Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIRCO DA NOTíCIA > ENTREVISTA / PAUL SINGER

Economia, cultura e comunicação em vias democráticas

Por Ana Rita Marini em 20/11/2007 na edição 460

O Brasil vive um período de criatividade máxima na cultura. Porém, no campo político, é urgente que ocorra a democratização da comunicação. ‘Para que as diferentes idéias, correntes e ideologias tenham seu espaço’, defende o economista Paul Singer, endossando uma causa que tem muito a ver com suas bandeiras, seu histórico militante pela política brasileira.

Paul Singer é atualmente o Secretário Nacional de Economia Solidária. Intelectual, formulador de políticas sociais, com extensa obra e vida acadêmica, sua área de atuação principal é a economia. Recentemente, participou do encontro Teia 2007, em Belo Horizonte, onde, segundo declara, esteve debatendo pela primeira vez a diversidade cultural. ‘Gostei do tema e da discussão’, afirma, confessando-se bastante atraído pelo assunto e declarando que o país vive um momento de criatividade máxima.

Singer confessa forte identificação com a luta pela democratização da comunicação. É favorável à existência das rádios comunitárias e torce para que a nova TV pública brasileira seja um espaço representativo de diferentes pontos de vista. O economista conversou com o FNDC, para a revista MídiaComDemocracia, sobre a diversidade cultural e a democratização da comunicação. O e-Fórum publica, a seguir, a íntegra da entrevista.

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Qual seria, hoje, para o senhor, um conceito de cultura?

Paul Singer – Eu uso um conceito clássico da antropologia, que é o de que culturas são as formas das diferentes comunidades humanas escolherem valores. A cultura parte de valores, do que se valoriza. Aí entra tudo: o que se valoriza em termos de relação entre gêneros, em relações entre grupos etários, o que se valoriza em termos políticos. Cultura cobre tudo. É, no fundo, um sistema de valores que se manifesta através da arte, da ciência, em diferentes e múltiplas formas de expressão.

E um conceito para diversidade cultural?

P.S. – Eu entendo, sem ser especialista no assunto, que a diversidade cultural é o reconhecimento ao direito de existência de todas as culturas. Isto é uma aspiração humana há muito tempo, que enfrentou e ainda enfrenta enorme antagonismo e intolerância, sobretudo em relação às chamadas minorias. As culturas das minorias são, em geral, reprimidas, perseguidas. Na Segunda Guerra Mundial, Hitler ‘limpou’, segundo justificativa dele, a Europa dos judeus, dos ciganos e dos homossexuais. Essa limpeza étnica é exatamente o contrário da diversidade na cultura. Ele tentou – o máximo que ele podia – eliminar a diversidade através do genocídio, e deixar uma cultura só, que seria a ‘cultura superior’, com mão única.

Em função da vitória sobre o nazi-facismo, essa tremenda experiência traumática de milhões e milhões de pessoas trucidadas pela sua cultura étnica, nós acabamos com o colonialismo (que já foi uma proeza, porque até o fim da Segunda Guerra Mundial a grande maioria dos povos era colonizado). Uma resolução da ONU, ao ser fundada, foi de que não haveria mais colônia no mundo, e isso acabou se cumprindo efetivamente, com a eliminação total do colonialismo. Existe ainda um ou outro território, mas é marginal. Como conseqüência da descolonização, vem a diversidade cultural, quer dizer, esses povos se tornaram nações soberanas. Existem muitas culturas, e elas têm o mesmo direito à existência. Essa é a idéia.

Outros fatores também influenciaram para que umas culturas se sobrepusessem a outras.

P.S. – Isso é uma luta contínua, ainda não está ganha por inteiro. Eu diria que o momento histórico atual é provavelmente o primeiro na história da humanidade em que predomina, ao menos, o reconhecimento de todas as culturas. E também a noção de que as culturas são diferentes – daí a diversidade – mas não há classificação em cultura superior, inferior, cultura de rico, cultura de pobre, cultura clássica, acadêmica, cultura popular. O que se valoriza, hoje, é a interação de todas. Sua presença mútua no mesmo espaço geográfico, nacional, cria sincretismos e inclusive novas culturas, inspiradas nas já existentes.

Essa diversidade que o senhor diz ser mais possível hoje sofre, naturalmente, a influência da tecnologia e da economia. Como as culturas sobrevivem a isso?

