Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > MÍDIA NINJA

A falsa boa ideia

Por Carlos Brickmann em 13/08/2013 na edição 759

Ernest Hemingway dizia que, para escrever um livro, levava determinado tempo; e, para cortar o texto até chegar à versão definitiva, um tempo muito maior. Uma reportagem não é um apanhado de fatos que se passam por realidade; uma reportagem é algo trabalhado, pensado, articulado, hierarquizado, com mais espaço para o que é mais importante, tudo dentro do panorama geral dos acontecimentos. Como ensinava o Jornal do Brasil dos bons tempos, o fato mais importante vinha no lead, o segundo no sublead, e a história se seguia no restante da matéria. Fazer uma reportagem não é amontoar fatos, mas dar-lhes sentido.

E os ninjas? Os ninjas são um fenômeno relativamente novo (os repórteres-abelha, lançados por Fernando Meirelles no TV-Mix, da TV Gazeta, faziam algo semelhante, embora mais bem trabalhado, mesmo não dispondo dos equipamentos hoje existentes). Foram importantíssimos para mostrar as imagens das manifestações de rua, num momento em que as principais tevês, por motivos diversos, não conseguiam cobri-las; levaram grandes emissoras a trabalhar mais ou menos da mesma maneira, com repórteres utilizando câmeras leves e links nas mochilas; mas, excetuando-se os maníacos da telinha, que ficavam horas assistindo às passeatas, era difícil encontrar muita gente com disposição para assistir à movimentação constante, aos ruídos, à gritaria – e, especialmente, à quantidade de informações partidárias com rótulo de apartidárias.

Nada contra os ninjas: que busquem seu lugar ao sol, abrindo possivelmente uma nova fórmula, que ainda será preciso desenvolver, de telejornalismo. Mas tudo a favor da reportagem que, feita por profissionais talentosos e bem equipados, possam mostrar não apenas as imagens da correria, mas o que está de fato acontecendo. A cobertura ninja não mostrou, por exemplo, nem poderia mostrar, quais correntes políticas apoiavam cada uma das manifestações, e com que interesses. Mostrou, o que foi ótimo, várias tentativas de policiais de incriminar manifestantes; mostrou, o que foi ainda melhor, pelo menos um manifestante que, depois de jogar coquetéis Molotov e provocar incêndios, correu em direção aos policiais, foi recebido por eles, que lhe deram um uniforme para cobrir as roupas civis, e misturou-se ao grupo que reprimia a manifestação. Ficou claro, ali, algo que parecia evidente, mas que ainda não havia sido comprovado: a presença de agentes provocadores, sabe-se lá com que objetivos. Mas, muitas vezes, a cobertura ninja lembrou um famoso juiz de futebol, Alcebíades de Magalhães Dias, que virou uma lenda no nosso futebol.

Num jogo há muitos e muitos anos entre o Botafogo do Rio e seu time de coração, o Atlético Mineiro, o botafoguense Santo Cristo e o atleticano Afonso discutiam quem tinha direito a repor a bola que saíra pela lateral. O juiz decidiu: “Bola nossa! Afonso, é bola nossa”. Ficou conhecido como Cidinho Bola Nossa.

No caso dos ninjas, não há dúvida sobre o partido que apoiam, embora insistam (tanto eles quanto seus financiadores, o grupo Fora do Eixo) em garantir que não têm qualquer ligação com partido algum.

Mas não desviemos o assunto: independentemente de quem apoiem ou não, o problema é que a exibição desordenada de imagens e fatos pode até representar uma franja do jornalismo, mas definitivamente não é nem revolução nem tendência a ser seguida. Da mesma forma que dicionário, embora contenha milhares de palavras, mais palavras do que qualquer outro livro, não é literatura.

 

A força da marca

A família Graham, que nos tempos da matriarca Katherine desafiava o New York Times e o Wall Street Journal com seus Washington Post e Newsweek, chegou à conclusão de que não tem condições de manter-se na luta dos jornais impressos. “Depois de anos de desafios como indústria familiar de jornais, imaginamos que um novo proprietário seria melhor para o Post”, disse Donald Graham, supremo dirigente da empresa, da quarta geração de donos do jornal. “A tecnologia e o talento para negócios do sr. Bezos, sua visão de longo prazo e sua honradez pessoal o tornam um proprietário ideal para o Washington Post”.

