Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > SOBRE A INTOLERÂNCIA

Racismo grosso, racismo chique

Por Carlos Brickmann em 21/08/2012 na edição 708

Há quem diga que é liberdade de imprensa. Este colunista acha que é racismo puro e simples. Basta tocar em qualquer tema que envolva pessoas de determinada crença, orientação sexual ou etnia, abrem-se as comportas do esgoto: insultos normalmente protegidos pelo anonimato contra negros, judeus, nordestinos, homossexuais, em espaços generosamente abertos por jornalistas ou veículos de informação que se consideram to-tal-men-te tolerantes. É até provável que não compartilhem do racismo, mas abrem seus espaços para os racistas e os protegem ao aceitar que façam comentários anônimos.

Em seu excelente blog sobre política internacional, o jornalista Gustavo Chacra adota uma posição clara – e rigorosamente correta – sobre os comentários às suas notas:

“Comentários islamofóbicos, antissemitas e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista.”

As normas expostas por Gustavo Chacra abrem espaço para manifestação educada de quaisquer opiniões sobre os temas abordados. Não é preciso ser grosseiro ou insultuoso para que seus argumentos sejam vistos e levados em conta.

Os comentários são uma excelente oportunidade para que todos, e não apenas os detentores do espaço editorial, exponham suas opiniões. Não devem servir para que os intolerantes exponham seus preconceitos e sua falta de educação. Abrir espaço para incitação à intolerância não é servir à liberdade de imprensa: é tão grave quanto incitá-la pessoalmente.

E aí chegamos às páginas impressas, que há muitos anos tinham reduzido drasticamente as manifestações de racismo e intolerância em geral. Uma coluna, abordando opiniões de mulheres ricas sobre o mensalão, escorrega perigosamente, divulgando teses de algumas entrevistadas como a de que nordestinos devem ficar em seu estado natal, sem ousar morar em São Paulo. É curioso: o lendário Tavares de Miranda, por muitos anos dono da principal coluna social de São Paulo, era pernambucano. Um dos grandes repórteres de São Paulo, que acaba de ser merecidamente homenageado em seu 80º aniversário e continua em grande atividade, é o alagoano Audálio Dantas. Samuel Wainer, que sacudiu o jornalismo brasileiro com Última Hora e manteve por anos uma das principais colunas da Folha de S.Paulo, veio da Bessarábia, muito mais distante que o Nordeste. Um dos julgados no caso do mensalão, já com um voto pela condenação, saiu de São Paulo para envolver-se com problemas em Brasília. E se Barack Obama tivesse ficado lá nos fuuuuuuuuundos do Havaí, onde nasceu, evitando ir para Harvard, onde estudou, e para Illinois, onde se elegeu senador?

E, por favor, não vamos usar o argumento de que as pessoas falaram, e pronto. Jornalista não é gravador. E uma boa parte do que as pessoas falam não vai para o texto escrito – por ser redundante, por linguagem inadequada, por estar fora do foco da matéria. A intolerância tem de ser combatida, não divulgada. E, se os jornalistas não combaterem a intolerância, eles que tanto são vítimas dos intolerantes, quem é que o fará?

 

O herói anti-herói

Julian Assange é um herói, gostemos ou não dele: com o Wikileaks, ousou desafiar estruturas até então inatingíveis. Julian Assange é um anti-herói: está fugindo de um processo por violência sexual que lhe é movido num país onde a Justiça tem longa tradição de apego à lei e de liberalidade. Julian Assange é um jornalista importante, que foi buscar informes onde eles existiam; Julian Assange não chega a ser um jornalista, porque não checou os informes, não os trabalhou, limitou-se apenas a distribuí-los. Ele é tudo, de bom e de mau, ao mesmo tempo.

E agora? Agora que o Equador lhe concedeu asilo político, não cabe a outras nações discutir o assunto. Está asilado e acabou. Quando o cardeal húngaro Joseph Mindszenty se asilou na embaixada americana em Budapeste, após a invasão soviética de 1956, Moscou o considerava um criminoso, mas respeitou o direito de asilo. Quando o general Humberto Delgado, líder da oposição portuguesa, pediu asilo ao Brasil, a ditadura do primeiro-ministro Oliveira Salazar o considerava um criminoso, mas respeitou o direito de asilo. Quem decide se o asilo é adequado e correto é o país que o concede, e não qualquer outro Estado.

Talvez Assange enfrente ainda algumas chateações – por exemplo, se não receber salvo-conduto para sair do país, ficará confinado ao prédio da embaixada equatoriana em Londres. Mas ali não correrá risco algum de prisão ou extradição.

Quanto à declaração de um funcionário do governo britânico que criou o temor de um eventual ataque à embaixada do Equador no Reino Unido, vamos esquecê-la: quem a fez foi um idiota fundamental. Se o governo de Sua Majestade estivesse efetivamente pensando em invadir uma embaixada, jamais o diria. Pode haver uma pilha de leis autorizando o governo britânico a violar o estatuto da extraterritorialidade, mas não têm validade internacional. E, se o governo britânico invadisse território equatoriano (e a embaixada o é), quem defenderia as embaixadas britânicas espalhadas pelo mundo?