P.S. – Os avanços tecnológicos, em princípio, não põem em risco as culturas em si mesmas. Elas se aproveitam deles. Hoje temos a internet, uma facilidade enorme de comunicação. As culturas todas participam desse novo mundo. Agora, tem culturas que estão em vias de desaparecimento por assimilação, outras estão nascendo, e muitas estão se unindo e dando origem a novas culturas, que são sincréticas. Não é uma área de minha especialidade, mas como observador eu noto isto. Infelizmente, fiquei muito impressionado por um trabalho que saiu no The Economist (leia aqui), recentemente, sobre que nós estamos entrando numa era de guerras de religião. Tem a ver com este assunto.

Então vamos falar sobre isso…

P.S. – A matéria é extensa e, até onde eu li, o assunto é assustador. Houve uma época que se imaginou que a secularização acabaria com as religiões. Mas está acontecendo o contrário. Na segunda metade do século 20, as religiões que estão mais ou menos recenseadas – o muçulmanismo, o cristianismo o budismo e o hinduísmo, essas grandes religiões – cresceram novamente em parte da população mundial. Hoje, a estimativa é de que 73% da humanidade se filiam a um desses quatro troncos religiosos. São troncos porque na religião cristã tem muitas religiões, na muçulmana também (os xiitas, os sunitas…).

Mas, de qualquer forma, a religiosidade está aumentando. A essência da matéria é de que mais pessoas se tornam religiosas e que a influência política da religião cresceu muito. Principalmente nos países muçulmanos, há um auge de partidos religiosos, confessionais, cuja plataforma é a Lei Fundamentalista muçulmana. Mas nós notamos isso também nos países cristãos. O lado negativo em tudo isso é que o antagonismo entre as religiões aumentou. As guerras religiosas estão se multiplicando pelo mundo, o que é lamentável. O Brasil é citado no estudo como um país em que houve uma enorme extensão do evangelismo.

A diversidade cultural tem muito a ver com religião. A cultura se compõe de valores, assim como a religião. O que distingue as religiões entre si são os valores, ou pelo menos como eles são apresentados. Na minha opinião, os valores fundamentais, pelo menos nas grandes religiões universais, são muito semelhantes, quando não são iguais. Inclusive a religião muçulmana é descendente (por ela mesmo admitido) do judaísmo e do cristianismo. Também no budismo, até onde eu acompanho, os valores básicos são os mesmos: paz entre os homens, amai-vos uns aos outros, não faz aos outros o que não quer que te façam. E eles deveriam levar à diversidade, que significa respeito ao diferente. Mas infelizmente, pelo menos a tendência atual, não parece ser esta.

As grandes questões econômicas influenciam?

P.S. – A mim, parece que as guerras religiosas que vivenciamos hoje pelo mundo não têm nada a ver com economia. Pelo contrário, economicamente racional seria parar de ter guerras, porque elas empobrecem os países. Elas levam décadas, gerações. O único efeito econômico é negativo.

Uma observação: o Brasil aparece no mapa das guerras religiosas dessa matéria do The Economist como um continente em branco, ou seja, nenhuma guerra. O Brasil não tem guerra religiosa, condena legalmente o racismo, que está na origem deste tipo de conflito. Eu sou felicíssimo de ser brasileiro – eu sou naturalizado, e acho que Deus me trouxe para cá porque acho que é aqui que eu quero viver e morrer. Não é uma maravilha, nós sabemos, há grandes injustiças, mas não estamos nos degolando por diferenças teológicas.

Por outro lado, temos o problema da concentração dos meios de comunicação no Brasil. Quando convivemos com o oligopólio nas comunicações, temos dificuldade de colocar todas as culturas presentes nos meios, democraticamente.

P.S. – No mundo de hoje, em quase todos os países, a comunicação é um negócio. Um negócio capitalista, onde a concentração de capital é bastante forte. No Brasil, a Globo é o mais perfeito exemplo dessa concentração do capital na área de comunicação. A motivação é fundamentalmente econômica. A Globo não representa nenhuma cultura em particular, veicula as culturas que dão retorno econômico ao capital que ela investe. Faz pesquisa incessantemente, porque está disputando mercado. E provavelmente as outras emissoras estão fazendo a mesma coisa. Tudo o que se está vendo não impede a diversidade cultural, porque eles não têm preconceito. Agora, ela [a Globo] impede totalmente a diversidade política. Aí sim eu estou com vocês [FNDC]. É preciso democratizar mesmo, mas é por motivos políticos, é preciso ter um panorama de comunicação em que as diferentes idéias, correntes, ideologias tenham seu espaço.

