Sexta-feira, 31 de Julho de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº861

CIRCO DA NOTíCIA > ÁLCOOL & POLÍTICA

Complexo de vira-lata

Por Carlos Brickmann em 18/05/2004 na edição 277

No Festival de Besteiras que Assolou o País após a reportagem do New York Times, uma chamou especialmente a atenção deste colunista: Larry Rohter seria um repórter ruim, porque se fosse bom seria correspondente na Europa ou no Oriente Médio, e não no Brasil.

Subdesenvolvimento mental é isso: é a gente achar que, se está no Brasil, não presta. Acusam o gringo de ofender a nação inteira porque disse que seu presidente bebe. Ofensa, se houve no caso, foi ao presidente, não à nação. Já dizer que se o repórter fosse bom não estaria em Pindorama isto é, sim, uma ofensa à nação.

Comparemos: quer dizer que Clóvis Rossi é ruim, porque se fosse bom estaria em Nova York, não em Madri? Quer dizer que Jaime Martins é ruim, porque se fosse bom teria passado vinte anos na Inglaterra, não na China? Quer dizer que o Alberto Tamer é ruim, porque mora em Paris quando a capital econômica da Europa é Frankfurt?

Este colunista não gostou da reportagem de Larry Rohter, por achá-la pouco fundamentada. Também não concorda com a tese de que o abuso da bebida pelo presidente seja o assunto nacional. Mas, embora não seja o assunto nacional, é um dos assuntos, sim. E não falemos apenas de jornalistas e de políticos, que há muito comentam o tema: há gente do povo, como meu respeitável amigo Raimundo, um senhor de 84 anos que já viu de tudo, que se refere aos churrascos do presidente como ‘cervejada’ ou ‘cachaçada’.



Eles bebem, sim

O fato, damas e cavalheiros, é que algumas notáveis figuras históricas tiveram famosa fixação pela bebida. Sir Winston Churchill, herói britânico, sempre bebeu muito – há quem diga que foi alcoólatra. A rainha-mãe Mary, adorada pelos ingleses, nunca dispensou suas doses diárias de gim. O general Ulysses S. Grant, que comandou as tropas vitoriosas da União na Guerra Civil americana e foi presidente dos Estados Unidos, ficou famoso pelas bebedeiras (e, quando disseram ao presidente Abraham Lincoln que seu maior general era bêbado, ele respondeu: então mandem uísque para os outros generais, para ver se ganham tantas batalhas quanto ele).

No Brasil, o lendário ministro Mário Henrique Simonsen sempre estava alguns uísques à frente. Outro político que amava a bebida foi Jânio Quadros, prefeito e governador de São Paulo e presidente da República. Certa vez, Jânio foi interpelado por um estudante de Direito, que queria saber por que ele bebia tanto álcool. Sua resposta é clássica, naquele Português que só ele falava: ‘Bebo-o porque é líquido. Se fôra sólido, comê-lo-ia’.

Jânio não achava que a Nação se ofendesse quando ele era acusado de beber. Jânio fazia piada. Mas Jânio tinha humor. Era inteligente.



Currículo

Ainda a propósito de Larry Rohter: não faz muito tempo, algumas de suas reportagens foram elogiadíssimas pela turma que hoje gostaria de expulsá-lo do país. Foi ele que levou ao New York Times o caso Celso Daniel. Foi também ele que descobriu fatos importantes sobre a explosão do foguete brasileiro em Alcântara, que matou 21 pessoas.



Biografias

Quanta gente boa do lado errado! Que tristeza ver pessoas que, de um jeito ou de outro, condenavam a ditadura e agora aprovam uma medida ditatorial como a tentativa de expulsão do país do repórter Larry Rohter, só por paixão política e disciplina partidária!

É hora de lembrar um antigo político potiguar, homem honrado, conservador, que se opôs à ditadura militar. Sua frase: ‘Ao rei, tudo. Menos a honra’. Gente boa que está do lado errado: a Lula tudo, menos a honra.



Inculta e bela

‘… a emissora concordou em suspender um processo envolvendo ele na Justiça’. Dói nos olhos e nos ouvidos, não é mesmo? Pois saiu numa coluna muito lida de um jornal de muito prestígio.



Menos é mais

Este colunista é favorável a reduzir o número de vereadores (e de deputados estaduais e deputados federais). A Câmara dos Deputados pode funcionar perfeitamente com 250 deputados, o Senado pode ter dois representantes por estado, e nada disso atingiria o bom funcionamento da democracia. Valeria pela economia: imagine quantos gabinetes, quantos funcionários, quantos assessores o pagador de impostos iria economizar!

Sabe de quanto seria a economia? De nada! A revista eletrônica Capital Social, editada no ABC paulista, mergulhou no assunto e mostrou que, conforme o caso, o Executivo transfere de 5 a 8% de sua receita para o Legislativo. E o Legislativo, naturalmente, gasta tudo. A menos que mude a lei, se reduzirmos à metade o número de representantes do povo, cada um dos restantes gastará o dobro.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; endereço eletrônico (carlos@brickmann.com.br)

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