Mas, se a coisa está tão complicada, por que Jeff Bezos, criador e comandante da Amazon, a rede virtual de livrarias que revolucionou o mercado, decidiu entrar no negócio? Para perder dinheiro, mesmo em nome da preservação de um patrimônio do jornalismo mundial, do jornal que revelou o caso Watergate e foi o principal responsável por Richard Nixon ter deixado a Presidência americana, é que não é. E por que justo ele, que mostrou que é possível vender livros que não usam papel, investe num jornal impresso, cuja circulação caiu 7% neste primeiro semestre, cuja receita operacional caiu 44% nos últimos sete anos?

Ao que tudo indica, Bezos pensa em manter e fortalecer ao máximo a edição impressa do Washington Post – menos pelo potencial de gerar receita do jornal, mais pela utilização de uma das marcas mais valiosas do mercado jornalístico internacional. E como irá ele utilizar essa marca? Excelente pergunta – e, se este colunista soubesse respondê-la, certamente estaria em situação financeira bem melhor que a atual (e não esqueceria nenhum de seus amigos, claro). Mas, com certeza, ao remar na direção oposta à que quase todos dizem ser uma tendência de mercado, Bezos acredita na sobrevivência do jornal de papel por tempo suficiente para, pelo menos, recuperar o investimento e ganhar alguma coisa.

A propósito, esta é a segunda vez em que o Washington Post enfrenta uma crise que o obriga a trocar de donos. A última ocorreu em 1933, quando o jornal, falido após a grande crise de 1929, foi a leilão. O financista Eugene Meyer o comprou por pouco mais de US$ 800,00. Não dá nem dois mil reais.

 

Batendo duro

O jornalista e professor Cláudio Tognolli, observador atento do panorama jornalístico, acha que empresários como Jeff Bezos vão cada vez mais comprar jornais. “Vão ser a garantia de imparcialidade contra a compra de blogs por governos”.

 

O dono do Dom

Este colunista cometeu um equívoco ao noticiar a entrada do jornalista Reinaldo Lobo no portal Dom Total, de Minas: o portal, aliás muito bom, é dirigido pelo jornalista Marco Lacerda, mas não pertence a ele, e sim à Escola Superior Dom Helder Câmara, especializada em Direito e incluída pelo Ministério da Educação entre as cinco melhores do Brasil.

 

Ainda dá tempo

Atenção: até esta quarta, 14/8, é possível inscrever-se na disputa pelo Prêmio Esso de Jornalismo, o mais importante do país. Reportagens, matérias e fotos veiculados entre 16 de agosto de 2012 e 13 de agosto deste ano devem ser enviados ao site www.premioesso.com.br As categorias de Criação Gráfica (jornal, revista, Primeira Página) e os trabalhos de telejornalismo têm de ser enviadas pelo Correio para Prêmio Esso de Jornalismo, a/c RP Consultoria, av. Nossa Senhora de Copacabana, 928, cj. 1001, Copacabana, CEP 22060-002, Rio de Janeiro, RJ.

Os finalistas serão anunciados em 16 de outubro; os vencedores, em 13 de novembro. O regulamento da área de Jornalismo pode ser encontrado aqui; o de telejornalismo, aqui. Informações na RP Consultoria (rp.consultoria@rpconsult.com.br), telefone (21) 3208-3646. O responsável pelo evento, como sempre, e sempre com grande sucesso, é o excelente jornalista Ruy Portilho.

 

A voz das matas

João Capiberibe, hoje senador pelo PSB, lança o livro Florestas do Meu Exílio, autobiografia levemente romanceada (definição do próprio autor). Capiberibe nasceu no Pará, criou-se no Amapá, estudou em Minas e, em 1968, juntou-se à Aliança Nacional Libertadora, grupo comandado por Carlos Marighela. Foi preso em 1970 com a esposa, Janete. Conseguiram fugir para o Chile; depois, foram para o Canadá e Moçambique. Voltaram ao Brasil em 1979, com a anistia. Trabalhou em Pernambuco com o governador Miguel Arraes, voltou para o Amapá e lá se elegeu governador por duas vezes.

O livro será lançado no dia 15/8, às 19h, na Choperia do Sesc Pompeia, r. Clélia, 93, SP, com show gratuito de Marlui Miranda, Chico César e Nilson Chaves.

