Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
Menu

CIRCO DA NOTíCIA >

A nossa parte da crise

Por Carlos Brickmann em 14/10/2008 na edição 507

Conforme as diferentes tendências ideológicas, os meios de comunicação decretam o fim do capitalismo, o fim do neoliberalismo, o fim do liberalismo, o fim do mercado, a instauração do socialismo linha Bush nos Estados Unidos, a estatização geral, uma crise episódica, uma crise da qual o capitalismo sairá mais forte, livre do parasitismo dos especuladores. Ninguém ainda parece ter falado em Kondratieff, o russo que teorizou sobre crises cíclicas, em períodos determinados. Mas, não demora muito, vão falar.

Ninguém falou, entretanto, sobre o papel desempenhado pelos jornalistas na parte brasileira da crise. Como na alta da Bolsa, na época da ditadura, os meios de comunicação insuflaram o ânimo do leitor-futuro-investidor. Reportagens sobre ágeis manobras de grandes investidores brasileiros, que se transformaram rapidamente em bilionários; ou matérias do tipo ‘Ganhei um milhão na Bolsa’. Ou ainda a hagiografia de um misterioso coreano, que trabalha principalmente com os conterrâneos imigrantes, e cujos infalíveis fundos de investimentos batiam todos os recordes de lucratividade (um destes fundos, a propósito, está sendo dissolvido, depois de derreter-se). Pelo volume dos lucros, só podia ser especulação das bravas – mas isso não consta da reportagem.

Pelo menos um colunista se gabava, quase todos os dias, dos altíssimos lucros que auferia na Bolsa, e ridicularizava as quedas de preços, afirmando que os bens de raiz que dizia ter comprado com os rendimentos em ações continuavam de pé.

Agora é fácil culpar os investidores, porque não foram cautelosos o suficiente. Agora é fácil lembrar a máxima suprema do mercado de ações, comprar na baixa e vender na alta. Mas como orientar o investidor, se os meios de comunicação só entram na cobertura quando o mercado se aquece violentamente ou quando entra em pânico?



Os donos da verdade

Dizem que, há alguns anos, um grande jornal criticava determinadas posições do Vaticano, lamentando que o papa não houvesse seguido os conselhos de seus editoriais.

Até que as coisas não mudaram tanto. Os analistas de Economia têm opiniões radicalmente divergentes sobre os motivos da crise, os rumos da produção, as soluções propostas pelos diversos governos. As autoridades dos mais diversos países, das mais diversas tendências políticas, também. Só os jornalistas, aparentemente, sabem o que fazer. Aliás, não apenas sabem o que fazer como são seguidos por alguns dos mais renomados economistas do mundo (‘inclusive com pontos sugeridos pelo blog em diversos posts’), e garantem que tudo o que acontece agora, e que surpreende autoridades e universidades, autores e operadores, estava previsto naquilo que vinham escrevendo há muito tempo.



A diferença

O novo correspondente da TV Brasil em Washington, Floriano Filho, apresenta a empresa nos Estados Unidos como ‘mais ou menos equivalente à PBS’. Errado: a PBS, Public Broadcasting System, é pública. A TV Brasil é estatal.

A diferença básica entre uma TV pública e uma TV estatal não está no financiamento (há TVs públicas pagas pelo telespectador, por patrocinadores, pelo governo), mas no controle. A TV Pública não está subordinada aos interesses políticos oficiais. Já a TV Brasil tem o comando inteiro escolhido pelo governo e seu estatuto foi definido por decreto presidencial (sem audiência do Congresso). Até os ‘membros da sociedade civil’ são escolhidos de acordo com o estatuto decretado pelo Governo. Estatal, pois; e não pública.



Mais um, mais um

Tudo bem, ele deve ter, em seu amplo apartamento, um quarto duplo só para guardar os prêmios que já recebeu em sua longa carreira jornalística. Mas cada prêmio representa um reconhecimento ao bom trabalho; e este, em especial, o Troféu Especial de Imprensa ONU: 60 Anos da Declaração de Direitos Humanos significa muito para o repórter Ricardo Kotscho. Ele já se arriscou, durante a ditadura, para elaborar, sob a orientação da Arquidiocese de São Paulo, um livro-chave da luta pelos direitos humanos: o Brasil Nunca Mais.

