Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CIRCO DA NOTíCIA > JORNALISMO E IDÉIAS

A patrulha está de volta

Por Carlos Brickmann em 15/03/2005 na edição 320

Este Observatório, pelo que entendo, é um fórum de discussão de jornalismo, e não de jornalistas. Procuro levar essa tendência o mais longe possível, evitando até publicar nomes e títulos. A crítica é da notícia, não de quem a escreveu.

Vejo que, às vezes, escorregamos. Este Observatório reproduziu, na seção Entre Aspas da última edição, um feroz ataque ao jornalista Ucho Haddad, no qual ele é acusado, entre outras coisas, de não ser jornalista e de não se chamar Ucho Haddad. Tudo muito bom, tudo muito bem: mas quem é que define quem é jornalista? Será o diploma? Eu não o tenho. Será o Ministério do Trabalho? E quem é que dá ao nosso ministro, qualquer que seja ele, o direito de dizer quem pode exercer a profissão?

Pode ser pior: a bobageira em que Ucho é acusado de não ser Ucho deixa claro que quem determina quem pode ou não pode ser jornalista é o patrulheiro que a assina. Sim, ei-la de volta: a patrulha velha de guerra, em que o patrulheiro se sente no direito até de interpelar os colaboradores da coluna da qual não gosta e exigir que parem de escrever em lugares que ele não aprova. É inaceitável; liberdade de imprensa é a liberdade de quem não gostamos, nos moldes que nos ensinava a revolucionária judia alemã. O público que julgue e a patrulha que se dane.

O importante não é o Ucho, nem sua coluna (da qual, aliás, não sou colaborador, embora o conheça e respeite, pessoal e profissionalmente). O importante é evitar que locais sérios, como este Observatório da Imprensa, destinados a discutir jornalismo, se transformem em rinhas de galo, em que a discussão sobre teses se transforme em troca de insultos pessoais e ataques cuja causa real não chega a ser identificada. Se Ucho é apelido e o nome é Evaldo, que diferença faz? Não temos um Luiz Inácio que se elegeu transformando em nome o apelido de Lula?



Como é mesmo?

Gente, que bola nas costas! A prefeitura de São Paulo foi acusada de contratar a sobrinha de um importante secretário. Resposta: ela foi contratada por competência, não por ser parente. Vá lá. E qual é sua tarefa? Assistente técnica da secretaria de Participação e Parceria, com a função de ‘coordenação da diversidade sexual da Secretaria’. Os jornais publicam! E ninguém fez a pergunta óbvia: que quer dizer ‘coordenação da diversidade sexual da Secretaria’? O autor da melhor resposta ganhará o CD single do senador Eduardo Suplicy cantando ‘Blowin’ in the wind’, com Supla no backing vocal, tão logo seja lançado no mercado.



Divirta-se!

‘Coordenação da diversidade sexual na Secretaria’. Como diria Luis Fernando Verissimo, será fazer com que trabalhem juntos os adeptos de anões besuntados com os metrossexuais enrustidos que calcem 46?

Este colunista é neto de imigrantes e nasceu no interior. E, bem no fundo d’alma, ainda acha que essa história de diversidade social é coisa de veado.



Delícias da imprensa

1. – De um portal eletrônico, que anda copiando notícias de fora, no dia 7 de março: ‘Deutsche Boerse retira su oferta para comprar la Bolsa de Londres’.

2. – Notícia publicada como se fosse a coisa mais comum do mundo: o Ministério Público do Distrito Federal só aprovará a duplicação da rodovia BR-020 se o projeto incluir passagens subterrâneas para animais. Hoje em dia, muitos animais morrem atropelados – o que é lamentável. Mas a imprensa não informou como é que os bichinhos protegidos vão saber que as passagens subterrâneas são para eles. Haverá placas na entrada das passagens, informando os animais de seus direitos?



Los micrófonos

E não é que o pessoal continua discutindo se o técnico do Corinthians, o argentino Daniel Passarella, é entendido pelos jogadores? É coisa de quem não entende de futebol. Dori Kruschner, que fez sucesso no Flamengo e revolucionou o treinamento no Brasil, era húngaro – e húngaro é mais difícil que espanhol. Bela Gutman, campeão de 1957 no São Paulo, era húngaro. O paraguaio Fleitas Solich fez história no Rio. O brasileiro Oswaldo Brandão foi campeão na Argentina. Franz Rijkaard, holandês, é o técnico do Barcelona, líder do Campeonato Espanhol, e o centroavante Eto’o, camaronês, o entende perfeitamente. E Garrincha, quem é que passava instruções para ele?

Quem não entende de futebol pensa que jogadores e técnico discutem táticas na tela do computador. Bobagem: quando a TV deixava o microfone aberto ao lado do banco de reservas, todos podiam ouvir as instruções que Vanderlei Luxemburgo passava a seus craques. Basicamente, resumiam-se a duas palavras, uma que poderia ser ouvida como ‘corra’ e outra que rimava com ‘bugalho’. Este, aliás, foi um dos motivos que levaram a TV a desligar este microfone.



A festa continua

Os prêmios de reportagem cujo objetivo é exclusivamente obter reportagens favoráveis a determinadas empresas e setores continuam em voga. Agora há mais um, patrocinado pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, Abrelpe: o tema é ‘As ameaças do lixo’. Será que alguma reportagem será premiada se mostrar que, muitas vezes, os aterros sanitários especiais, destinados a lixo tóxico ou contaminante, não diferem nem um pouco dos aterros sanitários comuns, destinados ao lixo doméstico?



Naum eh d+?

O leitor Evandro Monteiro Kianek, advogado que milita em Santo André, escreve para protestar contra a idiotice das legendas, supostamente ‘para a moçada’, utilizadas no Telecine Premium. ‘Esta moda é prejudicial, principalmente para a molecadinha de uns 12, 13 anos, que vai crescer achando que ‘assim’ se escreve ‘axim’, e tendo a certeza de que ‘naum’ é mais correto do que ‘não’. E remete a um excelente portal, o Omelete, que publica o artigo Poison on the rocks, de Luciana Toffolo, que vale a pena ler.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

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