Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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CIRCO DA NOTíCIA >

Ato de força, antidemocrático

Por Mauro Malin em 14/02/2012 na edição 681

Não se justifica a expulsão de uma equipe da GloboNews de manifestação na Praia de Copacabana, domingo (12/2), em favor de bombeiros e policiais militares grevistas (ver vídeo). É ato de intolerância, antidemocrático.

Os manifestantes queriam repudiar a divulgação no dia 8/2, pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, de escutas telefônicas em que o cabo bombeiro Benevenuto Daciolo discute o encaminhamento de protestos no país.

A divulgação teve consequências político-administrativas imediatas. Resultou na prisão de Daciolo, que, seguida de outras prisões de lideranças dos bombeiros e PMs, enfraqueceu o movimento. A Rede Globo não poderia ter nenhuma dúvida a respeito desta provável consequência: favorecer, na disputa, o governo do Estado do Rio. (Mas Daciolo e outros líderes poderiam ter alguma dúvida a respeito da repercussão das ações que discutiam?)

A gravação, autorizada pela Justiça, era notícia, e como tal fazia sentido levá-la a público, embora haja quem conteste esse tipo de divulgação. Em abril de 2008, o procurador regional da República em Brasília Nicolau Dino disse em audiência na Câmara dos Deputados que “deve haver um mecanismo para coibir maus jornalistas e veículos que se valem das escutas sigilosas para angariar pontos no ibope no horário nobre”.

A informação está no site Consultor Jurídico, onde se lê ainda que Dino não propunha a punição do veículo de comunicação, e sim a do responsável pelo vazamento.

O óbvio ocultado

A crítica mais séria que se pode e se deve fazer ao noticiário da greve, em especial na televisão, onde prima a superficialidade, é que ele omite o óbvio.

1)      A insegurança entrou no país para a lista de preocupações prioritárias da população.

2)      Em parte essencial, isso se deve a ações criminosas praticadas por policiais. Ou seja: a realidade das polícias não pode ser ignorada. Ao contrário, precisa ser atentamente estudada.

3)      Exercer atividade policial se tornou muito mais arriscado do que em tempos idos. Esse é notoriamente o caso na Bahia, onde a chegada do narcotráfico, atrás do acréscimo do dinheiro em circulação, provocou nos últimos anos, por exemplo, aumento exponencial na taxa de homicídios intencionais.

4)      A remuneração dos policiais, suas condições de vida, sua situação social reproduzem a brutal desigualdade que é marca registrada da sociedade brasileira.

Tudo isso requer consideração e não pode ser omitido no noticiário. Mas a tendência praticamente inescapável da mídia é simplificar quadros complexos, defini-los em termos de “bons” e “maus”, e, claro, tomar partido dos que considera “bons”: os que, no caso, sustentam a narrativa da lei e da ordem, ainda que a ordem ditada pelos interesses mais poderosos seja injusta e tais interesses não hesitem em infringir a lei para conseguir seus fins.

Cuidar da democracia

Isso dito, voltemos à expulsão da equipe da Rede Globo. Foi ato de força, ou ameaça de uso da força por muitos contra poucos.

Os repórteres e o motorista são profissionais. Foram à rua numa manhã de domingo não para torpedear ou hostilizar um movimento reivindicatório, mas para cumprir uma escala de serviço.

Quando a reportagem vai ao ar, ela divulga o ato. Divulga de modo enviesado? Sim. É o que acontece, de uma maneira ou de outra, em grau maior ou menor, com toda e qualquer narrativa humana. Mas imaginem os manifestantes que a cena tivesse se passado na Síria ou em Cuba. Não haveria viés, porque não haveria notícia. Só boca a boca.

A atitude dos manifestantes intolerantes não traz benefícios para sua causa – não se queixem, mais tarde, se a cobertura se tornar mais crítica, ou mais enviesada. O mesmo espírito corporativo que une soldados une jornalistas, que, por sinal, obedecem a uma estrita disciplina hierarquizada dentro das redações.

Mais importante, impedir que jornalistas façam seu trabalho prejudica a expansão e a consolidação de regras democráticas de solução de conflitos, algo que faz muita falta no Brasil, a despeito de todos os avanços verificados desde 1985.

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