Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > MEMÓRIA & ESQUECIMENTO

De volta, os velhos tempos ruins

Por Carlos Brickmann em 20/07/2010 na edição 599

Os bons e velhos tempos, disse certa vez o excelente Pedro Cavalcanti, referindo-se aos Anos Dourados em que Juscelino era presidente, a Seleção ganhou duas Copas do Mundo e a bossa-nova revelou novos talentos em série, só foram tão bons porque éramos todos mais jovens.

E foram bons, também, porque gostamos de esquecer o que era ruim. Como deixou escapar um grande diplomata, cujos ótimos serviços ao país foram ofuscados por essa frase, o que é ruim a gente esconde, o que é bom a gente mostra. Lembramos o grande JB, os textos arrasadores de Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa, o talento jornalístico e a ousadia de Samuel Wainer na Última Hora, e não lembramos as baixarias da guerra entre a Tribuna e a Última Hora, a Última Hora e os Diários Associados, as benesses governamentais grudadas ao exercício do jornalismo, o cotidiano de chantagens promovidas por muitos jornais e jornalistas. Este passado, nós o esquecemos; e parecemos hoje condenados a repeti-lo.

A baixaria se insinua nos grandes jornais, está escrachada na TV (a agressão aos participantes do que se convencionou identificar como ‘jornalismo de programas de humor’ é absurda e tem de ser condenada, mas jornalismo de verdade não inclui usar escadas gigantes para tentar fotografar o interior do apartamento de uma atriz, nem arrotar na cara de uma entrevistada para testar sua reação) e fincou raízes profundas na Internet.

Um blog que repercute no meio virtual, criticando uma posição do presidente Lula no evento ‘Brazil is calling you’, na África do Sul, pôs em dúvida sua sobriedade, e ainda por cima usando termos inaceitavelmente chulos e desrespeitosos. Os termos não são desrespeitosos apenas porque Lula é o presidente da República, representa o país e conta com o apoio de ampla parcela do eleitorado, mas também porque ele é gente. Críticas, tudo bem; críticas duras, faz parte do jogo; mas o respeito tem de ser mantido. Vale até colocar em dúvida a sobriedade da autoridade, mas com base em indícios sólidos, não apenas para fazer piada.

O mesmo tipo de desrespeito permeia o debate político. Quem se atrever a criticar o Governo ou sua candidata é automaticamente qualificado como ‘direitista retrógrado’; quem se atrever a apoiar o Governo será ‘mais um mamando’, alguém que ainda não percebeu que o Muro de Berlim ruiu há mais de 20 anos.

Não pode dar certo. Tanta raiva acaba impedindo que os cidadãos aceitem pacificamente a voz das urnas. Parece que a eleição de Dilma, ou Marina, ou Serra, representará o final dos tempos. O indignado não percebe que eleição é apenas eleição. Seja quem for o eleito, não é isso que vai modificar a posição relativa dos bancos e dos supermercados no ranking das grandes empresas.

 

Aqui agora

As acusações ao goleiro Bruno são explosivas, não só pelos detalhes sangrentos até agora divulgados como por sua posição como atleta de um clube de grande torcida. A morte da advogada cujo carro, mais tarde, foi mergulhado numa represa, é um caso terrível, dramático.

Mas, convenhamos, já se gastou muito tempo de rádio e TV com este tipo de noticiário policial. Os jornais televisivos repetem o dia inteiro as mesmas cenas, com a mesma locução, as mesmas amazônicas entrevistas do delegado que investiga o caso de Bruno. Nada mais ocorre neste país? Terão os jornais de TV se transformado, todos, em Notícias Populares? Se for este o caso, alguém precisa informar aos responsáveis pela overdose de noticiário policial que Notícias Populares, esgotado seu modelo, fechou já faz tempo. Outros jornais que, espremidos, deixavam escorrer sangue, ou mudaram (como O Dia, do Rio) ou fecharam.

