Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIRCO DA NOTíCIA > SEGURANÇA PÚBLICA

Brincando de polícia e bandido

Por Carlos Brickmann em 26/06/2012 na edição 700

Arrastão? Imagine! Isso não existe! Aqueles grupos que entram em restaurantes e bares paulistanos e roubam todos os clientes não estão fazendo arrastão. Este colunista ouviu uma autoridade policial, de cujo nome não lembra nem faz questão de lembrar, explicar isso num programa de rádio. Parece que arrastão, para a sumidade policial, é um crime em que as pessoas são assaltadas em série, como numa praia, não em bloco, como num restaurante. E deste crime, ainda bem!, São Paulo está livre.

Um ótimo repórter da Rádio Bandeirantes SP, Agostinho Teixeira, descobriu que a dinamite utilizada para explodir caixas eletrônicos em São Paulo era negociada por um presidiário de Fortaleza. Telefonou para ele, no presídio, informou-se sobre as condições da encomenda, gravou tudo. E daí? E daí, caro colega, nada. A batalha interna pelo poder na Segurança Pública paulista consome tempo e é mais importante. Além disso, trabalhar cansa, dá estresse.

Um radialista de São José dos Campos, SP, que move campanha contra os caça-níqueis, sofreu um atentado a bala no meio da rua. O atentado foi filmado por câmeras de vários prédios e lojas. Mas não foi possível localizar o atirador: imagine o caro colega que o safado, sem-vergonha, não deixou RG nem endereço nem telefone onde encontrá-lo. Como é que querem que ele seja identificado e preso?

E, como diria Chico Buarque, a festa continua. O excelente repórter Fábio Pannunzio publicou em seu blogque o secretário da Segurança do estado, Antônio Ferreira Pinto, afastou o delegado Carlos Arezio Biondi, que comandava o inquérito em que ele, Pannunzio, mais dois consagrados jornalistas da Rede Bandeirantes – o diretor de Jornalismo, Fernando Mitre, e o repórter Sandro Barbosa – são citados por ofensa à honra do coronel Telhada, ex-comandante da Rota, a letal tropa de choque da Polícia Militar paulista. Motivo: o delegado Biondi não via motivo para processá-los. As investigações de Pannunzio mostram possíveis causas dos seguidos assassínios de policiais militares em São Paulo.

Em vez de concentrar todos os seus esforços na luta contra o crime – os arrastões, as chacinas, a venda de explosivos, o assassínio de PMs – o comando da segurança pública paulista dispersa energia no combate a repórteres que apontam falhas na ação da polícia. Em vez de aproveitar as informações para sanar as falhas, persegue-se quem as descobre e divulga.

Quem manda querer trabalhar e, assim, arrumar trabalho para os outros?

 

Quem duvidar que duvide

Três homens armados invadiram uma academia de artes marciais em São Paulo. Deram algo como 15 tiros, atingindo quatro vezes e matando um PM que ali dava aulas. Não atiraram em mais ninguém: houve mais um ferido, mas por estilhaços. Nada roubaram. E a polícia não soube informar se houve um assalto ou um assassínio deliberado (a que chamam, como se fosse uma sentença legal, de “execução”). Há dúvida possível?

 

E são vizinhos!

O impeachment do presidente paraguaio Fernando Lugo mostrou dois fatos importantes: primeiro, que ele já não tinha qualquer apoio político para governar (apenas um deputado e seis senadores, num total de 120 parlamentares, ficaram a seu lado); segundo, que governo e meios de comunicação do Brasil não têm a menor ideia do que acontece num país vizinho onde vivem 400 mil brasileiros e descendentes, hostilizados com frequência por movimentos políticos radicais, e dono de metade da hidrelétrica de Itaipu, responsável por boa parte da eletricidade que utilizamos.

O governo, vá lá: está preocupado com coisas realmente importantes de sua política externa, como enviar suas equipes de especialistas para ajudar el compañero Hugo Chávez, aquele que deu o calote na construção da refinaria Abreu e Lima, nas próximas eleições venezuelanas; mas nossos meios de comunicação, por que levaram essa bola nas costas? Imaginarão que o Paraguai se resume à Ciudad del Este e aos sacoleiros que buscam eletrônicos para vender em lojas de produtos contrabandeados, onde la garantía soy yo, ou às porosas fronteiras onde o narcotráfico desafia tanto a soberania paraguaia quanto a brasileira?

