A fome e a vontade de comer | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CIRCO DA NOTíCIA > LEITURAS DO ESTADÃO

A fome e a vontade de comer

Por Luiz Antonio Magalhães em 29/04/2008 na edição 483

A posse do ministro Gilmar Mendes na presidência do Supremo Tribunal Federal, na semana passada (23/4), em Brasília, foi um evento bastante concorrido, que contou com ampla cobertura da imprensa brasileira. Os jornalões destacaram as fotos do encontro de três de ex-presidentes (Fernando Henrique, Fernando Collor e José Sarney) com o atual titular do cargo, Luiz Inácio Lula da Silva. De fato, as fotos ficaram boas, especialmente a publicada na Folha de S.Paulo com a legenda ‘Cada cabeça uma sentença’, em que os três ex-presidentes aparecem lado a lado, curvados e olhando para baixo.


Evidentemente, além de render os habituais mexericos para as colunas sociais e de notinhas políticas, a posse de Gilmar Mendes rendeu também pelo discurso do novo presidente do Supremo Tribunal Federal. O jornal O Estado de S.Paulo, por exemplo, deu um bom destaque para o assunto na edição de quinta-feira (24/4), em matéria assinada por Ruy Nogueira e reproduzida abaixo (os grifos são meus).




Democracia ganhou autonomia


Em discurso, ministro repele ações do MST


‘A democracia brasileira adquiriu autonomia funcional’, mas ‘a agressão aos direitos de terceiros e da comunidade em geral deve ser repelida imediatamente com os instrumentos fornecidos pelo Estado de Direito, sem embaraços, sem tergiversações, sem leniências’. O diagnóstico do estado da democracia brasileira e o remédio para casos como as invasões dos sem-terra são do novo presidente do STF, ministro Gilmar Mendes.


Na opinião do ministro, o País, da Constituição de 88 para cá, já estabeleceu a ‘crença’ de que ‘as vias democráticas de conciliação têm-se mostrado mais lucrativas que o conflito e a ruptura’. Essa avaliação da vida política nacional abriu o discurso de posse de Mendes no comando do Poder Judiciário. Na platéia, os ex-presidentes José Sarney (1985-1990), Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), os três antecessores do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava sentado ao lado do ministro Mendes.


O presidente do STF lembrou que os últimos 20 anos são o ‘mais longo período democrático’ vivido pelo Brasil republicano. Com Collor e Sarney a poucos metros dele, o ministro acrescentou que a Constituição funcionou porque esse período foi vivido com tranqüilidade institucional, ‘não obstante a inflação descontrolada (no governo Sarney) e os desvarios da desordem econômica por ela causada, e os sérios casos de corrupção no estamento político (governos Collor – impeachment – e Lula – mensalão)’.


Para o ministro, ‘as forças políticas não colocam em xeque as linhas básicas do Estado de Direito, ainda que alguns movimentos sociais de caráter fortemente reivindicatório atuem, às vezes, na fronteira da legalidade’, disse. ‘Nesses casos, é preciso que haja firmeza por parte das autoridades constituídas, (mas) os direitos de reunião e de liberdade de opinião devem ser respeitados e assegurados’, acrescentou.


O novo presidente do STF disse que a ‘independência do Judiciário’, a ‘capacidade regulatória da Constituição’ e ‘o exercício simultâneo e harmonioso do poder por diversos agentes políticos’ explicam o atual ‘equilíbrio institucional’ do País.


Não fossem os trechos em vermelho, a matéria estaria correta. E não é preciso ser especialista para entender o que aconteceu, pois o restante da reportagem revela que Gilmar Mendes falou muita coisa, mas sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não disse palavra. Quando chegou mais perto disto, Mendes citou ‘movimentos sociais de caráter fortemente reivindicatórios’. Ora, ou Ruy Nogueira, além de competente repórter, agora é também um craque na telepatia e conseguiu captar especificamente a quem o ministro se referia, ou o texto do jornalista foi devidamente editado na redação, em São Paulo.


De fato, é até provável que o novo presidente do Supremo, nomeado para o tribunal por Fernando Henrique Cardoso, realmente reprove a ação e o caráter do MST, em particular, e dos movimentos sociais, de forma geral, no que teria a total concordância da direção do Estadão. Reza o bom jornalismo, porém, que se retrate os fatos e não suposições ou os desejos da direção do jornal. Está incorreto o texto do lide da matéria e ainda mais errado está o subtítulo, que traz a referência explícita ao MST. No fundo, se o Estadão tivesse suprimido as duas referências aos sem-terra a matéria estaria correta e o pensamento de Mendes seria entendido praticamente da mesma maneira.