Eu sou a favor das rádios comunitárias. Espero que essa TV pública que o presidente Lula está estabelecendo seja um espaço democrático, em que diferentes pontos de vista estarão devidamente contemplados. Mas, em termos de cultura, eu acho que tanto as telenovelas quanto os outros programas, mesmo os da Globo, são bastante abertos. Porque, para eles, o que interessa é o retorno financeiro.

O FNDC entende que a comunicação, o direito à informação, é um direito essencial assim como a saúde, a água, a educação. No Brasil, apesar da integração que a TV possibilitou, os oligopólios de mídia não colaboram no sentido de uma comunicação mais democrática. Qual seria uma relação entre a democratização da comunicação e a economia no Brasil?

P.S. – A comunicação, principalmente através da televisão, que é hoje a mídia principal, está muito concentrada, desigual. Isto se explica por razões, a meu ver, principalmente econômicas. As produções são muito caras. Há décadas, a Globo tem uma preponderância muito grande. Agora está mudando, com a internet praticamente competindo com a televisão, só que mais uma vez, também, o computador não é acessível a todos. De qualquer forma, tudo isso está em processo de mudança. Do ponto de vista político, urge uma democratização, como vocês [FNDC] pretendem, para que a consciência do eleitor brasileiro realmente avance através do usufruto das comunicações públicas.

O que eu posso dizer, como brasileiro que vive a cultura do país, é que há um momento de criatividade máxima do país, em todos os campos, inclusive na religião. Todos os dias nasce uma religião nova, sobretudo aqui em Brasília, onde eu estou, que parece que é um centro dos sincretismos. Isso é uma coisa boa, em si, porque é o testemunho de que há liberdade cultural.

Recentemente eu estive na Teia Cultural 2007, a exposição que eu vi dos pontos de cultura foi maravilhosa. Também a Feira de Economia Solidária apresentada lá tinha uma qualidade de produtos muito boa. Eu estou bastante entusiasmado com o que está acontecendo com a cultura brasileira em diversificação. A Economia Solidária, que no momento é minha principal responsabilidade, contribui positivamente para isso, porque dá o suporte econômico para a cultura, que precisa ser financiada, em última análise, como uma atividade humana.

O Ministério da Cultura criou os Pontos de Cultura. Tem 640 Pontos de Cultura, que são grupos comunitários fazendo algum tipo de cultura com o subsídio do governo federal. E eles se profissionalizam. É uma forma de que jovens de áreas pobres, da periferia das nossas metrópoles, em vez de ir para o crime, possam se inserir de forma digna na nossa economia.

A Economia Solidária foi alavancada neste governo.

P.S. – Inclusive a Secretaria pela qual eu sou responsável foi criada neste governo.

Dá para fazer um paralelo entre Economia Solidária e Democratização da Comunicação?

P.S. – Tem tudo a ver. O que vocês [FNDC] estão demandando quanto à Comunicação, nós estamos demandando quanto à Economia. Por exemplo, a [Rede] Globo, na Economia, representa o capitalismo. Em termos de quantidade, o capitalismo não absorve, no Brasil, a maior parte da população que precisa trabalhar, o capitalismo domina totalmente em termos de recursos, dos mercados. Então, nós estamos lutando por outras formas de economia. A economia solidária é exatamente o avesso do capitalismo. É tudo feito coletivamente, para que tenha também chance de participar dos mercados, ter acesso a crédito, tecnologia. Isto está acontecendo e eu estou bastante otimista.

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Paul Singer é economista, um dos mais conceituados intelectuais do Brasil, onde desenvolve intensa militância política há mais de 50 anos. Brasileiro naturalizado, nasceu na Áustria há 75 anos. Possui extensa carreira acadêmica e começou como docente em 1966. Desde 1984 é professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. Foi secretário de Planejamento paulistano na gestão de Luiza Erundina (1899-1992). Atualmente é Secretário Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho. Tem diversos livros publicados, entre eles Introdução à economia solidária (2002), Uma utopia militante: repensando o socialismo (1998), Para entender o mundo financeiro (2000) e Globalização e desemprego: diagnóstico e alternativas (1998).

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Da Redação FNDC

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