Quarta-feira, 26 de Julho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº951

CIRCO DA NOTíCIA > TRAGÉDIA EM CONGONHAS

A mentira tem asas curtas

Por Carlos Brickmann em 24/07/2007 na edição 443

Se o colega declarar à seguradora que guarda o carro numa garagem, e for mentira, não terá direito à indenização em caso de roubo.


Como se explica, então, a boa vontade da imprensa com o presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, que declarou diante das câmeras que o Airbus A-320 que se acidentou estava em perfeitas condições, quando sabia muito bem que parte do sistema de frenagem – um dos dois reversores – estava com defeito? Não importa, neste caso, se o reversor é importante ou não (e, se não fosse, por que o fabricante do avião o instalaria?): se a luzinha do relógio de horas da cabine não estivesse acendendo, o avião poderia voar, mas não estaria em perfeitas condições. E, no caso de um equipamento de segurança, a mentira se agrava.


Tudo bem, os meios de comunicação não querem cometer injustiças. Tudo bem, poucos jornalistas conhecem avião o suficiente para discutir a rebimboca da parafuseta. Tudo bem, a TAM é grande anunciante. Mas é preciso salientar que seu presidente mentiu; e, se mentiu neste caso, que foi descoberto, por que teria dito a verdade em outras partes de seu depoimento?


A imprensa tratou excepcionalmente bem o presidente da TAM. Mas merece aplausos por ter investigado uma outra parte de seu depoimento: aquela em que promete toda a assistência à família das vítimas. Os repórteres foram buscar as vítimas de 1996, quando outro avião da TAM, um Fokker 100, caiu logo após a decolagem em Congonhas, matando os 99 passageiros e três pessoas que estavam por perto. E descobriram que a empresa continua, onze anos depois, discutindo o pagamento.



Dúvida cruel


Uma das provas do bom tratamento que os meios de comunicação dedicaram ao presidente da TAM é que ninguém lhe fez uma pergunta fundamental: se os jatos A-320 da empresa têm no máximo, conforme seu site, 174 poltronas, mais piloto e co-piloto, como havia 187 pessoas a bordo? Talvez houvesse onze comissários, mas este colunista, em suas viagens, jamais viu tamanha fartura de pessoal. Sempre são seis. Com todo o respeito, não haveria pessoas viajando sem cinto de segurança? E por que uma delas nem constava na lista de passageiros?



O bem para todos


A propósito, já que o assunto é falar bem, há tempos um veículo de comunicação publicou ampla reportagem sobre a Gol e seus diretores. Um desses diretores era tão magnífico que, ao chegar ao Rio, tomava um táxi no aeroporto – exatamente como gente que não é tão boa, como este colunista e os caros colegas. E se expunha mais uma vez a filosofia da Gol, de só usar aviões novos, de custo operacional mais baixo, com poucas despesas de manutenção, para garantir sua política de baixas tarifas.


Pois o Estado de S.Paulo demoliu esse mito: em excelente reportagem, mostrou que os aviões não são novos nem vieram novos. Sem dúvida, a frota é jovem; mas não precisava espalhar que os aviões eram novos. Quase novos, talvez; seminovos, que é como os revendedores de carros usados chamam sua mercadoria. Dizer que são novos é entrar naquilo que, em brilhante artigo na Folha de S.Paulo, o advogado Walter Ceneviva qualificou como ‘descompasso com a verdade’.



Garcia top-top


Muitas queixas contra os meios de comunicação pelo vídeo em que o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia fez gestos obscenos. Duas são as queixas maiores:


1. O gesto pode ser horrível, pode ser inoportuno, mas é comum.


2. A própria divulgação do vídeo, obtido sem autorização, seria uma demonstração de falta de ética. Pergunta um internauta: ‘É sério, é ético, cavar matéria e flagrantes com teleobjetivas?’


O gesto efetivamente é comum. Mas uma autoridade, ainda mais autoridade que mexe com a área diplomática, deve pensar suas palavras e gestos. No trânsito, todos se xingam e, com a maior facilidade, trazem as respectivas mães ao debate. Um governo deve ter modos; não pode se comportar assim.


Quanto à ética, não se pode exigir que as imagens sejam autorizadas pelos envolvidos. O que se deve saber é se são verdadeiras. As imagens do acidente aéreo não foram autorizadas, as imagens daquele senhor dos Correios levando propina não foram autorizadas, as fotos daquela importante senhora com maiô da Texaco não foram autorizadas. As fotos daquele pessoal da Infraero dando risada enquanto os bombeiros lutavam para resgatar os corpos não foram autorizadas. As autoridades que se comportem. Se o fizerem, nenhuma imagem, autorizada, não-autorizada, clandestina ou seja lá de que tipo for, poderá atingi-las.



O cúmulo


O caos aéreo chegou ao auge. Está na nossa imprensa:




‘Um avião com cerca de 240 passageiros realizou um pouso de emergência no aeroporto de Portela, em Lisboa. O vôo era operado por um Boeing 767.’


Os aviões estão operando a si próprios!



A culpa de cumprir a lei


Quando uma empresa faz suas doações eleitorais dentro da lei, de que pode ser acusada? Bingo: ela é acusada de fazer doações eleitorais dentro da lei. As reportagens tentam vincular a doação a possíveis retribuições futuras dos parlamentares beneficiados. As reportagens desse tipo até teriam sua lógica se demonstrassem que parlamentares beneficiados por doações agiram irregularmente em favor das empresas que contribuíram. Acontece que esse tema nem é tocado: a matéria se limita, em cima dos dados liberados pelos tribunais eleitorais, a contar que empresas de determinada área contribuíram para a campanha de candidatos amigos que – surpresa! – atuam na mesma área.


