveu-se para não incorrer em outra: nenhum sinal poderia dar, sob pena de ser acusado de concorrer para uma quebradeira do sistema financeiro.

Sarney escreve em dois jornais, é dono de um conglomerado de mídia no Maranhão e tem as portas abertas em todos os grandes grupos jornalísticos nacionais. Esqueceu a comunicação e ficou incomunicável. Só abriu o bico para explicar, depois de flagrado, que, ‘como todo mundo, soubera da boataria’ envolvendo o banco do amigo. ‘Todo mundo’ significa o seu mundo, não o dos correntistas.

Edemar e a imprensa

Esta não é a única confluência entre o fechamento do Banco Santos e a mídia. Há outras mais expressivas. A respeito do currículo do banqueiro Edemar Cid Ferreira, gastaram-se algumas toneladas de papel nos últimos dias. De repente, os pobres leitores de jornais e revistas descobriram que a imprensa sabia tudo sobre o nababo, suas manobras e, simultaneamente, descobriram que estas informações lhes foram sonegadas.

A mídia exibiu alguns ‘percalços’ anteriores, mas enrustiu as mutretas. O crime organizado usa pé-de-cabra, gazua ou dinamite para arrombar cofres; o crime desorganizado é refinado: usa charme e chamego.

Um dos mais precisos perfis do banqueiro Ferreira foi publicado no domingo (21/11), em um cantinho perdido do caderno de Economia da Folha de S. Paulo (página B-4). Em 59 linhas desvendou-se o cruzamento entre os romances de amor Roseana Sarney-Jorge Murad e Edemar-Márcia Cid Ferreira e, devidamente aspeadas, duas extraordinárias revelações do banqueiro sobre si mesmo:

** ‘Sou a reencarnação do Chatô’.

** ‘A cultura é um abre-alas. A gente vem atrás fazendo negócios’.

Eis o auto-retrato e de corpo inteiro do mais ostensivo mecenas das artes e cultura brasileiras neste início do século. Comissário da Mostra do Redescobrimento, nosso homem em Pequim, competente em todos os sentidos. A grande exposição do Ibirapuera foi o ponto alto das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, e a proeza de transformar aquele pequeno banco em depositário de contas de gente e instituições tão importantes atesta seus talentos.

No rol destas aptidões não pode ser ignorada a capacidade de Edemar Cid Ferreira de acercar-se dos barões ou baronetes da mídia. Exemplo: na ‘Associação Brasil 500 anos Artes Visuais’ (da qual era presidente tanto do Conselho de Administração como da Diretoria), havia um inédito Conselho de Imprensa, constituído pelas figuras de proa dos oito mais poderosos ou mais visíveis grupos de mídia do país.

Faz sentido: uma exposição deste porte e com esta qualidade, destinada a bater recordes de visitação, forçosamente teria que contar com o indispensável suporte midiático. A grande façanha, obra-prima de engenharia psicológica, foi superar as idiossincrasias, convencer os maiorais a participar de um mesmo comitê, sentarem-se à mesma mesa, compartilhar decisões e admitirem ser apresentados publicamente em ordem alfabética (a primazia coube ao representante da empresa de menor porte).

Encerradas as atividades da Associação que geriu a mostra, tudo faz crer que as vinculações não desapareceram. Aparentemente, persiste algum entendimento de Edemar Cid Ferreira com a imprensa, apesar dos sobressaltos. O sucessor do Chatô tinha uma noção muito clara da sua estratégia:

‘A cultura é um abre-alas. A gente vem atrás fazendo negócios’.

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