Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Cadáver insepulto

Por Mauro Malin em 28/02/2013 na edição 735

É difícil coordenar tudo dentro de uma grande organização. A produção de um jornal é uma espécie de milagre cotidiano. Na internet, dada sua natureza virtual, as coisas se complicam. A quantidade de links quebrados com os quais o usuário se depara é astronômica. Ninguém perde tempo fazendo uma coleção deles e contando-os, salvo, talvez, pessoas especificamente encarregadas dessa medição.

Nada disso justifica, porém, o descaso com que os assinantes são contemplados nos portais dos jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão mais influentes do país. Talvez se justifiquem erros irritantes nos pequenos meios. Nos grandes, não. No entanto, eles ocorrem com muita frequência.

No portal do Estadão, ninguém se deu o trabalho de visitar páginas criadas para assinantes como a que se vê abaixo.

Essa página é apenas um exemplo pinçado entre uma infinidade de outros. (Se algum leitor desconhece o fato, saiba que o Jornal da Tarde circulou pela última vez em 31 de outubro de 2012. Procurei a página na seção destinada aos assinantes para perguntar duas coisas: por que o caderno “Sabático” de 23/2 foi publicado na edição digital sem as páginas 7 e 8, e se alguém antes de mim perguntou a mesma coisa. Notar que nem escrever o nome certo do Estadão conseguiram.)

Me engana, telemática

A frequência com que ocorrem lambanças dessa ordem encontra sua explicação numa grande ilusão carregada desde a década de 1980: a de que a telemática substitui seres humanos em operações humanamente inteligentes.

O que a informática – o tele se refere às telecomunicações – realiza são operações programadas por seres humanos, muitas vezes tarefas repetitivas, poupando com isso um tempo extraordinário. (Mas também desperdiçando muito tempo individual e social. Mas essa é outra história.)

Quando a tarefa exige o olho humano, ou, melhor dito, o sistema de referenciais criado pelo exercício da memória – não memória RAM, mas a velha, que existe desde sempre –, é preciso ter mais gente, e não menos, para realizar as tarefas.

Modelo bancário

É evidente que não se trata de uma ilusão desinteressada. O modelo de informatização brasileiro foi o dos bancos, e ele reduziu grandemente as despesas dessas empresas, entre outras coisas com um corte pela metade do pessoal empregado. Só que, no caso dos bancos, foi bom para os dois lados. Imaginem o que seriam hoje as filas com a crescente “bancarização” da população e a impossibilidade de promover expansão física do número e do tamanho das agências compatível com a demografia econômico-financeira da população.

No caso da mídia jornalística, ninguém se preocupou em avaliar se os cortes de pessoal, ou mesmo a manutenção do número de empregados, seria compatível com a famosa e tão decantada interatividade, que ainda não aconteceu direito em nenhum lugar, menos ainda no Brasil.  

Um exemplo é a chamada “mediação” de comentários na rede. Em periódico impresso nunca se publica uma carta que não seja lida com atenção, comparada em importância com outras e editada, no bom sentido de consertar o texto e de encurtá-lo. E também para servir a objetivos políticos e ideológicos do periódico, como estamos cansados de constatar.

Gambiarra digital

Fazer isso na internet pareceu impossível, então se criou a marota prática do “denuncie” ou “relate abuso”. Ou seja, deixou-se à discrição e às concepções dos usuários sobre ética e moralidade a tarefa de fazer observar o estatuto da gafieira, como diria Eliana Cardoso. É imaginar uma forma de democracia direta exercida sem ágora. Ainda estamos longe disso, embora se ouçam alguns vagidos da nascitura.

É evidente que a gambiarra não pode dar certo, porque os critérios pelos quais os indivíduos se orientam são díspares. O que para um pode parecer a coisa mais natural do mundo – por exemplo um comentário racista ou preconceituoso, mas corrente –, para outro será escandalosamente impróprio. Sob a capa da liberdade de expressão tem passado muita ofensa, calúnia, difamação, ou elogio de práticas interditadas pela Constituição.

Em tempo: neste Observatório da Imprensa, jamais, em 17 anos de existência, foi publicado um único comentário que não tenha sido lido e analisado, muitas vezes corrigido (ortografia, pontuação, outros problemas gramaticais), para evitar que o cerne do argumento fosse enfraquecido pela forma. E a quantidade de cartas rejeitadas é considerável. Sobre isso falará com mais propriedade o redator chefe, Luiz Egypto.

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