Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIRCO DA NOTíCIA > (IN)SEGURANÇA EM SÃO PAULO

Algum Comando está em ação?

Por Mauro Malin em 14/07/2012 na edição 702

A Grande São Paulo volta a sofrer uma onda de violência que só encontra paralelo nos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) em 2006. Agora já não se trata de uma explosão de homicídios concentrada primeiro em três dias (12, 13 e 14 de maio, ataques do PCC) e depois em uma semana (15 a 22 de maio, revides policiais). O ritmo dos assassinatos é mais lento (o ciclo começou há um mês). Os policiais mortos estavam de folga ou fazendo “bico”, e não em serviço, como seis anos atrás. Entre maio e junho houve 100 casos de "resistência seguida de morte".

Os jornais não conseguem estabelecer um nexo preciso entre os episódios. As autoridades policiais (é melhor deixar de lado, até segunda ordem, a expressão “segurança pública”) não ajudam. Uns dizem que se trata de ocorrências isoladas, outros lançam a hipótese da “guerra entre traficantes”. Essa só faz sentido se entre os “traficantes” forem incluídos, nas entrelinhas, policiais que recebem propina para não atrapalhar as vendas. Como no roteiro do filme Tropa de Elite 2.

Uma explicação para o fenômeno seria o surgimento informal de um PCP, um “Primeiro Comando da Polícia”, ou, talvez, mais precisamente, PCPM (Polícia Militar). Em 27/6, o repórter Bruno Paes Manso mencionou num vídeo do Estadão Online a existência de relações espúrias entre PMs e traficantes (veja aqui) como possível foco de confrontos mortais.

Não se leia a sigla ao pé da letra. É um recurso simbólico. PMs bandidos têm um mínimo de organização e hierarquia entre eles, mas não constituem uma rede formada para delinquir. Aproveitam oportunidades surgidas no tempo e no espaço. Assim como policiais civis aproveitam modalidades criminosas para vender segurança privada: a onda de arrastões em restaurantes criou despesas adicionais para donos desses estabelecimentos.

Armas de intimidação

Policiais civis criminosos dispõem da arma do inquérito para extrair dinheiro de suas vítimas: decidem quem será ou não indiciado, moldam a acusação que será levada a juízo. Há cinco anos, nas delegacias de bairros ricos de São Paulo, a tarifa para liberar um rapaz de “boa família” pilhado com maconha ou cocaína girava em torno de 20 mil dólares. Em 2007, o traficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadia disse que pagou US$ 300 mil (o pedido inicial teria sido de US$ 1 milhão) para deixarem vivo (e solto) um homem de seu grupo.

PMs criminosos só dispõem da natureza bélica de sua profissão. Por isso tão frequentemente batem, ferem, matam para obter o efeito desejado: intimidação e controle territorial das atividades criminosas.

E não apenas nas periferias. Taxistas cariocas conheceram muito bem um sargento que chefiava o posto de policiamento da Cinelândia, em frente à Biblioteca Nacional. Durante mais de dez anos ele forneceu armas para os moleques que assaltavam pedestres. Cobrava, é claro, comissão sobre o fruto dos roubos. Ou, quem sabe, era o contrário: pagava um fee por job, perdão, por assalto.

Os taxistas conviviam confortavelmente com o fenômeno, que lhes garantia uma clientela avisada do perigo de andar a pé no Centro depois que o sol se punha.

O comando-geral da PM, na Rua Evaristo da Veiga, fica a pouco mais de 200 metros dali. O sargento um dia foi preso por outros PMs. Três dias depois, estava de volta, como se nada tivesse acontecido. Business as usual.

O que ocorre em São Paulo está longe desse enredo com homicídios esporádicos (nunca se sabe como um assaltado vai reagir). É guerra.

Ano eleitoral

Por coincidência, o ano é eleitoral, como foi 2006. O coronel Adriano Telhada, que comandou a Rota (tropa de choque da PM paulista), vai concorrer a vereador pelo PSDB, partido do governador Geraldo Alckmin. Alckmin deu a respeito do fenômeno criminal em curso declarações guerreiras. Em 27/6: “Os criminosos serão presos. E, se enfrentarem a polícia, vão levar a pior.”

Objetivamente, erguer a bandeira da violência policial como pretenso método de combate ao crime favorece o candidato do PSDB, José Serra. Ajuda o PSDB a compensar a perda do apoio de Paulo Maluf, depois que negociações com Serra e o prefeito Gilberto Kassab desandaram. Resta ver como o candidato petista, Fernando Haddad, lidará com o ideário malufista em matéria policial.

O discurso da repressão

Maluf fez carreira durante a ditadura com o queixo mussolinianamente empinado e a retórica da “firmeza contra bandido” que até hoje ecoa em tantos corações paulistanos. A bem da verdade, diga-se que o criador da Rota foi o governador Abreu Sodré. A Rota descende diretamente da participação da PM (então Força Pública) paulista no combate à guerrilha do Vale do Ribeira (1969-1970). Maluf, na época, era prefeito nomeado da capital.

Objetivamente, hein, leitor. Não se afirma aqui que o governo do estado criou a onda de violência para tirar proveito eleitoral. Pode-se até arriscar dizer o contrário: não criou. O que não o impedirá de se beneficiar da resposta a ela.

O coronel Adriano Telhada se insere na estirpe dos arautos da porrada e das execuções sumárias, de que foram representantes notórios o delegado Sérgio Fleury (prócer do Esquadrão da Morte paulista, torturador e assassino de presos políticos), o coronel PM (e deputado) Ubiratan Guimarães (chefe da tropa no massacre do Carandiru, em 1992), o coronel PM (e deputado) Conte Lopes e o radialista (e deputado) Afanásio Jazadji. Telhada ostenta como medalhas ter matado 36 homens ao longo de sua carreira policial.

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