Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CIRCO DA NOTíCIA > PRUDENTE DISTÂNCIA

A polícia e nós

Por Carlos Brickmann em 04/10/2005 na edição 349

Na excelente reportagem de Veja que revelou o esquema de fraude nos resultados do futebol, há um trecho que merece ser debatido: a revista, de posse de algumas informações, repassou-as ao Ministério Público, na forma da lei, e ganhou acesso ao resultado das investigações e gravações telefônicas oficiais.

A pergunta é: cabe ao jornalista compartilhar suas informações, antes de publicá-las, com a polícia, ou com o Ministério Público? Há casos em que a resposta é óbvia: se o jornalista souber que há um assassínio em curso, chamar a polícia é a opção correta. Mas nem sempre é assim. Na época da ditadura, um de nossos melhores jornalistas, o excelente João Vitor Strauss, escondeu em seu apartamento um amigo acusado de subversão, Paulo de Tarso Venceslau. Alguns jornalistas souberam do fato – e a ninguém ocorreu, na forma da lei, chamar a polícia ou o Ministério Público, ambos interessadíssimos em capturar Venceslau.

O jornalista é um cidadão e tem todas as obrigações (e direitos, se é que ainda os há!) de um cidadão. Mas advogado também é cidadão, e não lhe cabe levar à polícia as conversas profissionais com um cliente. O padre também é cidadão, e o segredo da confissão é por ele respeitado. O jornalista não tem como missão levar alguém à cadeia, ou ajudar a repressão nessa tarefa: nossa missão é contar os fatos, é informar a opinião pública, dentro de limites precisos. Se, em decorrência da publicação desta informação, alguém for preso ou processado, não podemos (nem devemos) evitá-lo. Mas – e aí está o debate – devemos provocá-lo?



Denuncismo

Cuidado, colegas! Um criminoso confesso resolveu acusar um importante assessor do presidente Lula de participação em homicídio, com base em fitas ilegalmente gravadas que ele teria ouvido há três anos, e que foram destruídas por sua ordem. E a imprensa divulga a acusação como coisa séria!

Não dá: nós, jornalistas, divulgamos muito a tal delação premiada, mas esquecemos de informar que os acordos entre criminosos, policiais e promotores precisam ser aprovados por um juiz. Do jeito que a coisa vai, parece que basta contar uma história para ser beneficiado. Bandido é criminoso, mas não é burro: seleciona um caso que interesse à repressão, vê quais os personagens que os promotores e/ou delegados gostariam de crucificar, e se propõe a ‘fazer novas confissões’ sobre o crime. A situação só vai mudar quando algum ‘delator premiado’ descobrir que não recebeu o prêmio, não: que sua sentença será a mesma, com delação ou sem delação. Até lá, cabe à imprensa tratar a ‘delação premiada’ com o máximo de cautela, até que surjam indícios de que seja verdadeira.



Dúvida pertinente

Um dos grandes jornalistas brasileiros (embora insista em dizer que não é jornalista) é Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha de S.Paulo. Frias já cansou de dar novo rumo a matérias controversas, especialmente sobre projetos e obras, fazendo duas perguntas: 1) quanto custa?; e 2) quem vai pagar?

Pois é. Agora, que começou a propaganda do referendo sobre a venda de armas de fogo, vamos seguir o exemplo de Frias. Quanto custa a campanha? Quem está pagando os filmes e os cachês, de um lado e de outro? Que tal reservar um pouco de espaço e de tempo a procurar a resposta a estas perguntas?



Dúvida cruel

No inacreditável caso do roubo de duas toneladas de cocaína e do equivalente a 2 milhões de reais de dentro da Polícia Federal, surgiram reportagens mostrando que o prédio da organização, no Rio, está em péssimas condições de uso e não oferece nenhuma segurança. A dúvida é a seguinte: se o prédio está tão ruim, por que guardam nele milhões de reais e toneladas de drogas, que despertam o interesse do crime organizado? Ou será que o prédio está mal desse jeito exatamente para que nele se possam guardar os objetos de desejo das quadrilhas?



Qual é o limite?

O presidente Lula falou e a coisa passou em branco: este colunista não viu, não leu nem ouviu comentários sobre a frase segundo a qual a Venezuela ‘tem excesso de democracia’. É uma opinião de Sua Excelência, que tem de ser respeitada – mas que também precisa ser entendida. Que quer dizer ‘democracia em excesso’? Qual a quantidade que Sua Excelência consideraria razoável? A quantidade razoável de democracia na Venezuela seria idêntica à do Brasil? Ou terá Sua Excelência, com todo o respeito, cometido mais uma batatada?



A fome e a sede

Este colunista não tem opinião formada sobre a transposição das águas do rio São Francisco. O senador Antonio Carlos Magalhães é contra, o que indica que o projeto pode ser bom; em compensação, o governo Lula é a favor, o que leva este colunista a achar que o projeto não pode ser bom. Mas o tema é outro: por que o bispo de Barra (BA), d. Luís Flávio Cappio, entrou em greve de fome para combatê-lo? É claro que o problema do bispo não é de engenharia, ou de natureza técnica. Qual o problema religioso, ou ético, trazido pela transposição?

Há ótimas referências sobre o bispo, o que faz crer que ele tenha razões profundas para jogar a própria vida contra a realização do projeto. Quais serão essas objeções? Pois é: algum órgão de imprensa faria a gentileza de informá-las?



Delícias

Esta saiu num grande jornal, em reportagem sobre o surgimento de publicações de distribuição gratuita. ‘No Rio de Janeiro, seguindo a tendência, o grupo O Dia lançou o jornal gratuito Meia-Hora, só que cobrando R$ 0,50′.

Não é uma gratuidade curiosa, essa de cinqüenta centavos?

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