Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Cadê a base monetária que estava aqui?

Por Carlos Brickmann em 25/05/2004 na edição 278

Somos um país de 170 milhões de técnicos de futebol e 169.999.991 especialistas em taxa de juros (parece que só os nove que decidem é que não entendem do assunto). E por que tanta preocupação da imprensa com o Copom e a taxa Selic?

Que os juros são importantes, não há dúvida. Mas a imprensa econômica costuma acertar o passo com os ministros de plantão. Nos tempos de Roberto Campos, discutia-se a correção monetária e a relação salários-câmbio. Com Delfim Netto, falava-se de cálculo de inflação e de taxas de desenvolvimento. Na época de Mário Henrique Simonsen, o quente era a base monetária: a base monetária subiu, a base monetária caiu. Pode procurar nos arquivos: nesses tempos não se discutia taxa Selic (o tema surgiu na era Pedro Malan e prosseguiu com Antonio Palocci). Pode procurar nos arquivos: hoje ninguém publica nada sobre base monetária – que, há alguns anos, parecia a coisa mais importante do mundo para nossa imprensa econômica.

Mudou o mundo, mudou o país ou mudaram apenas os ministros?



A culpa é nossa

É duro trabalhar em Comunicação. A culpa é sempre do pessoal da imprensa, seja de que lado for do balcão, mesmo quando a besteira é feita por gente que nunca botou uma letrinha atrás da outra.

Imagine que o Governo brasileiro tivesse ignorado o artigo do jornalista americano Larry Rohter, no New York Times, a respeito de supostos hábitos etílicos do presidente da República. Imagine que o Governo brasileiro tivesse optado não por ignorar o artigo, mas por respondê-lo com uma carta firme e educada. O assunto teria morrido ali mesmo.

Ao optar pela reação autoritária, o Governo multiplicou a repercussão de um artigo cujo futuro previsível seria apenas embrulhar peixe. As vítimas, como de hábito, são os profissionais de Comunicação do Governo. Sempre haverá (e dentro do próprio Governo) quem os ache incompetentes, ou incapazes de resistir a ordens absurdas.

E, no entanto, é gente boa. Louve-se especialmente o porta-voz André Singer, que escreveu um artigo na Folha de S.Paulo defendendo a expulsão do correspondente pelo crime de lesa-majestade. Defender o indefensável é, sem dúvida, uma notável exibição de talento. E, claro, de coragem.



Espetáculo

Dizem que exercício faz bem à saúde. Nada a objetar, portanto, aos novos hábitos saudáveis do ministro José Dirceu. Mas Sua Excelência bem que poderia poupar-nos de suas fotos fazendo ginástica, braços para cima, barriga para baixo. O presidente João Figueiredo popularizou fotos de ginástica, sem camisa; Fernando Henrique também se deixou fotografar em banhos de mar. Mas José Sarney e Itamar Franco mantiveram a compostura. Será que José Dirceu não poderia imitá-los, evitando-nos o desprazer das terríveis fotos de autoridades semi-despidas?



Leitor de oposição

O leitor João Bosco protesta contra a nota desta coluna em favor da redução do número de parlamentares, até como medida de economia. E pergunta: ‘Economizar para quê? Para sobrar mais dinheiro para o superávit primário? Para pagar o serviço de nossa dívida? Se for para isso é melhor aumentar o número de parlamentares, o número de assessores, o número de barnabés, pois é menos dinheiro que sobrará para o governo entregar aos senhores poderosos donos do mundo’.

Calma: como diz Millôr Fernandes, ‘ou nos locupletemos todos ou restaure-se a moralidade’. Se é para esfolar o Tesouro, cadê o nosso?



Prenderam o Hugo

É fantástico (e nossa imprensa, embora alertada, preferiu ignorar o fato): a Operação Anaconda prendeu um cavalheiro errado, e o manteve preso por 11 dias na Polícia Federal paulista. E por que foi preso? Por chamar-se Hugo, mesmo nome de quem era procurado. O engenheiro Hugo Sterman Filho teve de contratar um advogado de fama, Alberto Toron, para livrar-se da cadeia.

E que disseram os jornalistas informados por esta coluna de que haviam prendido o Hugo errado? Disseram que a Polícia era organizada, não cometeria este erro e, portanto, ficariam fora do assunto. Só que, como sabemos, as coisas não são bem assim: do jeito que acontece hoje, o importante é prender, fotografar e filmar (de preferência com algemas) e dar muitas entrevistas à imprensa. O resto é o resto.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; endereço eletrônico (carlos@brickmann.com.br)

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