Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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A vida e o dinheiro

Por Carlos Brickmann em 05/10/2004 na edição 297

Vários suspeitos do assassínio de moradores de rua, em São Paulo, foram presos. Quem são? Mistério: seus nomes não foram divulgados.

Em princípio, está correto: se eles são apenas suspeitos, se não há provas, ainda, que permitam indiciá-los, não há motivo para divulgar sua identidade. De acordo com a lei, são inocentes até prova em contrário, e não há motivo para prejudicá-los, colocando-os em notoriedade.

O problema é que, quando se trata de corrupção, o nome dos suspeitos é imediatamente divulgado, para que sejam condenados pela opinião pública antes de qualquer julgamento. E se forem inocentes? Citemos alguns exemplos: Ibrahim Abi-Ackel, Naji Nahas, Alceni Guerra. Todos foram absolvidos pela Justiça – mas, caro leitor, pergunte a seus amigos se os consideram ou não culpados. Claro: eles foram vítimas da artilharia da imprensa.

E por que suspeitos de corrupção são expostos, enquanto suspeitos de assassínio (e, diga-se, um tipo especialmente cruel de assassínio) são preservados? Há a tentação de dizer que há um certo espírito de corpo: como os suspeitos dos homicídios são policiais militares ou guardas metropolitanos, receberiam certa proteção especial. Mas talvez não seja só isso: talvez estejamos, no Brasil, dando mais valor ao dinheiro do que à vida. Talvez estejamos acreditando que quem rouba é mais perigoso do que quem mata; que a pena para o corrupto, que tira bens, deve ser mais pesada que para o assassino, que tira vidas. É um bom tema para pensar.



Pobre Flor do Lácio

Pérolas colhidas num só dia, num só jornal:

1. ‘ataque à bala’;

2. ‘ele me ensultou?’;

3. a Sala Promon, em São Paulo, famosa pelos espetáculos que exibe, virou ‘Promom’.

O jornalismo evolui, mas nem sempre no bom sentido. Quando havia nas redações revisores como o grande Ruy Onaga, esse tipo de erro não era publicado de jeito nenhum. E, considerando-se que, da parte da população que tem o costume da leitura, muitos lêem exclusivamente jornais ou revistas, a contribuição do jornalismo para a deterioração da língua é notável.



O limite

Os veículos de comunicação não vivem sem propaganda. A propaganda, portanto, faz parte da democracia. Mas qual o limite da publicidade? Os veículos devem, para cobrir suas despesas, aceitar anúncios de narcotraficantes? Pois a CNI, Confederação Nacional da Indústria, entrou com uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade) contra a lei 9.294, que proíbe a propaganda de cigarros na TV, rádio e veículos impressos. A proposta é ruim por dois motivos: primeiro, por difundir o consumo de um produto que comprovadamente faz mal; segundo, por inibir a divulgação de seus efeitos nocivos. Quantos veículos se arriscarão a ir contra um anunciante?



Terceirizando

A revista Exame (edição nº 827, que tem como reportagem de capa a mudança de mãos das fortunas brasileiras) traz uma matéria interessantíssima que os outros veículos bem poderiam utilizar como pauta: não foi apenas no caso contra o Banco Opportunity que o procurador Luiz Francisco de Souza utilizou documentos preparados por desafetos daqueles a quem acusa. A revista analisou dezenas de processos e informa que aproximadamente um terço contém argumentação terceirizada.

Sugestões de pauta: será que é só este procurador que recorre à terceirização? Afinal de contas, isso é legal ou ilegal? Terão ocorrido casos em que alguém sofreu condenação com base em argumentação terceirizada? Ou será que, por cultivar boas relações com repórteres, nenhuma pauta sobre o assunto será elaborada, até que tudo caia no esquecimento?



Nome novo

Alguém poderia informar a este colunista por que nossa imprensa gosta de chamar o velho e conhecido álcool de ‘etanol’? O nome não está errado – mas ‘álcool’ identifica direitinho o produto a que as notícias se referem. Sim, este colunista sabe que existem outros tipos de álcool, sendo o mais conhecido o metílico, ou álcool de madeira. Tudo bem: é só chamar este outro de ‘metanol’, sem mudar o nome que todos conhecem.

Mas talvez esta seja uma mania brasileira. Não foi aqui que a popular expressão ‘contramão’ virou um vagamente escatológico ‘contrafluxo’?

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; e-mail (carlos@brickmann.com.br)

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