Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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A mídia e a alegoria de uma vitória

Por Ulisses Capozzoli em 06/11/2008 na edição 510

Impossível não comemorar nem se emocionar com a vitória do candidato democrata Barack Obama à presidência dos Estados Unidos. Os cientistas políticos – com perdão da simplificação, esses sujeitos que dizem o que todo mundo sabe – estão analisando nas páginas dos jornais e nas telas da TV o que deve mudar com este resultado. A verdade, no entanto, é que as coisas já mudaram. E profundamente.


Outros analistas advertem que o presidente negro poderá não cumprir tudo o que prometeu. Pouco importa a extensão da pauta proposta. Até porque, por circunstâncias históricas, muito do que sequer pôde ter sido imaginado deverá aflorar à realidade cotidiana, emergindo da história profunda – para tomar a expressão do historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945), exemplar de uma espécie que mais de uma vez pareceu em vias de extinção: os humanistas.


Huizinga esteve, como disseram alguns de seus admiradores, ‘mergulhado no passado, mas apenas para avaliar melhor o presente’. E, poderíamos acrescentar, ‘como forma de construir o futuro’.


‘Casa de cegos’


Nas páginas dos jornais, como aves de mau agouro, uma burocracia diplomática brasileira, incluindo certa linhagem de economistas, além de empresários que semeiam pela manhã com determinação de colher no fim do dia, avaliaram nos últimos dias que McCain seria mais conveniente aos interesses comerciais do Brasil. Nada de novo. Às vésperas da reeleição de George W. Bush, diziam a mesma coisa. Um pretenso liberalismo dos republicanos seria mais benéfico ao comércio exterior do Brasil, coisa que democratas não estariam dispostos a fazer.


Análise caolha, pois o sujeito de um olho só é incapaz de fazer o que os astrônomos chamam de paralaxe, cálculo mental para avaliar a profundidade das coisas. No caso da astronomia, a distância de uma estrela no céu.


Esses homens pragmáticos, para utilizar uma terminologia neutra, ficariam satisfeitíssimos se, por exemplo, McCain como presidente eleito abrisse completamente as portas para, a título de exemplo, a importação de etanol no Brasil. Encheríamos o peito de patriotismo verde (e, boa parte dessa gente, os cofres de dinheiro) mas não deveríamos nos iludir que o preço interno do etanol, se não chegasse às nuvens, subiria a uma altura considerável. E todos nós esvaziaríamos os bolsos com isso. A exemplo do que ocorreu durante o governo militar, quando um ministro de triste memória cunhou uma frase repetida à exaustão: ‘Exportar é o que importa’.


Durante muito tempo foi o que aconteceu com o café. Exportávamos o que tínhamos de melhor e bebíamos o ruim, o pior do que sobrava. Mais de uma vez aconteceu também com a laranja, quando as geadas castigaram os pomares da Flórida. Mas, como previne a fala popular que ‘em casa de cegos quem tem um único olho pode ser o rei’, essa gente tem sido sistematicamente levada a sério.


Nada a perder


Por que as coisas mudaram, e podem mudar ainda mais profundamente, aos menos nos Estados Unidos, com as repercussões do que acontece por lá?


Não porque um negro foi eleito presidente de um país cujas atitudes repercutem, para o bem e para o mal, em cada canto aparentemente isolado deste mundo.


Mudaram e deverão mudar porque a população americana, representada por quem foi às urnas depositar seu voto, de muitas e diferentes maneiras identificou-se com o perfil de Barack Obama. E ele tem uma história marcada por demandas e exigências contemporâneas.


Expresso de forma algo sumária – pelo tempo apressado da mídia e a crítica dela – porque ele traz, na vida pessoal, a síntese histórica que falta a McCain e que nunca existiu no caso de George W. Bush, o presidente que literalmente sai pela porta dos fundos.


Obama tem o que se pode chamar de humanidade, humanismo, o compromisso de gente como Johan Huizinga. Suas raízes afro, sua avó paterna e seus parentes quenianos dizem algo por trás de seus ombros e entre essas palavras estão apelos claros a uma nova ordem. A África conhece na pele o custo desta desordem, amplificada por George W. Bush.


Evidente que isso não é algo que se possa esperar pessoalmente de Obama. Isso é o que ele representa, o que é muito diferente. Obama é uma metáfora, uma alegoria promissora.


Valores éticos à parte (para tirar partido de uma hipérbole), o estágio da história em que vivemos, pela biologia, antropologia ou qualquer um dos muitos galhos em que frutifica o conhecimento da ciência, somos todos humanos, sob as diferentes cores da pele. Agora é preciso construir uma ordem em acordo com este conhecimento.


Equidade, justiça social, respeito às diferenças e perspectivas de melhores dias não são mais discursos de altruísmo. São necessidades históricas. Sem isso a alternativa são os ataques terroristas por parcelas crescentes de quem tem pouco ou nada a perder. Daí a possibilidade de uma das inúmeras leituras da expressão: ‘Sim, isto é possível’.


Olhos de ver


Há quem diga que a internet foi decisiva nas eleições americanas, com a leitura paralela de que, sem ela, esse feito teria sido impossível. Talvez não seja sensato discordar disso no contexto, mas pode ser uma enorme tolice aceitar esta leitura como confirmação de veracidade estrutural. Essa pode ser apenas uma leitura superficial, variável como a superfície do mar, mas distante da história profunda, no movimento lento do assoalho oceânico, para recorrer à ajuda de Fernand Braudel (1902-1985).


A internet não tem auto-suficiência. Também ela necessita de conteúdo e Obama tem o que dizer neste momento da história em que a pura ideologia, por trás da pretensa mão invisível do mercado, desabou como uma casa infestada por cupins.


George W. Bush, de muitas maneiras, também foi uma metáfora. Alegoria da banalização da vida e da dignidade humanas, expressa no que se convencionou chamar de neoliberalismo – ideologia do dinheiro acima de tudo a qualquer preço, a qualquer custo. Ao menos até o 29 de setembro, quando as últimas vigas ruíram e a casa literalmente caiu.


Barack Obama não é um Capitão América nem qualquer um da constelação de super-heróis que seduzem o imaginário americano e de outras partes do mundo. Ele é uma metáfora, uma ‘promessa de felicidade’, como diria Stendhal. E é possível concordar com ele no ‘sim, isto é possível’ para fazer também deste país, o Brasil, uma nação com gente com um par de olhos.


Capazes de sondar as distâncias e dessa forma reconstruir o futuro.

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Jornalista

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