Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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CIRCO DA NOTíCIA >

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 22/01/2008 na edição 469

16/1/08

Apuração autônoma

Com chamada discreta na primeira página, a reportagem ‘Incursão israelense em Gaza mata 18 palestinos’ (pág. A11) conta, no primeiro parágrafo: ‘Blindados israelenses invadiram ontem o norte da faixa de Gaza, numa operação que deixou pelo menos 18 palestinos mortos, entre eles o filho de um dirigente do Hamas, grupo radical que controla o território’.

Seguem várias informações detalhadas sobre o episódio, mais declarações da Autoridade Nacional Palestina e do presidente de Israel.

Tudo feito sem a contribuição de agências de notícias, emissoras de TV ou serviços noticiosos da internet _a considerar a falta de crédito.

Feito em… São Paulo, com assinatura de repórter no alto do texto, dando a entender que toda a apuração é sua.

É norma consagrada da Folha e do jornalismo de qualidade creditar quem apurou as informações. Nem que seja com um modesto ‘colaborou’.

Aterrissagem e serviço

A Folha não desafia a notícia e publica com razão a manchete ‘Prejuízo do Citigroup derruba Bolsas’.

Na vasta edição, com informações e análise, senti falta de jornalismo de serviço.

Uma parcela expressiva de leitores do jornal mantém investimentos em ações. Cabia ao jornal oferecer um painel amplo de sugestões sobre como se comportar no momento da crise. E apurar, na medida do possível, como os grandes investidores se comportam.

Não sugiro leviandades do tipo bancar que o investidor faça isso ou aquilo. Mas relatar o que está sendo feito no mercado, as opiniões, dicas.

São informações relevantes que os leitores-investidores buscam no jornal, principalmente em situações como a atual.

Trabalho de equipe

Só ontem pude ler a notável reportagem do New York Times dominical, citada em pequeno texto da Folha na segunda-feira.

O jornal fez um levantamento e contabilizou 121 casos em que militares então na ativa ou já veteranos ‘recentes’ do Afeganistão e do Iraque mataram pessoas nos EUA ou foram acusados de matar nos últimos anos.

Além da grande reportagem, gênero que não se costuma ler na Folha, destaca-se o trabalho em equipe. Duas repórteres assinam o texto (retranca única), outros sete jornalistas contribuíram na apuração.

Também não temos o hábito de tocar investigações de fôlego com equipes mais numerosas.

Setenta e seis linhas foram dedicadas ao brasileiro Lucas T. Borges, 25, que se mudou para os EUA aos 14 anos. Ex-Marine, ele cumpre pena por homicídio.

Mano a mano

Uma leitora avisou que está errado o fuso horário de Buenos Aires, ‘menos 1’, na pág. C2.

Consultei Estado e Globo, que confirmam a informação da Folha.

Então, entrei no site no Clarín.

A leitora tem razão, o fuso das capitais de Brasil e Argentina hoje é o mesmo.

O jornal deve correção.

No Pará…

O ‘Globo’ cobre a viagem de Mangabeira Unger à Amazônia. No Pará, o ministro fez propostas, no mínimo, polêmicas.

A Folha, que não tem correspondente em Belém e, aparentemente, não escalou repórter para cobrir o périplo, não traz a notícia.

Batalhas perdidas 1

É constrangedor, para a Folha, o dito Painel do Leitor de hoje.

Só dá ‘outro lado’.

Leitores, evidentemente, protestam.

Batalhas perdidas 2

No dia 6 de dezembro, uma leitora alertou o jornal, por intermédio do ombudsman, sobre erro em reportagem a respeito de café.

No mesmo dia, encaminhei sua mensagem à Redação.

A correção só saiu hoje, 16 de janeiro.

Mais uma vez: não basta corrigir, é preciso corrigir logo.

Esqueletos

Um irmão e uma cunhada do ex-prefeito Celso Daniel, assassinado em 2002, vivem na França, com os filhos, como refugiados políticos.

Bruno Daniel deu entrevista a Reali Júnior, no ‘Estado’ de hoje.

Os leitores da Folha ganharão se o jornal ‘recuperar’ as informações.

Aos costumes

O ‘Estado’ publica uma fotografia de interesse público: um preso de 18 anos, detido em morro do Rio, apareceu com o rosto inchado. ‘De acordo com a polícia, ele se feriu ao cair’, diz o jornal, que ironizou no título do texto-legenda: ‘Ferido na queda’.

Pior que o soneto

Pelo que se lê no Erramos de hoje, o problema das fotos de Veículos 2, no domingo, não era apenas a falsa ‘exclusividade’ alardeada pela Folha.

Não eram imagens do Gol G5, mas do novo Polo.

A correção de hoje omite que as fotos não eram exclusivas. Ainda é tempo de corrigir.

Marta e declaratório

A reportagem de alto de página (A9) ‘PT quer resposta de Marta e aliança ampla com PMDB’ é um exemplo do que não deve ser a cobertura de política e (pré) campanha eleitoral: uma sucessão de declarações de dirigentes petistas.

