Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > O TABU DO FURO

Cego, surdo, mudo

Por Carlos Brickmann em 30/11/2004 na edição 305

O repórter Agostinho Teixeira, da Rádio Bandeirantes, tem uma característica que é rara hoje em dia: em vez de esperar que um promotor lhe ofereça uma matéria, já com todos os documentos anexos, como fazem tantos jornalistas amestrados, Agostinho Teixeira vai batalhar suas pautas. Foi ele que mostrou, por exemplo, que gabinetes de deputados estaduais eram usados para compra e venda de artigos diversos (e não apenas votos); tornou-se tão temido que, quando chegava à Assembléia, circulava rapidamente a informação, em código, da presença do ‘Alfa Tango’.

Pois bem: nestes dias, Agostinho Teixeira fez duas reportagens da maior importância. Numa, recebeu proposta de adulteração de gasolina (exatamente: gasolina, esta que o caro colega põe no tanque do carro). Em outra, a proposta era de adulteração da bomba de combustível, de maneira a marcar mais do que o efetivamente colocado no tanque. A Rádio Bandeirantes deu amplo destaque – merecido, aliás, às matérias. E os concorrentes?

Os concorrentes, escritos, falados, televisados, eletrônicos, fingem que não é com eles. Ninguém tentou suitar, desmentir, buscar novos ângulos. Este colunista só consegue levantar duas hipóteses para a omissão:

a) como a matéria foi feita por um concorrente, tentam desvalorizá-la;

b) um bom número de jornalistas não vê sequer o próprio jornal, quanto mais os outros, e não conseguiu tomar conhecimento da notícia.

Responda depressa: o que é mais feio para nossa profissão?



Lembrando

Faz muitos e muitos anos. Um dia, quando levou bronca do chefe porque não tinha lido o jornal, um repórter se explicou: ‘Eu não ganho para ler besteira. Eu ganho para escrever besteira’. Quem é ele? Esqueça, esqueça.



A história real

Dan Rather foi realmente um âncora excepcional. Infelizmente, porém, sua aposentadoria não merece as honras que lhe foram prestadas. Na ânsia de ser mais anti-Bush que os outros, Rather apresentou documentos falsos na TV a respeito do serviço militar do presidente. Faltou-lhe frieza, faltou-lhe isenção. E, quanto ao serviço militar, informações de fatos ocorridos há tanto tempo raramente terão importância. Nosso presidente João Figueiredo, que não se notabilizou pela argúcia, era tríplice coroado: tirou sempre o primeiro lugar nas escolas militares que freqüentou.



Recordando

O presidente Bush tem, a propósito, o dom de provocar ódios profundos. Ronald Reagan, cujas idéias políticas eram semelhantes às dele, causava menos ódio. Muita gente se lançou à cruzada para derrotar Bush (mesmo na imprensa brasileira, mesmo sabendo-se que nosso eleitor não vota lá) e mostrar o perigo da reeleição. Uma reportagem fascinante mostrava o fundamentalismo de grupos cristãos pró-Bush. Era tudo verdade – mas Jimmy Carter, talvez o presidente americano mais bem visto na América Latina, era reborn christian, cristão renascido, profundamente religioso, e isso não lhe valeu reportagens negativas na imprensa. A religião, aliás, lhe serviu de apoio para defender os direitos humanos e a combater a tortura.



Gansos e gansos

Imprensa, rádio, TV e internet noticiaram fartamente o uso de gansos como vigilantes na penitenciária de segurança máxima de Tremembé (SP). A notícia é interessantíssima. E seria ainda melhor se alguém tivesse relembrado um caso clássico de aves vigilantes: os Gansos do Capitólio, de Roma. No ano 390 a.C., os gansos que protegiam a sede do Senado grasnaram, denunciando a infiltração silenciosa dos bárbaros e evitando que as tropas de Roma fossem atacadas pelas costas. O caso ficou tão famoso que é citado quase 2 mil anos depois, no livro Leviatã, de Thomas Hobbes.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

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