Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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A verdade do Millôr

Por Carlos Brickmann em 08/06/2004 na edição 280

É de Millôr Fernandes a melhor definição de postura jornalística: ‘Jornalismo é oposição’. Jornalismo, por princípio, é oposição – oposição a tudo, inclusive à oposição. Ninguém deve ficar acima de qualquer suspeita; para o jornalista, não existem santos.

E, no entanto, essa postura vem sendo freqüentemente esquecida quando a imprensa fala do Ministério Público. Se um promotor diz, muito jornalista aceita aquilo como a verdade absoluta. O cidadão que está sendo simplesmente investigado passa automaticamente, para os meios de comunicação, a ser culpado.

Um caso interessantíssimo é o de Naji Nahas, que a imprensa toda condenou e a Justiça acaba de absolver. Por que a imprensa errou? Porque acreditou cegamente na acusação. Outros casos ocorrem neste momento: a revista IstoÉ, por exemplo, acaba de revelar falhas nas investigações da Operação Anaconda. Segundo a revista, boa parte das provas se baseia exclusivamente em escuta telefônica, que deveria servir principalmente para confirmar suspeitas.

Jornalismo é oposição. Nós, jornalistas, devemos desconfiar sempre; devemos manter permanentemente a postura crítica. Mesmo que, de um lado, exista gente com cara de suspeita e, do outro, gente com cara de salvador da pátria.



Negócio da China

Por falar em postura crítica, a imprensa brasileira se derramou em elogios à parceria com a China. O primeiro fruto dessa parceria já surgiu: diante da queda internacional do preço da soja, os chineses devolveram soja brasileira já comprada, alegando motivos sanitários mas, na verdade, querendo reduzir o preço. A soja que os chineses devolveram estava dentro dos padrões de qualidade exigidos pela União Européia, e que foram seguidos pela China até que o preço caiu (neste momento, as exigências chinesas de qualidade se multiplicaram).

Mais uma parceria estratégica desse tipo e o Brasil vai ter saudades da Alca que não houve.



Salarinho

Em todo o debate sobre o novo salário mínimo, faltou na imprensa a visão de que a coerência foi arquivada, tanto pelo governo quanto pela oposição. O PFL e o PSDB, que defenderam um mínimo mais elevado, passaram oito anos no poder e tiveram oportunidade de aumentá-lo. E o PT, que agora limita o aumento do mínimo, passou toda a sua existência informando à população que o Governo não o elevava porque não queria.

Pode ter certeza: quando o PFL e o PSDB voltarem ao poder, defenderão aumentos menores para o mínimo. E o PT voltará a defender um mínimo suficiente para dar vida digna ao trabalhador e à sua família.



Barato, barato

O governo precisa tomar mais cuidado com sua propaganda. No combate ao fumo, uma voz feminina, supostamente de uma balconista de padaria, informa que dez pãezinhos custam 2 reais. Há alguns supermercados que cobram esse preço, efetivamente; deve haver algumas padarias mais barateiras que as outras. Mas a maior parte cobra 30 centavos o pãozinho.

Mas quem vai esperar que o Governo se preocupe com o preço do pãozinho, se a campanha eleitoral ainda nem começou?



Dureza total

A situação dos meios de comunicação deve estar difícil, mesmo. Um grande complexo de comunicação mudou seu endereço eletrônico para um provedor gratuito, o Hotmail. Tudo bem, vai ver que é preciso mesmo cortar despesas. Mas ficou difícil comunicar-se com um veículo que tem pouco espaço para receber mensagens.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; endereço eletrônico (carlos@brickmann.com.br)

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