Alguém esperaria que empresas automobilísticas doassem recursos a candidatos cuja plataforma fosse proibir o motor a explosão?



O futuro dos jornais


Depois de calar-se, de reunir-se, de dizer a amigos que estava ofendido com as vaias no Pan, o presidente Lula finalmente falou à nação. Seu discurso foi divulgado pelo rádio, de manhã, comentado pelo rádio, pela TV, pela internet o dia inteiro. E, no dia seguinte, os jornais dão a notícia de que Lula está triste – como se fosse uma grande revelação.


Está na hora de repensar o papel dos jornais. Há mais de trinta anos, Alberto Dines espalhou televisores pela redação do Jornal do Brasil, no Rio, para que todos se lembrassem de que boa parte das notícias que tinham em mãos já havia sido divulgada pela TV. Era preciso, portanto, buscar novo enfoque.


A situação se tornou hoje ainda mais complexa: não é só a TV, nem apenas o rádio, mas toda a internet divulgando notícias o tempo todo. O jornal tem de reavaliar seu papel: ou hierarquiza e organiza os acontecimentos ou não servirá rigorosamente para nada.



Questão de número


A propósito, os jornais poderiam consultar suas fontes para conferir se o presidente Lula foi vaiado três, cinco ou seis vezes no Maracanã.



Questão de preço


A reportagem tinha tom de denúncia: uma só empresa domina 85% das compras de uma secretaria de Saúde. E a resposta: a secretaria acusada informava que tinha conseguido reduzir o preço de 41 itens, alguns em quase 200%.


Considerando-se que uma redução de 100% faz com que o preço seja zero, que é que acontece quando a redução é de quase 200%? Alguém paga para a gente ficar com a mercadoria?



Questão de local


Trecho de notícia: ‘O enterro foi realizado no cemitério São Paulo (largo do Arouche, 312)’.


O Largo do Arouche fica no centro de São Paulo. É muito charmoso, tem um excelente restaurante francês, La Casserole, tem barracas de flores no canteiro central, tem a Academia Paulista de Letras. Mas cemitério não cabe ali, não.



E eu com isso?


O maior aeroporto do país está sob suspeita, a maior empresa aérea do país teve um enorme acidente, as autoridades aeronáuticas do país estão tentando descobrir de onde virão as próximas pancadas. Mas nossos meios de comunicação sabem a importância do frufru. Em plena semana de tragédias, ficamos sabendo que:


** ‘Paris Hilton deixa seio à mostra no mar de Malibu’


** ‘Ex de affair de Gisele pode dar à luz no aniversário da top’


** ‘De minissaia, Daniele Suzuki faz ensaio para revista’


** ‘Fernanda Paes Leme dança axé em bar no Rio’


E, sensacional (como se diria nos filmes antigos, ‘parem as máquinas’):


** ‘Lindsay Lohan não aparecerá completamente nua em filme’



O grande título


Há coisas boas na semana. Comecemos por um título ornitológico:


** ‘Gallo não garante Pato como titular no Inter’


Há um título enigmático:


** ‘Rival do Brasil deixará marido dividido no vôlei’


E há um título imbatível:


** ‘Juiz acata denúncia do Ministério Público, acusa presidente Alberto Dualib de lavagem de dinheiro e pede prisão de Kia’


O título é fantástico porque juiz não acusa, julga. E não pede, determina.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/07/2007 Aline e Mariana Souza

    Mais um texto que nos faz mais do que refletir. Parabéns Carlos!!!

  2. Comentou em 26/07/2007 Washington Ferreira

    Valmir Perez, espero que os veículos de comunicação tenham aprendido com a aula que você deu em tão poucas linhas. Quanto ao caro professor Miguel Álvares Cardoso, sua observação veio bem a propósito devido ao ódio movido ao assessor presidencial por causa da sua influência na formulação da política externa brasileira, um sucesso absoluto. A corja midiática quer a continuidade da subserviência aos EUA.

  3. Comentou em 26/07/2007 Joao Donizete

    Quanta ‘verdade’ escrita nesta página. Quanto ao TOP TOP, os nossos governantes sao tao bem informados que nao conseguem informacoes dos supostos orgaos responsaveis (ANAC/INFRAERO) e quando vao ao unico formador de opiniao (REDE GLOBO) sao capturados em imagens nao aprovadas pela censura imposta pelo proprio governo federal. Sera que vou ter que tirar minha filhinha de 10 anos da sala quando os petistas e peemedebistas foram falar com a nação. Que desordem ORGANIZADA. Abracos,

  4. Comentou em 26/07/2007 Teo Ponciano

    Há muito o que comentar nesta matéria. Vou aqui me limitar ao seguinte: porque não se junta toda a equipe de jornalismo da globo, veja, estadinho, folhinha, etc; acomodam-se todos num possante onibus, aceleram até os 200 km/h na pista de Congonhas e quando estiverem lá pelos dois terços da pista poderiam tentar frear (evitando a Washington Luís) contando apenas com os pneus… E notem que um onibus mesmo lotado com essa cambada toda não chega nem perto do que pesa um A-320.

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