Ao forçar a mão, quem editou a matéria acabou sendo mais realista que o Rei. Sandro Vaia, ex-diretor de Redação do jornal, escreveu uma vez que o maior problema do Estadão era o ‘Mesquita que está dentro de cada um de nós’. Deve ter sido este o caso na edição da matéria sobre a posse de Gilmar Mendes.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/05/2008 Liber Matteucci

    A ditadura militar pós-golpe de 64 caçava os opositores políticos na luta armada espalhando cartazes com a cara deles sob a palavra ‘Procura-se’, como se fossem bandidos. Ou mostrava fotos de frente e de perfil, como na identificação policial dos criminosos comuns. A idéia era fazer com que a sociedade olhasse para esses homens como olha para um traficante, e não como gente que luta por idéias diferentes das que estão no poder. Agora, faz-se o mesmo (e o pior é que se consegue) com os sem-terra, criminalizando uma larga camada da população a quem diversos governos já prometeram a reforma agrária – sem cumprir, – e defendendo o direito de uns poucos latifundiários a ‘possuirem’ o Brasil. Não é preciso ser o Proudhon para ver quem está roubando quem, com a ajuda de boa parte da imprensa.

  2. Comentou em 29/04/2008 Carlos N Mendes

    O jornal OESP se traveste de uma sisudez que, a princípio, passa por seriedade, com uma arrogância intelectual de tal monta que há alguns anos você ainda encontrava em editoriais citações literais de políticos franceses no original, sem direito a tradução. Esse tipo de manipulação informativa que você detectou passaria em brancas nuvens por meus pensamentos, se não fossem as letras em vermelho. Estou preocupado. Por quantas vezes fui manipulado por este e outros jornais nos últimos anos ? Esse recurso é corriqueiro ? Já peguei muita ‘omissão seletiva’ – Veja e Folha são craques em fazer isso, publicar só a parte que interessa da notícia, mas é algo quase fácil de se perceber. Agora, essa do ‘direcionamento impróprio de idéias’ é mais sofisticada, porque mesmo que você leia duas vezes o texto pode passar despercebida. O negócio é ficar paranóico…

PRIMEIRAS EDIçõES > ARTIGO 222

A fome e a vontade de comer

Por lgarcia em 22/05/2002 na edição 173

ARTIGO 222

Lúcio Flávio Pinto (*)

Em 1970, a opinião pública nos Estados Unidos era formada (conduzida, manipulada ou esclarecida) por 50 grandes empresas jornalísticas. Dez anos depois, quando renovou seu clássico inquérito sobre mídia e monopólio, Ben Bagdkian verificou que os formadores de opinião haviam se reduzido a 27 corporações apenas, quase a metade da década anterior. Quantas elas somariam hoje? Quem sabe, 15?

Não é só a monopolização da informação que está acontecendo. É também o desaparecimento das tradicionais empresas especializadas em jornalismo, com base familiar, sepultadas pelos "jumbões" dos negócios, com participação em múltiplas e distintas áreas empresariais. Jornais que eram transmitidos de pai para filho, numa sucessão que tinha uma certa probabilidade de dar certo se o patriarca fosse dado a procriar. Dos muitos filhos que gerava, algum teria "queda" para esse negócio tão sensível que é apurar informações e produzir notícias para o público, vendendo-as sob a forma de mercadoria.

Dizem que a genética conspira contra a longevidade dessas empresas familiares. Nos poucos casos em que a sucessão de gerações não resultou em desastre, a empresa se tornou um negócio como qualquer outro, sem a marca da sua especificidade ? o plus, como dizem os engravatados executivos. Mesmo azeitada administrativamente, ela perdeu identidade. O resultado tem sido um jornal que chega às bancas como se fosse uma lata de salsicha ou um repolho. Recebendo gato por lebre, o leitor acabou percebendo a farsa.

Claro que essa tendência não pode ser interpretada como um convite ao conservadorismo e à imutabilidade. O jornalismo escrito, o melhor de todos pelo critério da qualidade (ainda que as outras formas ? radiofônicas e televisas ? possam ser superiores pelo ângulo do meio, não da mensagem), está tendo que mudar para sobreviver. O fato mais exemplar dessa contingência acontece atualmente com o Wall Street Journal. É o diário que mais vende nos Estados Unidos, com uma tiragem de 1,9 milhão de exemplares diários, um terço maior do que o segundo colocado, o USA Today.

O USA Today foi um fenômeno: em pouco tempo de circulação estava batendo na marca de um milhão de exemplares. É multicolorido, adornado de gráficos, tabelas e ícones do infoshop. Os textos são curtos e esquemáticos. Freqüentemente os adornos ocupam mais espaço do que a notícia, o glacê maior do que o bolo. Mas parou na tiragem pouco superior ao milhão de exemplares. Já o Wall Street Journal raramente publicava foto. Sua primeira página era um tijolaço, com matérias que continuavam nas páginas internas. Textos que podiam ser longos, imensos, se a complexidade da questão exigesse demonstração adequada. Mas quem lia com atenção o jornal podia estar certo de que estava recorrendo ao melhor instrumento de atualização e informação sobre o estado do mundo naquele dia.

