Sábado, 17 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CIRCO DA NOTíCIA >

Carlos Eduardo Lins da Silva

01/07/2008 na edição 492

‘DEPOIS de reclamações de ordem político-partidária, o maior volume de queixas que chegam ao ombudsman diz respeito à cobertura esportiva do jornal, particularmente à de futebol. São, em geral, torcedores revoltados com o que consideram atitude preconceituosa contra seu time de preferência.

Aliás, não é à toa que esses são os dois temas que mais mobilizam a emoção dos leitores em relação ao jornal. Já quase virou lugar-comum dizer que a luta entre PT e PSDB virou uma espécie de Fla-Flu.

Infelizmente para o país, como adverte José Miguel Wisnik no livro indicado ao lado, ‘os Fla-Fus podem ser tão estimulantes e interessantes no futebol (onde o próprio jogo se encarrega de reverter de alguma forma a paralisia dos opostos) e tão nefastos na vida intelectual, onde imobilizam e esterilizam o pensamento’.

A cobertura de esportes é uma das áreas que mais sofrem nos jornais impressos as conseqüências do novo ambiente da mídia. A TV paga, com seus canais dedicados 24 horas diárias a esportes, os blogs especializados, a informação via internet, tudo isso exige do jornal impresso uma nova atitude se quiser manter a atenção, o interesse e a lealdade do leitor.

É evidente que ele não pode competir com os outros veículos em velocidade e atração imagética. Mesmo assim, continua insistindo, muitas vezes, nas velhas fórmulas.

A ilustração fotográfica não pode se limitar a reproduzir estaticamente o que o torcedor viu dezenas de vezes em movimento e câmara lenta na véspera. Ela tem de ser capaz de sintetizar o significado do jogo em alguma cena que as câmeras de televisão por qualquer motivo não puderam registrar ao vivo.

Quanto aos textos, não devem em nenhuma hipótese só descrever o que o leitor já viu muitas horas antes. Precisa ir atrás do detalhe, da informação exclusiva, da opinião avalizada, do enfoque original, do anúncio de novidades.

Há 20 anos, a Folha inovou a cobertura esportiva com a adoção de estatísticas detalhadas das competições. A TV absorveu isso rapidamente. Agora, não é mais um diferencial.

Pelo mundo, claro, também se discute o que fazer com os esportes nos jornais. O caráter cada vez mais mercadológico da atividade -que até ameaça seus princípios básicos- tem feito com que alguns diários pelo mundo incorporem a cobertura de esportes à de economia e negócios. Pode ser uma saída.

Mas no Brasil, ao menos em futebol, o que mais interessa é o jogo em si. Por isso, o importante é investir em talento e inteligência. A Folha já tem excelentes colunistas, que fazem a sua parte. Precisa pensar mais em como superar as dificuldades no noticiário.

Embora não seja um jornal nacional (não há nenhum desse tipo no Brasil), este tem repercussão em todo o país. Por isso, é necessário conter seu natural bairrismo e dar mais espaço ao que é importante em outros Estados.

Também tem de se esforçar para buscar o inusitado, esclarecer o que ocorre nos bastidores, superar em qualidade de análise e informação a rapidez e superficialidade dos meios adversários.

Isso vale não apenas para o futebol, mas para todas as modalidades. Um leitor fã de Fórmula 1 tem cobrado uma cobertura menos ingênua e mais crítica da política interna das grandes escuderias e ele tem razão em suas queixas. É difícil, mas precisa ser feito.

E, ao mesmo tempo, ainda há a permanente busca da imparcialidade possível.

Vêm aí os Jogos Olímpicos de Pequim, mais um grande teste para o jornal mostrar ao leitor a sua contínua utilidade.’

***

‘Tiros livres diretos’, copyright Folha de S. Paulo, 29/6/08.

‘Afinal, a Folha avançou esta semana na cobertura do caso Alstom: identificou, localizou e entrevistou um dos principais implicados, cuja identidade era considerada pseudônimo pela Justiça na Europa, e revelou documentos importantes da apuração do caso.

Tudo que o jornal noticiou de encontro do presidente da República com 253 presidentes de empresas e 150 representantes de entidades para tratar de respeito aos direitos humanos no ambiente de trabalho foram brincadeiras e fofocas de caráter eleitoral.

Enfoque dado a estudo que mostrou crescimento da renda dos mais pobres no país cinco vezes maior do que a dos mais ricos e redução da desigualdade social de 7% em seis anos foi claramente enviesado: registrou com destaque apenas que ainda levarão oito anos para a desigualdade superar estágios ‘primitivos’.

Dois erros feios: acusação infundada de falha médica em título sobre o trágico episódio de menino que ficou tetraplégico devido a reação a anestesia e engano lastimável com números que deu origem a falsa afirmação de que o rio Itamabuca é o mais poluído de São Paulo. Ambos foram corrigidos, mas os efeitos nefastos sobre os médicos no primeiro caso e os empresários de turismo de Ubatuba no segundo vão perdurar.’

***

‘Para ler’, copyright Folha de S. Paulo, 29/6/08.

‘‘Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil’, de José Miguel Wisnik. Companhia da Letras, 2008 (a partir de R$ 31,49) – além de ser provavelmente o mais completo ensaio já publicado sobre o fenômeno social e cultural do futebol no Brasil, o livro oferece ao leitor o prazer de apreciar um dos mais sofisticados textos com que o país conta neste início de século: pura poesia em prosa.

PARA VER

‘Boleiros’, de Ugo Giorgetti, com Lima Duarte e Adriano Stuart, 1998 (a partir de R$ 22,53) – ótima comédia, quase existencialista, sobre o universo do futebol

ASSUNTOS MAIS COMENTADOS

1. Caso do menino que ficou tetraplégico

2. Greve dos professores

3. Cobertura esportiva

ONDE A FOLHA FOI BEM

Havelange

Boa entrevista na quinta com o veterano cartola, que admitiu armações em copas do mundo

João Gilberto

Excelente crítica da apresentação de João Gilberto no Carneggie Hall nos 50 anos da bossa nova

Classificados

Edições de Imóveis, Veículos, Empregos e Construção aos domingos prestam ótimo serviço ao leitor

E ONDE FOI MAL

Boxeadores cubanos

Jornal ignorou saga de boxeador cubano que foi deportado do Brasil e agora fugiu de Cuba

Duelo literário

Suplemento Mais! gastou quase todo o seu espaço no domingo com duelo totalmente artificial entre Machado de Assis e Guimarães Rosa

Primeira Emília

Jornal errou no dia 21 ao identificar a primeira atriz que interpretou Emília de Lobato na TV e, mesmo alertado por leitor, ainda não se corrigiu’

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