Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
Menu

CIRCO DA NOTíCIA > MATA E ESFOLA

Artifícios desonestos

Por Carlos Brickmann em 12/07/2005 na edição 337

Esta coluna nada tem a dizer sobre a culpa ou inocência dos personagens envolvidos na Comissão de Ética e na CPI. Mas, sejam culpados ou inocentes, merecem tratamento justo da imprensa. Já estão sob fogo; por que usar artifícios, freqüentemente desonestos, para tentar piorar a imagem dos acusados?

Outro dia, uma reportagem trazia declarações de um dirigente petista do interior de Goiás contra o então tesoureiro do partido, Delúbio Soares. A matéria se referia ao ‘reluzente Toyota’ de Delúbio, como se fosse um Rolls-Royce, como se fosse um exemplo evidente de ostentação. Na verdade, é um Toyota Corolla, de fabricação nacional, um bom carro, mas ao alcance da classe média (e dá para comprar em 48 prestações!) Nada a favor de Delúbio – mas tudo contra a tentativa de crucificá-lo apenas porque está na moda fazê-lo.

A imprensa, às vezes, exagera. O empresário Marcos Valério depôs durante 14 horas – o que já é demais, o que já leva um ser humano ao esgotamento, ainda mais num ambiente hostil. Terminado o depoimento, assistimos às cenas de jornalismo explícito: os repórteres tentando cercá-lo, para que continuasse falando.

Este colunista admite, para argumentar, que todos tenham culpa no cartório. Que sejam, então, julgados, condenados, expostos; que cumpram as penas previstas na lei. O que não se pode fazer é criar penas novas, não previstas na legislação. Se o acusado já corre o risco de ir para a cadeia, se já terá de encerrar suas atividades, por que adicionar às suas dificuldades os maus-tratos da imprensa?



Questão de respeito

O senador Pedro Simon, do PMDB, uma das melhores figuras do Congresso, repreendeu duramente os parlamentares que se prevalecem de suas prerrogativas e humilham os interrogados. Deveria também reclamar dos que, mesmo sem maltratar quem está sendo interrogado, aproveitam o tempo para longos discursos, com o único objetivo de aparecer na tevê. Eles prejudicam a apuração: no lugar de perguntar, perdem-se em lugares comuns. Seria interessante ver na imprensa uma análise do desempenho dos parlamentares ao perguntar – do tipo daquilo que se faz no futebol, quanto tempo cada time ficou com a bola, quantos passes certos foram dados, quantos desarmes. Uma boa análise seria utilíssima para mostrar aos eleitores quem está trabalhando e quem está só enrolando.



Pobre do povo…

Pois é: com a colaboração da imprensa, que se entusiasma com essas coisas, o deputado federal Roberto Jefferson virou o campeão da moralidade pública. Ele acusa, chama todo mundo de ladrão, e a imprensa o segue com entusiasmo. Claro que a imprensa deve ouvir as denúncias, investigá-las e ampliá-las; o que não pode é esquecer que Jefferson, como dizia o velho slogan de Leônidas da Silva na Jovem Pan, sabe das coisas porque esteve lá. Isso não pode ficar de lado.



…que precisa de heróis

E o Programa do Jô, gente? Roberto Jefferson cantou mal, desafinou, errou a letra. Foi aplaudido e o público pediu bis. Nós, da imprensa, precisamos tomar cuidado ao moldar os heróis: e se, de repente, ele vira tão herói que chega ao governo do Rio ou até mesmo à presidência da República? É triste imaginar que o país derrubou Fernando Collor para endeusar o chefe de sua tropa de choque.



Boas notícias!

A Rádio Bandeirantes deu um exemplo de bom jornalismo no dia 4: enviou um repórter, incógnito, para passar a noite num albergue municipal de São Paulo. Ao contrário do que se possa imaginar, o albergue era confortável e limpo, a alimentação era boa, o tratamento era respeitoso e digno. A pauta não morreu: a Bandeirantes colocou no ar os elogios ao albergue (no caso, o do Pari), ouviu pessoas lá atendidas, percorreu outros albergues e constatou que também são bons; e deu a palavra ao secretário municipal que cuida da área, Floriano Pesaro. É tão raro ouvir elogios ao funcionamento de programas sociais (normalmente, só sai matéria para criticar) que a reportagem muito bem feita chamou a atenção.



Delícia

Denise Frossard, no dia 5, falou por um bom tempo na Jovem Pan, emissora que a prestigia muito – merecidamente, aliás, já que a deputada federal (e ex-juíza) tem tido excelente desempenho. Ao terminar, agradeceu ‘aos amigos da CBN’. Acontece. Ficou famoso o discurso de Vicente Matheus, no aniversário do Corinthians, agradecendo à Antarctica ‘as Brahmas que enviou para a festa’. Hoje, com o quase monopólio da Ambev, a piada perdeu a graça.



Um bom exemplo…

Está no Diário do Grande ABC: a reportagem flagrou uma camionete oficial do Semasa, Saneamento Ambiental de Santo André, com placa encoberta por um CD, para evitar multas eletrônicas. É infração gravíssima: dá multa, apreensão do veículo e perda de sete pontos na carta. Já seria ruim se o motorista fosse o único culpado. Mas não era: o Semasa garantiu que, embora tivesse um carro com aquela placa, não era o que foi encontrado. E pisou definitivamente na bola ao dizer que, ‘se necessário’, instauraria sindicância interna.



…tudo começa aí

Ótimo, não é mesmo? Mas não é tudo: a Secretária de Obras e Serviços Públicos de Santo André disse que houve um crime de trânsito que precisa ser punido. Mas as coisas não são bem assim: o Semasa tem administração independente e a punição não passa pela Prefeitura etc. etc.

Mas vale ressaltar o trabalho do jornal: a imprensa fez a sua parte.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem