Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Anotações de uma terça-feira quente

Por Luiz Antonio Magalhães em 16/07/2008 na edição 494

Foi uma terça-feira quente. Blogs políticos e sites jornalísticos iniciaram os trabalhos do dia 15 de julho divulgando na internet trechos do relatório da Polícia Federal sobre o inquérito que investiga o banqueiro Daniel Dantas, preso e solto duas vezes na semana passada. A íntegra do relatório havia sido divulgada na noite de segunda-feira (14) no portal Consultor Jurídico, que não ofereceu aos seus leitores nenhuma explicação sobre a forma pela qual obteve o material. Em praticamente todas as páginas do documento, consta o timbre ‘Sigiloso’.


Ainda pela manhã, o distinto público era informado sobre uma reunião que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizaria à tarde com 6 ministros, mais o vice-presidente da República, José Alencar, para discutir o Caso Dantas. E já se anunciava também outra reunião de Lula, desta vez com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o ministro da Justiça, Tarso Genro, que nos dias anteriores haviam trocado farpas, tendo como pano de fundo Daniel Dantas e a Operação Satiagraha, responsável pela prisão do banqueiro, do investidor Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.


O dia realmente prometia e quase ao mesmo tempo em que Lula, Mendes, Genro conversavam no Palácio do Planalto, em reunião que contou também com a presença do ministro da Defesa e ex-presidente do STF Nelson Jobim, os sites e as emissoras de rádio e TV avisavam que o delegado Protógenes Queiroz havia pedido afastamento do caso para completar um curso superior da Polícia Federal que seria obrigatório a cada dez anos de carreira.


Logo em seguida veio a notícia de que os outros dois delegados responsáveis pela Operação Satiagraha – Karina Murakami Souza e Carlos Eduardo Pelegrini Magro – também estariam afastados do caso. Segundo a versão da assessoria de imprensa da Polícia Federal, o afastamento teria ocorrido a pedido dos próprios delegados, mas reportagem do Jornal Nacional da TV Globo revelou que os três informaram ao juiz Fausto de Sanctis e ao procurador-geral da República Rodrigo de Grandis que foram obrigados pela direção da Polícia Federal a deixar as investigações.


E no meio de tantos afastamentos, mais uma notícia espetacular, antecipada por Alberto Dines quando a edição 494 deste Observatório foi publicada, pouco depois das 10h da manhã: o Diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, estava saindo de férias justamente nesta terça-feira.


A noite, porém, ainda prometia mais notícias quentes sobre o caso Dantas. Após a reunião com Lula, o ministro Gilmar Mendes não foi para casa relaxar, voltou ao trabalho e negou liberdade aos dois únicos investigados na Operação Satiagraha que ainda permaneciam presos – o consultor Hugo Chicaroni, e Humberto Braz, assessor do banqueiro Daniel Dantas. ‘Segundo o ministro, a prisão de ambos tem como base ‘investigações e procedimentos de ação controlada que sugerem, em tese, a participação direta e imediata em atos voltados a obstruírem o desenvolvimento da investigação criminal [a tentativa de suborno]’. Na decisão, Mendes ressalta que a prisão preventiva de Chicaroni e Braz ‘fundamenta-se em situação fática distinta daquela em favor do paciente [Dantas]’.’, informava reportagem da Folha Online publicada às 22h28.


Reações diversas na blogosfera


Enquanto os fatos se sucediam em um ritmo alucinante, lembrando os melhores thrillers políticos ou de espionagem – como se tudo o que foi relatado até aqui não bastasse, a PF ainda divulgou que descobriu documentos em uma parede falsa no apartamento de Daniel Dantas –, na blogosfera o clima era ainda mais quente. Um capítulo do relatório sobre o inquérito tratava especificamente da relação da ‘quadrilha’ de Dantas com a mídia, citando nomes de vários jornalistas de veículos de grande circulação como Veja, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, e alguns blogueiros, em especial Luis Nassif e Janaína Leite.


Embora nos dias anteriores vários blogs e sites políticos, como o Terra Magazine, editado por Bob Fernandes, e Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, já tivessem apresentado uma parte do material do inquérito, a divulgação da íntegra do relatório no Consultor Jurídico teve o efeito de ‘democratizar’ o acesso ao vazamento. Luis Nassif tratou de publicar as partes que mostram o envolvimento de Diogo Mainardi e Janaína Leite com Daniel Dantas, ao passo que a ex-repórter da Folha usou o seu Arrastão para explicar a sua conduta ao entrevistar o banqueiro no divertido e incisivo post ‘Virei melô do Claudinho e Buchecha’.


Mainardi e Reinaldo Azevedo, colunistas da Veja que vêm acompanhando o caso de perto foram as grandes ausências do dia – o primeiro deve publicar seu podcast semanal nesta quarta-feira e o segundo, em férias, não deu sinal de vida.


Paulo Henrique Amorim preferiu bater forte não em Daniel Dantas, como tem feito nos últimos dias, mas no presidente Lula, ‘o presidente que tem medo’. Luiz Carlos Azenha, outro blogueiro oriundo da TV Globo, preferiu ampliar as críticas e escreveu sobre um curioso diálogo, presente no inquérito, travado entre o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado federal pelo PT, e um funcionário da prefeitura de São Paulo.


Heráclito questiona vazamento


O barulho dos blogs foi tanto que ecoou no Congresso Nacional. O Senador Heráclito Fortes (DEM-PI) apresentou requerimento pedindo o envio de um ofício ao ministro da Justiça, Tarso Genro, exigindo informações para esclarecer se ele próprio é alvo de investigação da Operação Satiagraha. Irritado com o que leu na internet, o senador escreveu no requerimento ‘que não se admite qualquer decreto impondo sigilo no tramitar dos referidos procedimentos, uma vez que peças do inquérito já foram inegavelmente fornecidas – irresponsavelmente – pelas autoridades policiais à imprensa, que as divulgou, sendo certo que até mesmo o relatório policial final já se encontra disponível em vários endereços da Internet’. Segundo informação da Agência Brasil, o requerimento de Heráclito foi encaminhado em caráter de urgência pelo presidente da Casa, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN),ao ministro Tarso Genro.


Se o clima em Brasília esteve tão quente nesta terça-feira, o day after também promete. Segundo as agências de notícias, o depoimento de Daniel Dantas, marcado para esta quarta-feira (16), está mantido. E o Terra Magazine avisa: com a presença do delegado Protógenes Queiroz, que só se afastaria definitivamente das investigações na sexta-feira, após concluir o seu relatório do inquérito. É ver para crer.

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Blog do autor: Entrelinhas – Mídia e Política

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