Kotscho recebeu o prêmio junto com mais três bons jornalistas brasileiros, Zuenir Ventura, José Hamilton Ribeiro e Caco Barcellos. A outro, Henfil, já falecido, o prêmio foi outorgado in memoriam. Parabéns, que eles os merecem.



Muito bem explicadinho

De uma publicação especializada em economia:

** ‘Como resultado, os preços do gado – matéria-prima usada pelos frigoríficos – dobraram nos últimos 12 meses’.

Ainda bem que a preocupação com a informação é predominante. Se o texto não o informasse, como saber que o gado é importante para os frigoríficos?



Informar, aprimorar

Sempre que um bom jornalista responde à clássica pergunta do estudante (‘que devo fazer para exercer a profissão?’), dá ênfase à leitura. Quem lê não apenas fica mais bem informado; também automatiza o bom uso do idioma. Fica muito mais fácil, para um bom leitor, acertar regências, tempos de verbo, grafias, mesmo sem lembrar regras gramaticais ou raízes etimológicas.

Ler é importante; e é importante que o texto seja no mínimo correto. Um ou outro erro de digitação podem passar sem problemas; algum tempo verbal pode sair errado, depois que a frase for muitas vezes mexida. Mas essa não deve ser a regra: a regra tem de ser o bom texto – coloquial, sim, às vezes distante da norma culta, mas com cuidado na grafia, na gramática, na construção. Afinal de contas, é nossa língua. Como diria Noel Rosa, é coisa nossa.

Não é exatamente o que se lê hoje: a regência parece esquecida, coisa velha dos tempos do Império (‘não o comunicou’, ‘fulano lhe matou’), o subjuntivo também anda meio por baixo (‘negou que fosse ele’ se transforma em ‘negou que foi ele’), e até a grafia, a parte mais fácil – basta consultar o Manual de Redação, ou um dicionário, ou mesmo o corretor ortográfico do computador – anda mal das pernas. Num só dia, numa rápida leitura, alguns exemplos que este colunista localizou (em grandes jornais, em colunas de prestígio):

** ‘mal cheiro’

** ‘planos expancionistas’

** ‘uma retalhação futura’

** ‘abalo císmico global’

O ‘mal cheiro’ chama muito a atenção. Nos primeiros anos do curso fundamental, sempre se ensina que ‘mal’ é o oposto de ‘bem’, e que ‘bom’ é o oposto de ‘mau’. Será que é tão complicado guardar uma lição tão simples?



E eu com isso?

Preocupado com a crise? Esqueça! Há jornais que vendem muito com informando que um DJ, com o revelador nome de ‘Tralha’, já namorou duas moças com nomes de frutas. Ele informa: ‘Foi legal, foi gostoso’. Mas não quis dar o nome das moças. Esta coluna revela o segredo: uma é a ‘Mulher Abacaxi’. A outra, especial para quem fica revelando esse tipo de intimidade sem combinar com a parceira, é a ‘Mulher Banana’.

Uma publicação especializada em famosos traz a notícia explosiva: ‘Filhos de Michael Jackson são fotografados sem máscaras’. E como é que foram reconhecidos?

Simples: está no título seguinte. ‘Michael Jackson usa disfarce bizarro durante tarde em família’. Bastou seguir o pai para achar facilmente os filhos.

Ainda há muitas notícias para comentar no intervalo da novela:

** ‘Angelina Jolie separa briga dos filhos’

** ‘Xuxa é flagrada fazendo compras no Rio’

** ‘Atriz de `Desperate Housewives´ é lambida por cachorro em NY’

** ‘Russell Crowe está cabeludo e com alguns quilos a mais’

E a mais sensacional de todas:

** ‘Victoria Beckham usa creme à base de excrementos de pássaros’

Ué, não tem gente que paga caríssimo por café colhido no excremento de cabritos?



O grande título

Há um bom exemplar de título incompleto:

** ‘Marta critica Kassab por se’

Complete à vontade: nas próximas duas semanas, Marta vai criticar Kassab até por se chamar ‘Gilberto’. Faz parte do jogo.

E há um título notável, absolutamente imbatível, de uma publicação importante:

** ‘Nobel de Medicina vai para dois vírus: HPV e HIV’

É a primeira vez que um Prêmio Nobel é concedido a vírus e não a seres humanos. E, considerando-se que a honraria é acompanhada de US$ 1,4 milhão, eles se transformaram nos vírus mais ricos do mundo.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem