Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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A frase que De Gaulle nunca disse

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 23/04/2009 na edição 534

Todo mundo sabe que a imprensa pode, deliberadamente ou por um mal-entendido, veicular inverdades que se transformam em verdades ‘históricas’. Os exemplos são incontáveis. A frase atribuída a De Gaulle desde 1962 – ‘Le Brésil n´est pas un pays sérieux’, o Brasil não é um país sério – é uma prova de que a versão muitas vezes é mais importante do que o fato.


Na semana de abertura oficial do ano da França no Brasil, pouca gente vai querer lembrar de um momento histórico difícil: a chamada ‘guerra da lagosta’, durante os governos do general De Gaulle e do presidente João Goulart. Dessa guerra sem canhões nem bombas, restou a famosa frase atribuída ao general De Gaulle, que serve de chicote para nos autoflagelarmos vez por outra.


Acontece que a frase nunca foi pronunciada por De Gaulle, garante o então embaixador brasileiro em Paris, Carlos Alves de Souza, em seu livro Um embaixador em tempos de crise (Livraria Francisco Alves Editora, RJ, 1979). Ele diz claramente que sempre achou que ‘a França estava coberta de razões e o incidente tinha sido envenenado pela imprensa brasileira’ (pág. 316).


Como chicote


O embaixador conta que depois de um encontro com De Gaulle, em Paris, ele não quis dar entrevistas aos jornalistas que o esperavam na saída do Eliseu. Mas à noite, numa recepção em casa do presidente da Assembléia Nacional, Jacques Chaban-Delmas, foi interpelado pelo jornalista Luís Edgar de Andrade, correspondente do Jornal do Brasil em Paris. Conversaram um pouco off the records, o embaixador citou o samba carnavalesco ‘A lagosta é nossa’ e comentou as caricaturas do presidente De Gaulle na imprensa brasileira. Acabou a conversa com a frase: ‘Luís Edgar, le Brésil n’est pas un pays sérieux’.


A frase entrou definitivamente para o folclore político brasileiro. Quantas vezes não ouvimos a famosa frase, citada na língua de Molière?


O embaixador escreve no seu livro:




‘Provavelmente o jornalista telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com quem eu me avistara poucas horas antes desse nosso encontro casual. Luís Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas a frase `pegou´. É evidente que, sendo hóspede do General De Gaulle, homem difícil, porém muito bem educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do Chefe da Missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos’.


A frase ficou e serve de chicote para nossos exercícios de autoflagelação. Se encerra uma verdade, cabe a cada um de nós decidir. Mas nunca foi pronunciada por De Gaulle.

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Jornalista

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