Ajuste formal

A folha do mundo financeiro americano, porém, mudou. Passou ser impressa em cores, tendo seções de entretenimento, utilizando fotos como qualquer jornal convencional, e vai procurar atrair novas faixas de leitores, além de não perder os que já tem (o que deve estar ameaçando ocorrer). Confesso que meu prazer íntimo, ao final da leitura do WST, era saber que tanta gente estava fazendo o mesmo, apesar de aquele produto ser exatamente o oposto do que qualquer assessor de marketing recomendaria. Era um elitismo saudável: um produto de qualidade conseguia alcançar um público bem maior do que o de um produto vagabundo, como o USA Today. Era estimulante.

Esse mundo tinha seu glamour. Não era um elitismo parasitário. Lembro que O Estado de S.Paulo, até meados da década de 70, não tinha coluna social nem corretor de anúncios. Quem quisesse anunciar tinha que comparecer ao balcão de anúncios, a Volkswagen ou o João da Silva. O jornal paulista também não fazia "marreta", que são aqueles "cadernos especiais" para arrancar publicidade. A Rádio Eldorado, do mesmo grupo, transmitia o turfe no domingo à tarde, enquanto as outras emissora se esgoelavam com o futebol. Depois, uma ópera completa, sem interrupção. Não admitia publicidade com jingles. Tudo era locução direta. E locutor tinha que saber ler em três ou quatro línguas, mesmo que não entendesse o que estava dizendo, mas a ser dito em pronúncia convincente.

Se a decoração do WST não afetar seu conteúdo, tudo bem. O parisiense Le Monde já fez o mesmo, sob a pressão de uma queda de leitura preocupante, o que não é ainda o caso do diário novaiorquino. Esse ajuste formal aos novos tempos será suficiente para restabelecer o equilíbrio editorial e a saúde financeira das empresas, ou a necessidade de mudar uma fisionomia tradicional (e tradicionalmente bem-sucedida) é um sinal de tempos mais bicudos para um jornalismo de qualidade, nivelado por baixo?

Tratamento profilático

Talvez a abertura da imprensa brasileira ao capital estrangeiro, inovação que tramita pelo Congresso Nacional através de projeto de lei, traga para nosso sertão, mais do que o simples debate acadêmico sobre o tema, a prática dessa linha de frente. Nossas grandes empresas jornalísticas estão sofrendo de arteriosclerose, tanto por degenerescência interna quanto por falta de afinidade com a história. E ? o que é tão ou mais importante ? por falta de grana, o tão carente capital próprio (fictício como rubrica da contrapartida do empresário ao financiamento estatal e real quando transferido para um paraíso fiscal; no que resulta uma rima, mas não a solução).

A empresa jornalística não podia se vacinar contra a crise econômica geral, evidente. Mas, se bem informada, devia ter-se antecipado a ela e adotado os meios mais eficazes de minimização dos efeitos negativos. O Wall Street Journal parece ter tido em muito maior dose essa capacidade do que o Le Monde, dois jornais que, em sua cultura específica, simbolizavam a possibilidade de um jornalismo de alto nível, um indo do centro para a direita e outro mais para a esquerda, um mais econômico e outro mais político, um sobretudo noticioso e outro mais analítico. Já os nossos jornais parecem mais ao sabor das ondas, seja as das conveniências como as da fantasia, resultantes das ilusões que foram plantadas sistematicamente nas páginas dessas publicações (e parece haver acabado por convencer seus donos).

O ingresso do capital estrangeiro na imprensa brasileira é visto por prismas divergentes. Dos que o consideram positivo, pela entrada líquida de capital que poderá proporcionar, e dos que a ele resistem, por encará-lo como um deslavado cavalo de Tróia. A dúvida pode ter outro enfoque: é ou não inevitável? Se inevitável, no rastro da tal da globalização, qual a maneira mais saudável (a nosso favor) de recebê-lo, enquadrando-o?

Estamos cansados de saber que não é só por falar a nossa língua que o nosso empresário é melhor, na própria terra, do que um gringo. Por outro lado, não é apenas por ser made in USA que o produto é superior. Sob garantias de que o dinheiro será reinvestido, que sua aplicação será passível de controle público e que seu espaço será claramente delimitado, a experiência poderá ser positiva. Desde que, sobretudo, ela não traga, agravado, aquele vírus do monopólio identificado por Bagdkian nos Estados Unidos. O nosso já é grave o bastante para que queiramos agravá-lo ainda mais, com um vírus mais poderoso do que o organismo doméstico. Se for assim, é melhor submeter o paciente a tratamento profilático e sanear o ambiente para que ele se torne fecundo, ao invés de infértil.

(*) Jornalista em Belém (PA), editor do Jornal Pessoal

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