 

Sangue na TV

Além de chatear os telespectadores menos entusiasmados por situações macabras, a overdose policial na TV embute outro risco: o de dar vez e voz a gente que deveria mesmo é estar quietinha, preparando seus depoimentos. O jornalista José Paulo de Andrade, um dos mais apreciados pelo público da Rede Bandeirantes, sintetiza de forma absolutamente correta a situação, em seu twitter:

‘No país do cinismo, o ÚNICO suspeito da morte da advogada Mércia dá COLETIVA e ‘evacua regras’. E a Imprensa – mea culpa – vai e dá espaço’.

Quem poderá contestar o mestre Zé Paulo?

 

Bruno e Eliza

Vamos combinar:

1. Bruno é goleiro do Flamengo, com contrato suspenso. É suspeito de participação no desaparecimento de Eliza Samudio. Não há, ainda, como falar de homicídio: embora o crime pareça provável, ainda não há indícios seguros.

2. Eliza Samudio é a moça que alegou que Bruno é o pai de seu filho. Não se conhece o suficiente da história dos dois para saber se tiveram um caso ou apenas uma noite juntos. Também não há ainda prova segura de que o filho seja de Bruno.

3. Não é correto, portanto, ao menos até agora, chamar Eliza de ‘amante’ ou ‘namorada’ de Bruno. A partir do momento em que ela puder ser chamada de amante ou namorada, Bruno também deverá ser chamado desta maneira. Numa relação a dois, ou ambos são amantes ou namorados ou nenhum deles o é.

4. Pertinho da cerca do sítio de Bruno em Minas, foi encontrado um álbum com fotos semiqueimadas de um bebê. Não se sabe o que isso significa, nem há certeza de que o bebê fotografado seja o de Eliza. Mas o álbum foi encontrado por repórteres, não pela Polícia. O que indica que há entrevistas demais de delegado e de agentes e investigação de menos. A imprensa tem o mérito de encontrar o álbum, mas tem o demérito de ouvir o delegado sobre qualquer tema.

 

Da Record à RedeTV!

Um dia, perguntaram a Elis Regina como explicava a decadência da Record – que, durante alguns anos a maior e melhor emissora de TV do país, estava naquela época muito mal das pernas (e só se recuperaria com a venda aos atuais proprietários). Resposta de Elis:

‘O Tuta não era o filho mais velho’.

Tuta, Antônio Augusto do Amaral Carvalho, é uma lenda no campo da comunicação eletrônica. Filho de Paulo Machado de Carvalho, foi preterido na direção da emissora por seus irmãos mais velhos. Transformou-se num dos astros da Equipe A, que produziria os programas de maior êxito do país. Com Nilton Travesso, Manoel Carlos e Raul Duarte, seus companheiros de Equipe A, Tuta manteve a programação da TV Record no topo do que havia de melhor na televisão brasileira. Mais tarde, trocou sua participação acionária na Record por uma das emissoras do grupo, a Rádio Panamericana. E montou a Rádio Jovem Pan, até hoje uma das líderes do setor em São Paulo.

Tutinha é filho de Tuta. Fez um bom trabalho na Pan, revitalizou com grande êxito a Pan FM, criou o Pânico, um sucesso estrondoso, levou o Pânico para a TV. Não era a Record dos bons tempos, mas fez sucesso até mesmo na RedeTV! Porém, parece ter perdido a mão: o humor anárquico de seu grupo, enfrentando a concorrência de programas razoavelmente semelhantes, vem resvalando cada vez mais para o deboche, a grosseria sem sentido, o fingimento de que se faz jornalismo, o desrespeito aos entrevistados e ao telespectador. Dos tempos em que perseguiam pessoas conhecidas para forçá-las, contra a vontade, a calçar algo chamado ‘sandálias da humildade’, passaram à mulher-arroto – uma integrante da equipe, Vanessa Barzan, que queria arrotar no rosto de Laura Cardoso, ótima atriz, que tem hoje 82 anos.

Arrotar deliberadamente no rosto de uma senhora de idade?

Tuta foi um dos criadores do Show do Dia 7, cuja audiência batia a de qualquer novela atual. Tuta lidava com Hebe, Elis, Elza Soares, Roberto Carlos. Tutinha não pode ser lembrado pela cueca vermelha em cima do terno do senador Suplicy nem por arrotos de pessoas de sua equipe na cara de gente que merece respeito.

