Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Carta Capital

19/05/2009 na edição 538

ECONOMIA
André Siqueira

É possível brigar com os indianos?

‘As exportações brasileiras de serviços de tecnologia da informação (TI) deverão ultrapassar 2 bilhões de dólares até o fim de 2009, mas a cifra não é motivo para comemoração. A Índia vendeu a outros países, no ano passado, mais de 40 bilhões de dólares e pretende chegar a 47 bilhões neste ano. Se quiser aumentar sua fatia no bolo mundial do setor, o Brasil terá de deixar de lado a briga por custo e apostar nos segmentos em que é capaz de superar a concorrência, como a produção de software livre. A avaliação é do presidente do Everest Group, Peter Bendor-Samuel, que veio a São Paulo participar da quinta edição do Seminário Brasil Outsourcing, nos dias 13 e 14.

O evento discutiu as oportunidades para empresas brasileiras no disputado mercado internacional de terceirização de serviços de TI, o chamado offshoring outsourcing. Para Bendor-Samuel, o governo deveria adotar estratégias para atrair grandes empresas interessadas no desenvolvimento de softwares livres, a exemplo de IBM e Oracle, e transformar o País em um polo mundial nessa área. O atual cenário de crise financeira seria oportuno, diante da necessidade de as empresas reverem os gastos com as tecnologias tradicionais. ‘Todos os grandes mercados estão repensando e mudando sua atuação neste setor para se adaptar à nova realidade’, disse o consultor.

De acordo com o presidente do Programa Brasil Outsourcing, Flávio Grynszpan, uma mudança na oferta é fundamental se o País quiser ganhar espaço no mercado internacional de tecnologia. ‘Não temos chance de crescer muito se vendermos o mesmo que os indianos’, afirmou. O desenvolvimento de soluções de negócios baseadas em softwares livres, de acordo com o executivo, seria uma maneira de aproveitar o conhecimento acumulado na intensa atividade de programadores brasileiros nas redes de relacionamento da internet. ‘Se o mundo nos reconhecer como um centro de criação de programas, então teremos uma chance de nos diferenciar.’

Uma área na qual o governo tem apostado fichas é a de desenvolvimento de projetos de semicondutores, etapa anterior à produção industrial. O Programa CI Brasil, do Ministério de Ciência e Tecnologia, acompanha a experiência das design houses nacionais, como são chamados os centros de desenvolvimento de microchips. O atraso brasileiro em relação aos concorrentes, de acordo com Mauro Peres, executivo responsável pela consultoria IDC no País, é explicado, em boa parte, pelo tamanho do mercado doméstico de TI, duas vezes maior que o indiano. E a tendência, em tempos de crise, é de que a demanda interna continue a crescer mais que nos EUA e na Europa, tradicionalmente os maiores compradores.

Os especialistas reunidos no seminário reforçaram a ideia de que a geografia do mercado internacional de tecnologia da informação e de telecomunicações, a chamada ICT, deverá passar por mudanças profundas nos próximos anos. De acordo com a IDC, 56% do valor agregado de novos gastos com tecnologia no mundo surgirá em países emergentes até 2011. Há apenas uma década, segundo dados do Gartner Group, mais da metade do mercado internacional de TI ainda estava concentrada nos Estados Unidos.’

 

INTERNET
Felipe Marra Mendonça

A polícia da web intimida a troca de informações

‘O caso dos piratas suecos do site Pirate Bay trouxe à tona o assunto da distribuição ilegal de informações digitais e as discussões sobre limites para a troca de arquivos na internet. Um relatório da empresa BayTSP (www.baytsp.com) confirma o que era esperado: o uso de arquivos torrent, que facilitam a transmissão de grandes volumes de dados pela rede, move a maior parte da pirataria on-line. A companhia é especializada em agir como uma espécie de rastreador do mundo cibernético, a mando das grandes empresas de entretenimento, acompanhando a rota do conteúdo legal até cair nas mãos dos piratas. A BayTSP também assume um lado ‘capanga’, quando envia notificações para diferentes provedores ou sites pedindo a retirada de conteúdos teoricamente ilegais, como gravadoras que não querem vídeos de seus artistas colocados no YouTube. É curioso pensar que as gravadoras não gostam do que essencialmente é uma divulgação gratuita do seu produto e, sobretudo, que a indústria enxergue em seus consumidores uma classe de criminosos, até prova em contrário.

O interessante do estudo divulgado pela BayTSP é o ranking dos países campeões em trocas de arquivos supostamente ilícitos. Os três primeiros são Espanha, Itália e França, que a companhia diz terem leis fracas de proteção ao direito autoral. O Brasil, que em 2007 estava em nono lugar, agora se encontra na sexta posição, talvez como resultado do crescimento das redes de banda larga no País. O resto da lista é composto de Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Polônia, Israel e Canadá.

O relatório também nota o crescimento de sites de distribuição legal de conteúdos, principalmente vídeos, como o portal da rede americana ABC e do ComedyCentral.com. Também cresceram lojas virtuais como a iTunes Store e a Amazon Video on Demand, que oferecem uma proposta atraente para os consumidores que prefeririam pagar pelo conteúdo legal: um preço razoável, altas velocidades e conteúdo variado. O último ponto é importante, pois o material normalmente disponível em sites como o Pirate Bay, com velocidade razoável, se limita aos últimos lançamentos ou às séries mais populares, nem sempre o que o consumidor final procura para o seu entretenimento.