De repente, o consumidor brasileiro de informações descobre que, a seu lado, um país estrategicamente importante está em crise política profunda e que daí a algumas horas seu presidente pode ser legalmente afastado – e é.

Há alguns anos, um importante editor-proprietário de revistas disse a este a colunista que o leitor brasileiro não gostava de noticiário internacional na capa; e, se o noticiário fosse latino-americano, haveria encalhe na certa. Pode ser, mas não é preciso exagerar na abstinência de informações.

 

Quem paga?

Grandes jornais cobrem a inauguração do primeiro trecho pronto do canal de transposição do rio São Francisco, entregue pelo Exército. Duas dúvidas:

1.É missão do Exército supervisionar obras, exceto talvez em emergências? Certamente não falta competência às Forças Armadas, mas estará a construção civil entre suas atribuições específicas?

2.Por que órgãos de imprensa são convidados (e, portanto, recebem passagem e hospedagem) do Exército? É missão dos veículos de comunicação informar seu público quando uma obra importante é realizada, sem necessidade de pagamento extra para isso. Cabe aos meios de comunicação arcar com suas despesas. Quanto às Forças Armadas, o que se sabe é que seus orçamentos são exíguos, insuficientes, inadequados. É correto transferir parte deles, mesmo pequena, para veículos economicamente saudáveis?

 

Amigos para sempre

A já famosa foto de Lula, Paulo Maluf e Fernando Haddad, nos jardins do palacete de Maluf, teve consequências políticas: deixou à mostra algumas cisões no PT, levou a ex-prefeita Luíza Erundina a desistir de ser vice de Haddad, criou um problema sério para seu partido, o PSB: tirando ela própria e alguns de seus amigos, que não poderiam aceitar o cargo sem afrontá-la, o grosso do partido não tem o menor interesse em lutar pelo candidato do PT. O PSB paulista é ligadíssimo ao governador Geraldo Alckmin, do PSDB, de cuja administração até agora participou; e ao prefeito Gilberto Kassab, hoje o mais serrista dos serristas, que lidera o PSD e tem fortes vínculos com o presidente nacional socialista, o governador Eduardo Campos.

Mas o importante, no caso, não é isso. A imprensa serviu de caixa de ressonância para quem rejeitava a aliança – como se a aliança fosse uma surpresa. Não, não era: já em 2004, faz oito anos, Maluf apoiou a petista Marta Suplicy no segundo turno. Maluf e seu PP fazem parte do governo federal (Severino Cavalcanti, velho de guerra PP, foi quem exigiu da Petrobras “a diretoria que fura poço”). O PP apoiou Dilma contra Serra. Lula, quando presidente, cumulou Maluf de gentilezas em reuniões públicas, Ana Amélia, senadora do PP gaúcho, é a principal apoiadora da deputada Manuela d’Ávila, do PCdoB, na disputa pela prefeitura de Porto Alegre. Mais base do governo, impossível. A propósito, a deputada federal Luíza Erundina sabia de tudo isso. Definitivamente, ela não mora em Marte. Ela só não esperava que a ligação de sua chapa com o malufismo ficasse tão escancarada para o eleitorado. Aliança na penumbra, vá lá; à luz do Sol, não.

Tudo bem, uma foto dramatiza tudo em nosso Estado-espetáculo. Mas a imprensa e os políticos não podem fingir que de nada sabiam até o momento em que a foto foi publicada. Sabiam, sim; e fingir a indignação que agora fingem serve apenas para propósitos eleitorais, de um lado ou de outro. Para os políticos, vá lá; mas a imprensa não pode embarcar nessa canoa furada de enganar quem nela acredita.

 

Sabedoria popular

Pouco mais de um minuto e meio de propaganda, que é o que a aliança com Maluf traz à candidatura petista, é um reforço interessante. Mas a aliança em si, esquecendo-se o tempo de TV, é bem menos útil. O eleitorado enxerga algumas coisas que a elite política preferiria que fossem invisíveis.

Em 1994, Maluf foi buscar no PTB o deputado Luiz Antônio Medeiros, seu velho adversário, que disputava com Lula a liderança do movimento sindical, e lançou-o como candidato a governador. Certo dia, numa visita a bairros distantes, alguns funcionários da agência que fazia a propaganda de Medeiros se misturaram à multidão. Algumas frases que ouviram:

– Ué, que é que o Malufão está fazendo com esse cara do Lula?