 

Lembrança do JB

Rogério Mendelski, um dos mais conhecidos jornalistas gaúchos, colega deste colunista no Estadão, na época em que a Sucursal de Porto Alegre era comandada pelo notável Mário de Almeida Lima, manda um bilhete lamentando o fim do Jornal do Brasil e lembrando um anúncio que leu há muitos e muitos anos:

‘Quando pergunta qual é o melhor jornal do Brasil, você acabou de dizer o nome dele’.

 

Pão com pão

O debate ocorreu no Sindicato dos Bancários de São Paulo. Tema: Regulamentação e Controle Social da Imprensa. O mediador foi o presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Os participantes foram o vice-presidente da Fenaj, o presidente da Afubesp, a secretária de Imprensa da CUT. A apresentação foi da presidente do Sindicato dos Bancários.

Dúvida: qual foi o debate, se todos são favoráveis à Regulamentação e Controle Social da Imprensa? Ninguém se deu ao trabalho, nem ao menos para dar uma maquiagem que sugerisse abertura, de convidar qualquer pessoa de qualquer entidade contrária à tese predominante – que este colunista, para efeito de melhor compreensão e de um texto mais enxuto, prefere chamar de censura, mesmo.

 

Como…

De um grande jornal, que publica foto com oito pássaros num galho de árvore, um encostadinho no outro:

Os anus-brancos empoleirados no pau-ferro

 

…é…

De um portal de notícias, falando de times que completam cem anos:

Já são 13 as agremiações que chegaram a essa marca secular, e todas elas montaram bons times para brigar por troféus na temporada em que completavam 100 anos. Botafogo (duas vezes, em 1994 e em 2004)’ (…)

Um dia alguém explicará a este colunista como é que o Botafogo completou cem anos duas vezes, uma em 1994, outra em 2004.

 

…mesmo?

De um importante portal da Internet:

Irradiante pela conquista do título – e também por ter sido eleito o melhor goleiro da Copa –, Casillas não conteve o entusiasmo e beijou a namorada Sara Carbonero, durante entrevista que concedia, ao vivo, à repórter.

Deve ser por isso que o excelente goleiro tomou aquele frango contra a Suíça. Em vez de prestar atenção no jogo, irradiava.

 

No capricho 1

A Internet nunca nos falha:

Suspeito de ser o principal suspeito da morte (…)

Talvez ficasse melhor ‘suposto suspeito de ser o principal suspeito’.

 

No capricho 2

Segundo informa o portal noticioso de um grande jornal,

Droga para colesterol não previne morte

Ainda bem que a imprensa cumpre seu papel de esclarecimento e evita que o público fique em dúvida.

 

Mundo…

Acontece no fim de semana anterior a 14 de julho em Laguna Niguel, na Califórnia, EUA: moradores e visitantes, há 30 anos, mostram os traseiros nus para os trens que cruzam a cidade. Desta vez, havia dez mil pessoas na festa. Dizem que a brincadeira começou em 1979, com uma aposta no bar; e caiu no gosto do público. É de dia, é de noite: quem participa da cerimônia noturna leva potentes lanternas para que os passageiros dos trens possam apreciar o espetáculo.

 

…mundo

Esta notícia tem até vídeo. ‘EUA: galinha morre ao botar ovo de 115 gramas’.

Há alguns anos, houve história parecidíssima na Folha. O secretário da Redação era o seriíssimo Hélio Pompeu, sempre de paletó e gravata, sempre atento às boas normas do jornalismo. Seu sobrinho, Renato Pompeu, irreverente, brilhante, de uma cultura fantástica e até hoje um dos melhores redatores do país, colocou numa seção de pequenas notícias a história de uma galinha que tinha botado um ovo enorme. Seu título: ‘…e a galinha penou’.

O título passou. Quando viu os primeiros exemplares do jornal, Hélio Pompeu mandou parar a impressão para trocar o título. Que, a propósito, era ótimo.

