Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Dentistas queimados

Por Mauro Malin em 30/05/2013 na edição 748

O repórter Bruno Paes Manso mostrou em sucinta análise, no jornal O Estado de S. Paulo (29/5), que a decisão de um assaltante de queimar um dentista em São José dos Campos, no Vale do Paraíba paulista, não pode ser atribuída a outro fator senão à exploração midiática sensacionalista de crime semelhante ocorrido um mês antes em São Bernardo do Campo, Grande São Paulo, no qual foi morta a dentista Cinthya Magali Moutinho de Souza.

Sob o título “Superexposição de fatos cruéis pode causar contágio”, Paes Manso afirma que, se o primeiro crime pode ser atribuído a algum distúrbio sádico de seu autor, “o segundo já parece ser resultado de uma espécie de contágio”. Esse raciocínio se sustentará mesmo se e quando, descoberto o criminoso, vier a ser constatado que ele tem problemas mentais.

Sociopatas existem desde que o mundo é mundo, e já se queimavam pessoas antes do homem controlar o fogo, mas seria difícil acreditar que houve apenas coincidência. Basta levar em conta que o criminoso atacou o dentista em seu consultório. Ou será um indivíduo tão primário que não sabe o que é um consultório dentário?

Paes Manso, em sua tese de doutorado na USP, procurou entender a lógica das escolhas feitas por matadores. Retomava indagações motivadoras de seu livro O Homem X – Uma reportagem sobre a alma do assassino em São Paulo (2005), subproduto de dissertação de mestrado para a qual entrevistara duas dezenas de assassinos. É, portanto, alguém acostumado a buscar sob a superfície dos fatos nexos ignorados pelo chamado senso comum.

Um mínimo de bom-senso

Nem tudo é sensacionalismo no noticiário brasileiro de faits divers. Existe por exemplo um compromisso tácito de não noticiar suicídios. Sobretudo os praticados por quem possa pretender ampla exposição. “Se déssemos notícias de gente que se suicidou se jogando da Ponte Rio-Niterói ou do alto do Corcovado, já pensou quanta gente iria querer imitar?”, indaga o veterano repórter de polícia Luarlindo Ernesto, do jornal carioca O Dia.

Mas o noticiário propriamente policial jamais é “neutro”. Pode ser aparentemente voltado contra o criminoso, pedindo justiça, mas nenhum brasileiro ignora que o castigo prescrito para os pobres, a prisão, vale como uma condenação à vida em condições subumanas de superlotação, má-alimentação, carência de atendimento médico e judiciário, humilhação, espancamento, tortura e execução. É o que está por trás, no Brasil, do conceito de justiça. Para os pobres.

Nesse contexto prisional surgiram há vinte anos organizações criminosas que hoje dominam a grande maioria dos presídios do país, além de favelas e bairros pobres onde conquistam ou impõem a solidariedade dos moradores. Foi pelo exercício da violência que se impuseram os esquadrões da morte e, mais recentemente, as “milícias”.

Qualquer jornalista, ou “jornalista”, que nas últimas décadas explorou a hediondez de algum crime para fazer sensacionalismo sabe qual é o resultado de sua pretensa indignação: a truculência e o linchamento, ingredientes de um caldo de cultura propício ao uso da violência policial para roubar e matar, eventualmente abrigada sob pretensa capa de “fazer justiça”.

Repórteres não são mais bandidos

Até quarenta e poucos anos atrás, no Rio de Janeiro, repórteres policiais participavam de batidas, assistiam como convidados a violências ilegais – quando não participavam de sessões de espancamento e tortura. E segundo Luarlindo Ernesto, que entrou pela primeira vez numa redação carioca há 55 anos e passou por muitas delas, repórteres de polícia “eram os principais receptores de suborno, que passavam aos chefes”.

Isso mudou de forma radical. Na maior parte dos casos, os repórteres de polícia são não apenas profissionais honestos e competentes como cidadãos conscientes de seu papel na sociedade. Basta verificar quantos, em grandes centros, foram obrigados a passar temporadas exilados ou escondidos, após ameaças de bandidos e de policiais-bandidos. E, pior: quantos foram assassinados em cidades menores. 

Questionar a espetacularização

Mas mesmo os bons repórteres dificilmente podem fugir do sensacionalismo apelativo que contaminou editores de jornais ditos de qualidade depois que a TV Globo, após o advento no SBT do Aqui Agora, se deixou infectar. A emissora hoje trilha geralmente um caminho mais sóbrio, mas não abre mão de rechear seus jornais de crimes e desgraças.

Foi o mais importante meio de comunicação brasileiro a dar com grande destaque, em tom de alarme e indignada consternação, o assassinato da dentista Cinthya. Imagine-se o tom com que o Brasil Urgente, da Band, e similares abordaram o caso.

Talvez esteja na hora de, mais uma vez, fazer nas redações sérias uma rodada de reflexão sobre a difícil demarcação de limites entre noticiar e assustar, entre noticiar e espetacularizar, entre noticiar um crime horrível e martelar um crime horrível. Será que o assassino da escola de Realengo, no Rio, chegou por geração espontânea à modalidade que escolheu?  

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