– Ele está enganando o pessoal do PT, para ganhar o voto deles. Mas não é pra gente votar nesse cara, não.

Medeiros não decolou. E o vitorioso nas eleições foi Mário Covas, iniciando a série de governadores tucanos de São Paulo que perdura até hoje.

 

Faz falta

Ainda adolescente, ele foi partisan na Hungria – daquele grupo armado que resistiu à ocupação nazista. Depois, resistiu à ocupação do país pelos comunistas, e teve de fugir. Morou em Roma, onde foi residente e domiciliado no Coliseu (logo depois da guerra, o acesso à parte interna das ruínas de construções romanas era ainda possível). Mais tarde, formou-se em Química na Universidade de Marburgo, na Alemanha, aprendeu óptica, viveu na Bolívia, acabou no Brasil (aliás, não sabia direito a data em que chegou: perdeu-se na floresta, em território boliviano, e foi encontrado às margens do rio Guaporé, no Brasil. Cruzou a fronteira no fim de um ano ou no começo de outro, quem vai descobrir?).

Chegou ao cinema pela óptica: foi um dos fundadores do Laboratório Líder, o primeiro no país a processar filmes coloridos. Teve passagem brilhante pela publicidade, na Espiral (ali foi feito para a Valisère, por exemplo, o comercial do “primeiro sutiã”); seu filme A Compadecida foi considerado uma obra-prima pelo grande Ariano Suassuna, autor da peça que lhe serviu de base, O Auto da Compadecida. E conseguiu uma façanha: uniu esquerda e direita, na época da ditadura, contra seu filme. Católicos mais radicais não aguentavam Zózimo Bulbul, o excelente ator negro, como Jesus Cristo (Nossa Senhora era Regina Duarte). O pessoal do Cinema Novo não o aceitava, pois o filme nada tinha a ver com cinema novo; a esquerda não gostava dele, porque tinha lutado contra os comunistas pela liberdade da Hungria. As senhoras dos generais no poder, carolas e ultraconservadoras, se escandalizavam com o Cristo negro, e os generais, na época em que o marechal Costa e Silva exercia a ditadura e seu ministro da Justiça era o professor Gama e Silva, queriam simplesmente proibir o filme.

Enfim, foi sempre um homem amável, inteligente, generoso, com o insuperável defeito de não pertencer a facções políticas numa época de radicalismo total. Até sua maneira de falar era única: fluente em português, ele concordava o artigo com o adjetivo e ambos discordavam do substantivo (era “um menina bonito”, “uma boa filme”). Bom de marketing, quando sentia que estava perdendo o sotaque ia passar alguns meses na Hungria. “No Brasil”, ensinava, “uma pessoa com sotaque estrangeiro é mais bem considerada.”

George Jonas, o personagem acima, o mais brasileiro dos húngaros, o mais cosmopolita dos brasileiros, morreu na semana passada, com pouco mais de 80 anos. Foi casado com uma das mais brilhantes diretoras executivas de cinema do país, a excelente publicitária Rosa Passos Jonas, da primeira equipe que organizou a TV Cultura de São Paulo; deixa duas filhas talentosas, Cynthia e Sandra. Deixa admiradores por onde passou. E, em muito maior quantidade, como no caso deste colunista, deixa amigos.

 

Nossa história

O autor é notável: Said Farhat, publicitário, editor, ministro da Comunicação do governo do general João Figueiredo (1979-1985). Um homem que sabe das coisas e conta parte delas no livro Tempo de Gangorra, lançado na terça (26/6), na Livraria da Vila da Alameda Lorena, SP, a partir das 19h. Farhat fala especialmente da política brasileira de 1960 a 1985, contando bastidores do período militar e do retorno do país ao governo civil. Tem de ser lido, obrigatoriamente, por quem quer que queira saber os fatos como os fatos foram, narrados por um observador inteligente e capaz de descrevê-los no contexto em que ocorreram. “Conto só o que vi com meus próprios olhos e ouvidos, e o que me foi dito em confidência”, garante Farhat.