O que não deve ser feito para solucionar o problema é a ideia proposta pela indústria do entretenimento na terça-feira 12, em Londres. Ela sustenta que a política de enviar notificações aos suspeitos de cometer infrações não é suficiente para coibir a pirataria e quer que os provedores de acesso comecem a desconectar usuários que quebrem de forma repetida os direitos autorais ao distribuir músicas, por exemplo. A tese é que os internautas só respeitariam as notificações se elas fossem acompanhadas de uma ameaça real de desconexão em caso de reincidência.

Os provedores de internet responderam que a melhor alternativa é um sistema mais simples de licenciamento e mais facilidades para a compra de conteúdo legal. Não existe ainda um consenso sobre o modelo perfeito para coibir a pirataria digital, mas é um alento pensar que, pouco a pouco, fica provado que o consumidor não é o culpado pela situação atual.’

 

ACESSO À INFORMAÇÃO
Redação CartaCapital

O passado mais transparente

‘A história oculta da ditadura começa a ser colocada ao alcance dos olhos dos brasileiros pelo site Memórias Reveladas (www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br), que o governo lançou na quarta-feira 13. O portal disponibiliza documentos recolhidos dos extintos Serviço Nacional de Informações (SNI), Conselho de Segurança Nacional (CSN) e Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgãos centrais da repressão. Já está no ar, por exemplo, o áudio com o discurso em defesa da reforma agrária feito pelo deputado e líder camponês Francisco Julião em 31 de março de 1964, véspera do golpe. Mas ainda não se podem visualizar fac-símiles dos documentos, pois a legislação atual não permite que isto seja feito sem a autorização do próprio envolvido.

Até por isso, a transparência em relação aos tempos obscuros do regime militar se complementa com o envio ao Congresso Nacional de um projeto de lei que regulamenta o acesso a informações. Se aprovado, o projeto reduz de 30 para 25 anos o prazo máximo de sigilo a arquivos ultrassecretos. No caso de documentos relativos à violação de direitos humanos, como assassinatos, desaparecimentos e tortura, não haverá sigilo algum. Também estabelece um prazo de vinte dias, prorrogáveis por mais dez, para os órgãos públicos prestarem esclarecimentos pedidos por qualquer cidadão. Se o prazo for descumprido, o caso poderá ser levado à Controladoria Geral da União (CGU). Foi lançado ainda um edital solicitando a cessão por particulares de arquivos do período da ditadura.

As ações foram anunciadas em solenidade no Itamaraty com a presença do presidente Lula , que negou revanchismo. ‘Vamos prestar um serviço à democracia brasileira na hora em que a gente conseguir desvendar alguns mistérios que ainda persistem na nossa história’, disse Lula, ladeado por dois pré-candidatos à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff e o governador de São Paulo, José Serra, ambos perseguidos pela ditadura.

O evento serviu como uma pequena prévia de quem se sai melhor em discursos. Dilma se deteve nas ações do governo para facilitar o acesso à informação. O tucano fez um discurso descontraído, em que zombou dos órgãos de repressão ao analisar sua própria ficha. Segundo Serra, o Dops dizia que ele, então líder secundarista, havia chorado na visita do astronauta Yuri Gagarin ao Brasil, em 1961. ‘Só que eu não tinha nenhuma simpatia pela União Soviética’, riu. A verificar.’

 

TELEVISÃO
Nirlando Beirão

Bollyglobo

‘Glória Perez é como um daqueles ídolos hindus de múltiplos braços. Você fica sem saber a razão de tanto exagero. O fascínio costuma ser a outra face do excesso. Mesmerizado diante daquela galinhada tandoori temperada a espiritualidade forçada e a falso misticismo, o telespectador empanturrado simplesmente desiste de entender o significado lineal de uma trama que de fato nem sequer existe.

Histórias pipocam ao embalo do acaso. O dalit bonitinho rejeitado arranja emprego de terno e gravata no Brasil. A musa enfeitiçada também acaba por vir a dar com seus apetitosos costados aqui nos tristes mas tolerantes trópicos. Há um inocente rebento entre eles. O final feliz está desenhado, sob o império do óbvio. No prato feito dos comensais da culinária do Projac, a sexualidade faz as vezes do curry.

Caminho das Índias chega à perfeição no seu mister de atingir o grau zero da narrativa. É, portanto, uma experiência revolucionária de teledramaturgia. Já que não existe história a contar, os fios com que ela tenta enredar o espectador são tecidos ao sabor de circunstâncias que não duram mais do que um escasso capítulo. Reviravoltas se sucedem, com tranquila arbitrariedade. O Bollyball trepida, num carnaval de saris, cores, bailes e elefantes. A vida – medíocre – continua.

A malvada que costumava ser boazinha trama uma infamia contra a mocinha ingenua. A mocinha usa o bindi – ponto vermelho da testa a simbolizar a shakti feminina. Mas não há proteção divina que neutralize os poderes da naja sorrateira (na vida civil, Letícia Sabatella é simpatizante do MST, o que, para a Globo, deve ser a mesma coisa). No caos narrativo, atores e atrizes têm de se reinventar a cada ação. Mas há os Tony Ramos, os Lima Duarte, a própria Sabatella, a resistir com bravura ao convite sedutor do ridículo.

Glória Perez é o folhetim em estado puro. Com boa vontade, dá para lembrar Balzac. Balzac fez o folhetim monumental da burguesia francesa que emergia, já louca por um privilégio, da correnteza pós-revolucionária. O folhetim de Glória Perez fotografa o enorme vazio cultural que nos circunda.’

 

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