Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CIRCO DA NOTíCIA > CARTÕES CORPORATIVOS

A farra dos cartões e o direito à informação

Por Rodrigo Savazoni em 08/02/2008 na edição 471

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – especificamente o próprio – foi pego com a boca no botija dias atrás após a divulgação dos gastos dos cartões corporativos que o governo mantém para pagar pequenas e urgentes despesas. Acharam de tudo um pouco nas contas da presidência. E muita irregularidade.


Agora, o governo alterou as regras para esses gastos (a palavra é disciplinar) e também impedir que as informações sejam divulgadas no Portal da Transparência, uma das melhores e mais importantes iniciativas da Controladoria Geral da União (CGU) durante a era Lula.


Para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, cartões corporativos (desde que fiscalizados) são importantes porque garantem, justamente, a transparência dos gastos públicos. Não devem ser abandonados, porque são rastreáveis. Esse sempre foi o argumento para a existência desses cartões. E o governo não deixará de usá-los justamente por isso.


Daí, soa estranha a crítica feita pelo governo, inclusive pelo Ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Franklin Martins, à divulgação dos gastos do presidente. Alegam, agora, que isso não poderia ocorrer por razões de segurança.


O ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República Jorge Félix é o autor dessa tese obscurantista. Ele afirma, em matéria do G1, portal das Organizações Globo, que ‘as informações, no nosso entender, trouxerem algum tipo de prejuízo à segurança do presidente e às demais pessoas, essas informações não mais estarão presentes no Portal da Transparência’.


Rabo da lagartixa


Qual prejuízo? À imagem do presidente? À democracia e ao país não houve prejuízos. Pelo contrário. Os cartões funcionaram exatamente do jeito que deveriam: deixaram o rastro do erro. Essa transparência (a mesma defendida pela ministra) trouxe enormes benefícios à população, que – por meio de informações precisas e objetivas – ficou sabendo que seu dinheiro está sendo gasto de forma irregular, conforme admitiu a ministra da Secretaria Especial de Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, ao se demitir do importante cargo que ocupou nos últimos anos.


Ao restringir a divulgação dessas informações, o governo está cometendo um atentado contra o direito à informação de todo cidadão. É justamente para atender esse direito que o portal da Transparência existe. Inclusive, para fiscalizar o presidente, que numa república é cidadão como qualquer outro, e está submetido também ao império da lei.


É certo que setores da base do governo irão alegar que se trata de um golpe da mídia contra o presidente operário. Não é. Nenhum excesso cometido pela imprensa no passado pode ser utilizado para a análise deste episódio.


A imprensa, aliás, até agora, cumpriu perfeitamente o seu papel de fiscalizar o poder em benefício do cidadão. Utilizou, inclusive, de um expediente simples: analisar informações públicas e levá-las ao maior número possível de pessoas (mídia de massa). Um caso, portanto, de pleno funcionamento das instituições democráticas.


Os levantamentos ainda estão em curso. Os jornais trazem as informações de que não é de hoje que os cartões são utilizados de forma incorreta. O que não isenta ninguém de responsabilidade, só estende a dimensão do problema. O apoio do governo a uma investigação ampla sobre o uso desses recursos nos últimos dez anos é um bom sinal, muito embora saibamos que a base de sustentação do Planalto no Congresso faz esse movimento para ‘ameaçar’ a oposição, não para jogar luz sobre os fatos. Ainda assim, que venha a CPI e mais episódios para nos envergonhar.


O jornalista Sérgio Gomes, dos mais importantes que este país tem, sempre diz que, no Brasil, ao puxar o rabo da lagartixa a gente dá de cara com um baita jacaré. E não adianta se assustar. É melhor lembrar aquela quadrinha do Cacaso, irreverente, de Jogos Florais, que diz assim: ‘Ficou moderno o Brasil/ ficou moderno o milagre/ a água já não vira vinho/ vira direto vinagre’.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/02/2008 Guilherme Scalzilli

    Convido a todos para uma visita a meu blog (www.guilhermescalzilli.blogspot.com), onde inseri comentários sobre o assunto.
    Um abraço do
    Guilherme Scalzilli

  2. Comentou em 08/02/2008 Ivan Moraes

    1-”emburrecedor’ ouvir de qualquer pessoa pega com a boca na botija coisas do tipo ‘eu faço o que outros tambem fizeram (ou fazem)”: definitivamente! Mas… so para os envolvidos! Eu sou observador, e estou notando o inegavel roubo da historia brasileira. Se a media toda esta emburrecida eh porque a media esta envolvida NOS GASTOS DO GOVERNO: anahlize e comparacao PARA RETOMADA DO CURSO DA HISTORIA, como OBSERVACAO IMPARCIAL, quem esta fazendo -e com grande alarme e ate extremismos- sao os BLOGS. Nao eh a media. A media sempre soube de ‘certas’ coisas e nao de outras. Se todo mundo falasse o que soubesse, o Brasil seria outro, mas quem esta fazendo esse trabalho sao OS BLOGS. Por exemplo: ‘às vezes dá a impressão que o governo passado é a régua do atual’ nao pode sair de um observador! O observador imparcial sempre diz: ‘às vezes dá a impressão que oS governoS passadoS e o presente sao a régua do futuro’. As comparacoes sao validas como *metodologia sociologica*, nao como entravamento de debate. Quanto a ‘acho que nunca teremos um futuro limpo (ou menos sujo, pelo menos) se toda vez que detectamos os desvios presentes mitigamos (ou tornamos relativos) seus efeitos com os desvios passados’: TEREMOS SIM. Espere ate os brasileiros descobrirem quanto dinheiro tem sobrado ultimamente com a transparencia sem a histeria e sem o apontamento de dedo a Lula e a FHC.

  3. Comentou em 08/02/2008 Roberto Silva

    Ivan, vamos por partes: por relativismo moral entendo o uso dos erros de alguns para justificar o de outros. Isto vale para qualquer situação. É muito ‘emburrecedor’ ouvir de qualquer pessoa pega com a boca na botija coisas do tipo ‘eu faço o que outros tambem fizeram (ou fazem)’. Isto ocorre no trânsito, nas repartições públicas e assim por diante.
    Quanto às sempre presentes comparações deste governo com o governo passado: às vezes dá a impressão que o governo passado é a régua do atual. Explico: todo relato de qualquer desvio deste governo e pronto: ‘ah, mas na era FHC…’ Entendo duas coisas daí:
    1. Parece que a se a história brasileira se iniciou em 1994, e, portanto.
    2. Nada será feito para corrigir estes desvios.
    Culpar a imprensa tambem virou moda nos últimos tempos, como se o mensageiro fosse mais importante que a mensagem. Particularmente sempre tento filtrar os histrionismos e as paixões partidárias que estão cada vez mais infestando a mídia em geral. Taxá-la de ‘chapa-branca’ ou de ‘PIG’ tambem não ajuda, pois sempre saberemos como ‘carimbar’ o autor do comentário que faz uso destes termos.
    Para resumir, acho que nunca teremos um futuro limpo (ou menos sujo, pelo menos) se toda vez que detectamos os desvios presentes mitigamos (ou tornamos relativos) seus efeitos com os desvios passados.
    Mas quem sabe um dia as coisas melhorem, né ?
    Boa sorte no frio de NJ.

  4. Comentou em 08/01/2008 Marcos Oliveira

    Muito boa esta matéria! Acho importantíssimo que assun toscomo este, aliás que todos os assuntos, sejam tratados de forma aberta e sem leviandade. Parabéns ao Gabriel Priolli!

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