Said Farhat é hoje conselheiro da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

 

O Brasil, lido

Na quinta-feira (28/6), a partir das 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, SP, outra obra que merece atenção: Era uma vez, mil vezes, de Gaudêncio Torquato. O subtítulo do livro diz tudo: Brasil de todos os vícios.

Não vale a pena perder – inclusive porque a noite de autógrafos de Gaudêncio Torquato, jornalista de amplo relacionamento, será com certeza recheada de gente conhecida e importante.

 

Como é o nome dele?

Num grande jornal, noticiando a troca de comando na Gol. Uma vez no texto, uma na legenda da foto, o novo chefe se chama “Sérgio Luís Kakinoff”. No texto, uma vez, “Paulo Sérgio Kakinoff”. No subtítulo, uma vez, “Paulo Kakinoff”.

Uma das versões certamente está correta. Este colunista aposta em Paulo Sérgio Kakinoff.

 

Como…

De um grande portal noticioso:

** “Cristiano Ronaldo tem o sonho de bater Messi e ser voltar a ser o melhor do mundo”

Cristiano Ronaldo quer ser voltar a ser. O redator só tem a vontade de cair fora logo, sem ter muito trabalho com os chatos dos leitores.

 

…é…

De um grande jornal, falando sobre a foto Maldadd (Maluf e Haddad):

** “1992 – Maluf vence Eduardo Suplicy por 58,1% a 48,9%”

Isso é que é eleição disputada: votaram 107% dos eleitores, fora os brancos e nulos.

 

…mesmo?

De vários jornais e portais, mostrando como nóis deve iscrevê:

** “Depois de expulsão, reações de Fabiano preocupa”

** “488 milhões de pessoas acessa o Facebook (…)”

** “(…) chamar a população pra vim discutir o Mensalão”

 

Mundo, mundo

A reportagem é sobre um jogador americano de basquete que, sem chances de chegar à seleção de lá, acabou aceitando um convite do Brasil para integrar a seleção olímpica. E, como é praxe hoje em dia, já beijou o distintivo em público, fez sinaizinhos de coração com a mão, disse que já se sentia “borazileirow”.

E deu entrevista:

P – “O que o faz sentir-se brasileiro?”

R – “Gosto de pagode, feijoada, picanha e caipirinha. E já aprendi quase metade do Hino Nacional. Até a Olim­pía­da, já saberei cantar direitinho.”

Atingiu o estágio da maior parte dos jogadores profissionais brasileiros, que ouvem o Hino Nacional pelo menos duas vezes por semana. Alguns deles parece que já aprenderam quase metade.

 

E eu com isso?

Engraçado, né? O pessoal da imprensa frufru convive o tempo todo com artistas, com gente de mentalidade aberta, de comportamento não tão convencional, mas continua de um conservadorismo talibânico:

** “Namorada de Cristiano Ronaldo mostra demais em clipe sensual”

** “Ex-panicat pula a cerca e revela mais do que deve”

** “Que flagra! Miley Cyrus é flagrada sem calcinha”

** “Mila Kunis chama atenção com transparência em première”

** “Vera Fischer se exercitou pela orla da praia do Leblon”

** “Príncipe William ganha relógio de Kate”

** “Galãs de Rebelde matam a fome entre as gravações”

** “Madonna passeia com o namorado em Istambul”

** “A atriz Fernanda Montenegro faz visita em hotel e surpreende jovens aprendizes”

** “Daniele Winits leva filhos a espetáculo de patinação”

 

O grande título

Coisa boa: o autor tem uma ideia e, a partir dela, constrói sua frase. Se os fatos não estiverem corretos, pior para os fatos.

Saiu num grande jornal, que aconselha Neymar a ficar no Brasil, por considerar desnecessário jogar na Europa para ser eleito o melhor do mundo:

** “George Weah um dia foi eleito o melhor do mundo”

É verdade: em 1995, o liberiano George Weah, que jogava no Milan, foi escolhido o melhor do mundo. Antes de ir para o Milan, passou uns cinco anos no Paris St-Germain, hoje mais conhecido como PSG. Na época, tanto Milão quanto Paris ficavam na Europa.

E há um título que pode provocar mil perguntas:

** “Após anunciar separação, Daniel de Oliveira completa 35 anos”

Se continuasse casado, quantos anos completaria o ator?

***

[Carlos Brickmann é jornalista e diretor da Brickmann&Associados]

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