 

Como…

De um importante portal de noticiário frufru:

Título: “Fotos íntimas de Zilu são negociadas”

Texto: “Homem estaria tentando vender a alguns jornais imagens da ex de Zezé di Camargo sem roupa”.

A dúvida: “estão sendo” ou “alguém estaria tentando”?

 

…é…

De um grande portal noticioso:

** “Os patins a jato, como os usados pelo Papa-Léguas para fugir do Coyote, já existem.”

Só que quem usa patins a jato não é o Papa-Léguas: é o Coyote.

 

…mesmo?

De um grande portal noticioso:

Título: “No frio, torcida do Palmeiras faz festa por goleada e liderança”

Na foto: dois torcedores nas arquibancadas vazias, um rapaz e uma moça, ambos com cara de tédio, ambos bocejando.

 

Frases

Do jornalista Palmério Dória: “PSDB abandona o 45 e adota o 30% na próxima eleição”.

Do senador Renan Calheiros (PMDB, Alagoas): “Precisamos mudar, já! Com isso podemos avançar mais na qualidade da representação política.”

Mas não se iluda: ele é modesto, jamais se refere a si mesmo.

Do jornalista Cláudio Tognolli, sobre o caso do garoto acusado de matar a família e de ir depois à escola, só voltando para suicidar-se: “Bom aluno é isso: mata a família mas não mata aula”.

 

As não notícias

Na ânsia de fugir à responsabilidade de dar uma notícia, falta pouco para alguém informar que o suposto dirigente alemão Adolf Hitler era suspeito de não gostar de judeus, ciganos e eslavos em geral. Estamos chegando lá!

1. “O jogador Gianluca Girolano disse que matou a vizinha a facadas ‘sob influência do uso da cocaína’”

Como saiu a notícia: “Girolano (…) suspeito de ter matado a vizinha”.

2. Há investigações na França e na Suíça sobre a formação de cartel para fornecer equipamentos para Metrô e trens urbanos em São Paulo. A Siemens fez uma denúncia formal de existência de cartel, no qual ela mesma se incluía. Como saiu no jornal:

** “Documentos relatam reuniões de empresas de suposto cartel de SP”.

** “MP vai ouvir testemunhas sobre suposto cartel”.

** “Entenda o caso do suposto cartel em SP”.

 

E eu com isso?

A moça passeia na praia com o namorado, outra curte a filha, o rapaz arranja namorada nova, a atriz vai à praia de biquíni – queriam que fosse como, de vestido de baile? Mas não adianta reclamar: este é o tipo de noticiário adorado por uma boa parcela de internautas e leitores, no Brasil e no Exterior (e, convenhamos, com razão: é um oásis de tranquilidade no meio de informações sobre guerras, mortes, assaltos, congestionamentos). Então, vamos lá:

** “De shortinho, Luana Piovani caminha na orla do Leblon”

** “Lindsay Lohan faz programa bem comportado com pai e irmãos”

** “Marcos Mion sai do armário e revela lado fisiculturista”

** “Sylvester Stallone exibe corpo musculoso”

** “Juliano Cazarré diz que troca fralda e dá banho nos filhos”

** “Kevin Jonas e a mulher exibem ultrassom de seu bebê”

** “Débora Nascimento e José Loreto gravam na praia”

** “Miley Cyrus vai a lançamento de filme do namorado nos EUA”

** “Naldo curte EUA ao lado da noiva”

** “Grávida, Halle Berry curte parque temático com a filha Nahla”


O grande título

A concorrência nesta semana é imensa. E todos os títulos são daqueles que já nasceram empastelados:

** “Para polícia, que crime foi premeditado”

Ou:

** “Agências intervêm em alguel de postes”

Não é apenas o erro de digitação (que ficou engraçado). Imaginemos que não houvesse a falta de uma letra:

** “Agências intervêm em aluguel de postes”

Mas deve fazer sentido, não há dúvida. Basta saber do que se trata.

Ou:

** “Craques voltam ao time titular do Palmeiras em jogo”

Que jogo? Isso é apenas um detalhe. Este colunista fez uma pesquisa em outros jornais e descobriu que o Palmeiras enfrentaria o Paraná.

O melhor dos títulos é o mais empastelado:

** “O agronegócio, por exemplo, está começando a se juntar para criar mais valor agregado nas exportações os chineses”

Será que é a palavra “para” que está faltando? É, pode ser.

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