É de interesse dos leitores conhecer o que chefes partidários afirmam, porém mais importante é saber como andam as articulações reais para fazer da ministra Marta candidata a prefeita.

Febre amarela: de longe

A transmissão de febre amarela se concentra em áreas rurais de Goiás.

Qual o impacto do temor da doença na vida das pessoas não vacinadas que moram lá?

Dos cinco jornalistas que assinam, de lugares diferentes, a reportagem principal da Folha hoje, nenhum escreveu de Goiás.

É um equívoco tão óbvio como de fácil solução –enviar jornalista com a vacinação em dia.

Xxxxxxxxx

Na programação de cinema (pág. E6), faltaram informações sobre o filme ‘As Damas de Ferro’.

Saiu uma sucessão de ‘x’.

Em tempo 1

Ficou ótima a reportagem que na primeira página de ontem ganhou o título ‘Negócio faz ação da Telemar subir 26,5%’.

Em tempo 2

Está errada a data da morte de Edmund Hillary na pág. A13 da edição da sexta-feira passada (‘Morre Edmund Hillary, primeiro a subir o Everest’).

A Folha subestimou a notícia, que teve grande repercussão em todo o mundo.

Forfait

Participo amanhã de conversa com alunos do curso de pós-graduação em Jornalismo Investigativo do CPDOC/FGV. Por esse motivo, esta crítica não circulará.

Seu cargo é secretário estadual de Turismo, Esporte e Lazer do Rio.

14/1/08

A cara do domingo

Duvido que a Folha tenha como provar a sua manchete dominical, ‘País ganha 60 mil novos milionários em apenas um ano’. A estimativa é do Boston Consulting Group. O jornal não deveria subscrevê-la em títulos, muito menos no principal. Pode até ser verdade, mas recomenda-se informar de cara a fonte.

Há certo ar de chute na projeção. Como saber com exatidão quantas pessoas físicas há com aplicação de no mínimo US$ 1 milhão no mercado financeiro?

A edição e a reportagem aparentaram falta de capricho, mais evidente por se tratar do dia da semana que deveria ser o mais caprichado: o empresário com fotografia na primeira página, Fábio Cunha, não se enquadra no critério de milionário; ele não tem US$ 1 milhão no mercado financeiro. Ao menos a Folha não diz que tem.

Sua empresa vale em torno de R$ 2 milhões. Como ele é sócio do irmão, sua parte seria, com o patrimônio dividido ‘irmamente’, R$ 1 milhão. Para manter US$ 1 milhão no mercado financeiro, suas aplicações equivaleriam quase ao valor da empresa, mesmo que ele fosse o único dono.

O Brasil ganhou 60 mil novos milionários (em dólar!) em 2007, mas a Folha não encontrou um deles para estampar na primeira página.

Nem em Dinheiro. Nos três exemplos perfilados, Fábio Cunha, como visto, não se enquadra; Ivete Sangalo já era milionária muitíssimo antes de 2007. Seu perfil não fala em aplicações no mercado financeiro; o empresário Thiago Oliveira, ‘não vende’ seu negócio por R$ 2 milhões. Ele está construindo uma casa de R$ 1,5 milhão, que consumirá suas aplicações. R$ 1,5 milhão não equivale a US$ 1 milhão.

O tema da reportagem é interessante, pouca gente não quer ler sobre o caminho da roça para virar milionário.

Mas faltou cuidado, capricho, ambição jornalística.

No gênero, as revistas semanais costumam fazer melhor.

Batalhas perdidas 1

Esta crítica e a coluna dominical do ombudsman já se referiram repetidas vezes à obrigatoriedade de identificar publicidade como tal.

Abstenho-me de, uma vez mais, enumerar as determinações do Manual da Redação.

Registro que o anúncio de automóvel na primeira página de domingo reproduz recursos jornalísticos, como a remissão ‘Veja nas páginas 5, 6 e 7’.

Pode ser confundido com material editorial.

O anúncio não recebeu a identificação compulsória de ‘informe publicitário’.

Batalhas perdidas 2

Para a Folha refletir, em um tempo no qual cresce a disposição dos leitores de participar do debate público, e o Painel do Leitor vive infestado de leitores ‘não comuns’: a revista Veja, cuja seção Cartas não está ‘amarrada’ a um limite de espaço prévio, informa que as mensagens publicadas pularam de 947 em 2001 para 2.154 em 2007.

Teles e negligência

A leitura da coluna de Janio de Freitas e das reportagens em Dinheiro sobre a possível compra da Brasil Telecom pela Oi (Telemar), no domingo, reforçam a impressão de negligência na recusa –a essa altura, a palavra é esta: recusa– do jornal em não apurar em processo judicial na Itália informações sobre a disputa empresarial no setor de telecomunicações no Brasil.

Não sei se os depoimentos e documentos são honestos e autênticos, não tenho a mais remota idéia sobre que parte do confronto tem mais ou menos razão.

O que não se entende é a Folha ignorar que há muita informação a conhecer.