 

…vasto…

Há coisas que só acontecem nos Estados Unidos. Esta é de Tulsa, Arizona: um jovem brigou com o síndico e tentou atropelá-lo. O detalhe é que o jovem, adepto do ‘body modification’, chegou a implantar chifrinhos na testa. Agora imagine a surpresa do síndico: um motoqueiro chifrudo fazendo o possível para atingi-lo (sem êxito). Mas o rapaz só foi solto depois de pagar fiança de US$ 10 mil.

 

…mundo

Agora, o Brasil. Em Bauru, SP, uma cadeia foi assaltada (aliás, cadeia não: depois de 16 anos de Governo tucano, a cadeia agora se chama ‘unidade prisional’, ou ‘centro de ressocialização’ – soa mais chique). Roubaram oito leitões e dois cabritos. É um retrato do país: nem dentro da cadeia alguém está seguro.

 

E eu com isso?

Há quem imagine que, no noticiário frufru, só entram notícias frufru. Ledo engano! Surgem também esclarecimentos dos mais importantes, que evitam que notícias equivocadas continuem circulando livremente no mercado.

** ‘Diferente do que foi publicado pelo (…), o fotógrafo, maquiador e consultor de estilo Fernando Torquatto não está separado da produtora Marina Morena. Fernando e Marina se casaram em março de 2008 e os dois continuam juntos e muito felizes. O casal passou o final de semana junto (…)’

Aqui se descobre quem substituirá Maradona no strip-tease que não deu certo:

** Enrique Iglesias fará esqui aquático sem roupa para comemorar título da Espanha na Copa

Aqui se revelam os perigos obscuros que o ser humano enfrenta:

** Cachorro dispara arma e acerta nádega do dono

E surgem as autocríticas:

** Casal Beckham admite erros em seus trajes

Revelam-se atos estranhos:

** Nicolas Cage confessa ter comido cogumelos alucinógenos com o gato de estimação

** Gerard Butler usa os dedos para limpar os dentes na rua

Não falta, evidentemente, o frufru propriamente dito. Neste inverno, são notícias excelentes para acompanhar o chá da tarde.

** Luciano Huck posta foto de férias no Twitter

** Amy Winehouse deixa clube de Londres com perna esfolada

** Gisele Bündchen é fotografada com o filho ao deixar médico

** Giovanna Antonelli mostra barrigão e filho mais velho

 

O grande título

Comecemos com um título óbvio:

** Falta de desejo sexual afeta 70% de mulheres na ginecologia do HC

Lá faz um frio desgraçado! E quem vai ter desejo sexual com aquele movimento todo?

Há um título que desmente a frase famosa, ‘a esperança é a última que morre’.

** Site promete herança em próxima vida

O Reincarnation Bank (coisa de americano, é claro) se destina a pessoas que se lembram perfeitamente de vidas passadas e, portanto, acreditam em vidas futuras.

E temos o grande título – embora nele falte um detalhe essencial, que os mais maliciosos com certeza já imaginaram:

** Motociclista é preso no interior de SP com arma escondida nas nádegas

E pensar que este colunista é do tempo em que cueca só servia para roupa de baixo! Nem dinheiro transportava!

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/07/2010 Claudio Silva

    ‘Se for este o caso, alguém precisa informar aos responsáveis pela overdose de noticiário policial que Notícias Populares, esgotado seu modelo, fechou já faz tempo. Outros jornais que, espremidos, deixavam escorrer sangue, ou mudaram (como O Dia, do Rio) ou fecharam.’

    O Brasil é enorme, Brickmann. Nossa realidade paraense – quando se trata de jornais mostrando presuntos , escorrendo sangue das fotos – é de dar dó. Sugiro dar uma olhada, pela net, no jornal do Barbalho, chamado Diário do Pará. Talvez, você mude de ideia quanto ao que escreveu no texto acima.
    http://www.diariodopara.com.br
    Em tempo, o jornal O Liberal , concorrente e dos donos da retransmissora da Rede Globo no Pará, não fica muito atrás neste quesito.

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