Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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CIRCO DA NOTíCIA >

A primeira morte do artista

Por Deonisio da Silva em 26/06/2009 na edição 543

Michael Jackson morreu pela primeira vez. Doravante continuará morrendo um pouco por dia na mídia até que desapareça para sempre.


Tinha 50 anos. O nome do meio era Joseph. Cantava e dançava desde os 5 anos. Primeiro no Jackson Five e depois, sozinho.


A mídia, porém, tem outros prazos. Os assuntos morrem, não por paradas cardíacas, mas por razões de bastidores. É assim também que aparecem, embora algumas notícias, como esta da morte dele, por exemplo, não possam ser evitadas.


Rubem Fonseca me levantou a seguinte questão um dia aqui no Rio, no boteco Belmonte, no Leblon: ‘Acho que Michael Jackson é o protótipo do homem do futuro. Ele é homem? É mulher? Não é nem homem nem mulher. É negro? É branco? Nem uma coisa nem outra’.


O jornal The Washington Post resumiu assim sua biografia em manchete: ‘Entertainer became an enigma’. Enternainer, em inglês, não é palavra que melhor designe um cantor, uma personalidade solar como ele foi para a música. Entertainer, sem tradução literal em português, é aquele que entretém, algo como ‘entretedor’, que diverte a criançada, o público.


Notícias e comentários


MJ teve cinco álbuns entre os mais vendidos do mundo. O principal foi Thriller, que vendeu 21 milhões de cópias nos EUA e 27 milhões no resto do mundo. No conjunto, o cantor vendeu entre 750 milhões e 1 bilhão de discos.


Em espanhol, como sempre, notícias e comentários fúnebres ficam mais emocionantes. Vejam o que escreveu o jornal espanhol El País:




‘Michael Jackson, de 50 años, sufrió un paro cardiaco en su mansión y fue trasladado de urgencia a un hospital, donde poco después los médicos certificaron su muerte. Al pop se le paró el corazón a las 12:26, hora de Los Ángeles. Tres vehículos de los servicios de urgencias respondieron a la petición de auxilio de un miembro del servicio del rey del pop con la esperanza de reanimar al cantante. Dentro de la mansión se iniciaron los primeros auxílios. `Fue como vivir un momento histórico´, dijo una de sus vecinas. Desde el pasado mayo, Jackson vivía en Bel-Air, cuando alquiló un palacete estilo francés de siete dormitorios y 13 cuartos de baño. Esta vecina, como el resto del barrio, se enteró de la noticia cuando la policía cortó el tráfico para dejar salir a las ambulâncias’.


Outros enigmas


O artista viveu a sociedade do espetáculo. Soube intuir desde cedo que um cantor não podia apenas cantar. Dançava e cantava. Seu sacolejo e forma de usar o corpo, sobretudo os pés, tornaram-se sua marca registrada.


Além de sua presença como cantor e dançarino – cantante e bailante, no espanhol que ouvimos – Michael Jackson carregou consigo a fama de lutar por retardar o envelhecimento com balões de oxigênio e tentar remover do corpo as marcas de sua negritude. Ora, atacado de vitiligo, começou a ficar branco contra a vontade. E ficou ainda mais branco depois do tratamento. Ainda por cima, fez uma série de cirurgias plásticas que praticamente o desfiguraram.


Ao morrer, deixou para a mídia outros enigmas. Como é que um homem que ganhou tanto dinheiro estava endividado? Por que as pessoas não se aceitam como são e se adaptam com tanta violência ao olhar do outro?

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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