Ainda mais porque elas dizem respeito à participação do Estado, no caso o governo federal e fundos das estatais, em um rolo de difícil compreensão para não iniciados.

A Folha não reconhece relevância jornalística no tema?

Ou no material existente na Itália?

Se algumas (ou a maioria ou todas) informações contidas no processo forem falsas, cabe ao jornal esclarecer e expor a eventual armação.

O estranho é fazer pouco da matéria-prima à espera de repórteres.

Alto nível 1

É ótima a reportagem de Igor Gielow com um ex-número 2 do KGB. Poderia estar em qualquer dos melhores jornais do mundo.

A propósito: se KGB significa em russo Comitê de Segurança do Estado, por que a Folha segue a usar o artigo definido ‘a’ antes da sigla, e não ‘o’?

Fotos ‘exclusivas’ são manjadas

A Folha anunciou com pompa, na manchete da capa de Veículos 2, ‘Fotos exclusivas mostram a ´cara` do Gol G5’.

Um leitor avisou, e eu constatei na internet: desde outubro do ano passado as fotos ‘exclusivas’ da Folha estão na rede.

Bastaria ter consultado o Google para saber que a exclusividade não existia.

O jornal deve correção.

Lugar-comum 1

‘Ao todo, serão disponibilizadas 115 vagas’ (em ‘Itamaraty muda regras em concurso para diplomatas’, pág. A19 do domingo).

Ou seja: ‘há 115 vagas’.

Erramos

O item ‘Força Militar’, no quadro ‘Poderio das Farc’ (pág. A26 do domingo), repete na tabela o ano de 2007.

Alto nível 2

O excelente artigo ‘Desconstruindo Hillary’ (pág. A30 do domingo) merecia chamada de primeira página, que não houve.

Gastando sola

Ficou muito boa a reportagem dominical sobre o desmatamento na Amazônia por pecuaristas.

Senti falta de informações sobre os grandes grupos econômicos que criam gado na região, em especial no boom do Pará.

Batalhas perdidas 3

Insisto: fatal é o acidente, não a vítima.

‘Vítimas fatais’ aparecem em ‘Para moradores, acordos são ´ridículos´‘ (pág. C7 do domingo).

A volta

A primeira página de hoje mostra os brasileiros Pato, Kaká e Ronaldo, do Milan, que ontem goleou o Napoli.

O ‘nome do jogo’ foi o estreante Pato, mas Ronaldo fez dois gols.

Na longa reportagem de domingo, Ronaldo não foi nem citado. Mais do que isso, a Folha afirmou, em ‘Com aval de Kaká, Pato debuta e modifica o Milan’, pág. D3): ‘Pato […] deve fazer dupla de ataque hoje com Gilardino’.

Mesmo se ficasse no banco, Ronaldo deveria ter sido citado ontem.

Hoje o jornal afirma, também em alto de página (‘Pato faz estréia dos sonhos no Milan’, pág. D3), sobre Ronaldo: ‘O ex-Fenômeno […] não estava cotado para começar jogando’.

Ontem, o Estado, mais atento, afirmou: ‘Ronaldo, recuperado de todas as lesões (jogou no meio da semana, em amistoso em Dubai) também está pronto para jogar’.

Notícia subestimada

A propósito: no dia em que o planeta comenta a estréia de Pato em Milão, a capa de Esporte da Folha é ‘Mano lê para forjar equipe guerreira’.

E o jornal forja uma edição fria, gelada, insensível para a notícia.

Lugar-comum 2

O texto ‘Jornalista é BBB durante meia hora’ (pág. E7 do domingo) se refere à ‘imprensa escrita’.

Se é imprensa, é escrita.

Sim, há dicionários que aceitam ‘imprensa’ como designação de meios eletrônicos.

Não creio, contudo, que a Folha deva adotar a expressão.

No caso, o mais apropriado seria ‘jornalismo impresso’.

Espelho meu

A primeira mensagem do Painel do Leitor do sábado foi publicada no mesmo dia na seção de cartas do Estado.

Último a saber

Se era para publicar a notícia sobre o implante de cabelo do ex-ministro José Dirceu, que se publicasse junto com todos os jornais.

A notícia só saiu na Folha um dia depois, no sábado.

Febre amarela e ‘fenômeno de imprensa’

A cobertura de hoje da Folha sobre febre amarela é superior à da concorrência.

O motivo fundamental foi a iniciativa de ouvir médicos independentes do governo. Eles concordaram com o ministro Temporão. Nas palavras de Dráuzio Varella, há ‘uma situação normal’. ‘O que acontece é um fenômeno de imprensa.’

Desde 1942 ninguém adquire a doença em áreas urbanas.

O ministro fez pronunciamento em rede, os especialistas, no essencial, estão de acordo com ele. A Folha não tem informações que contradigam a avaliação governamental.

Logo, pareceu um exagero dar manchete ao assunto (‘Ministro vai à TV e nega epidemia de febre amarela’).

Forfait

A crítica diária não circulará amanhã.’

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