 

O limite do erro

O grande Frederico Branco, por muitos anos um dos pilares do Estadão e do Jornal da Tarde, cunhou uma frase definitiva: “Tem coisa que pode e tem coisa que não pode”. Português coloquial, como o da frase de Frederico Branco (e de Carlos Drummond de Andrade, “no meio do caminho tinha uma pedra”), é coisa que pode. Erro de português no folheto de um ex-ministro da Educação é coisa que não pode. E há um santinho de propaganda do ex-ministro da Educação Fernando Haddad que é um prato cheio – a começar por ter levado a sério o nome “santinho”, e fazer-se fotografar como se santo fosse, com luz dourada ao fundo e ar beatífico, faltando apenas a auréola, que talvez não tenha sido colocada para não prejudicar o corte e o penteado feitos pelo festejado cabeleireiro Celso Kamura, o mesmo de Marta Suplicy e da presidente Dilma Rousseff.

Haddad, hoje candidato a prefeito de São Paulo pelo PT, tem antecedentes: um livro editado por seu ministério, por exemplo, tinha erros de aritmética. Pois bem: no santinho, Haddad é apontado como “criador do novo Enem” (aquele que não funcionou nenhuma vez durante sua gestão) e como “o melhor ministro da Educação dos últimos 40 anos” (ou seja, em sua opinião, bom como ele só o coronel Jarbas Passarinho, ministro da Educação em 1972, na ditadura militar, sendo presidente o general Emílio Médici).

O melhor ministro da Educação desde o coronel Jarbas Passarinho se refere aos campi universitários como “câmpus” – assim, com acento circunflexo no “a”. Acontece que campus é latim, e em latim não há circunflexo.

Há quem procure aportuguesar a palavra e acentue “câmpus”. É legítimo; com o tempo, palavras de outras línguas tendem a ser nacionalizadas – como football, ou goal; e até, como penalty, ganham seu circunflexo. Mas acontece que o plural de campus não é campus, apesar do “s” no final: é campi, também sem acento circunflexo (para facilitar o entendimento de Sua Excelência, acento circunflexo é o chapeuzinho). Muita gente pode cometer o erro sem problemas, mas não um ex-ministro da Educação que, ainda por cima, se apresenta como “o melhor ministro da Educação” desde o coronel Jarbas Passarinho (autor de uma frase imortal, ao assinar o Ato Institucional nº 5, que implantou a ditadura escancarada no país: “Às favas os escrúpulos”).

Errar muita gente erra, e sem problemas. Mas um médico não vai chamar o fígado de “figo”, um advogado não vai escrever “hábeas córpus” em vez de habeas corpus. E o melhor ministro da Educação desde os tempos do presidente Médici poderia pelo menos mandar alguém cuidar do texto em seus folhetos de candidato à prefeitura paulistana.

 

Não perde o vício

Nelson Mandela, que comandou a transição da África do Sul do regime de segregação racial para a democracia, é um político notável: mesmo tendo sido vítima dos segregacionistas, mesmo tendo passado muitos anos na prisão, evitou a vingança e promoveu ao máximo a integração étnica em seu país.

Infelizmente, Mandela não está mais no comando. E, sob o presidente Jacob Zuma, velhos hábitos voltaram a atormentar a República Sul-Africana – por exemplo, a facilidade com que a polícia reprime a bala qualquer tipo de protesto. O que mudou foi a atitude da imprensa: nos tempos do Velho Regime, uma briga de rua que envolvesse brancos e negros valia amplo espaço de reportagem, com alentada memória dos maus antecedentes do regime racista. Hoje, a cobertura da violência minguou: a polícia sul-africana matou 48 mineiros e feriu 78 que trabalhavam numa mina de platina em Marikana, e faziam manifestações de rua. Matérias de pé de página, curtinhas, com poucas fotos – ah, como é confortável estar entre os países que a imprensa inclui no Eixo do Bem!

O presidente Jacob Zuma se declarou “comovido e consternado” por essa “violência sem sentido”. Punições? Não há nenhuma referência a isso nos meios de comunicação. Encontrar os culpados? Também não. De duas, uma: ou o governo sul-africano não toca no assunto (e a imprensa deveria cobrá-lo) ou fala e a imprensa ignora. De qualquer modo, esse tipo de cobertura é bom para a turma da violência, aquela que perdeu o pelo mas não perde o vício.

 

Como…

Do portal noticioso de um grande jornal:

** “Comerciantes tradiocionais mudam e 25 de Março vira ‘Chinatown’“

Aí notaram o erro e corrigiram:

** “Comerciantes tradincionais muda e 25 de Março vira ‘Chinatown’“

 

…é…

Também da internet, que nunca nos falha:

** “(…) e ganhará 4,5 milhões de euros por temporada, 2 milhões de euros do que recebe na Inglaterra”

Imagina-se que seja “menos do que recebe”. Ou “mais do que recebe”. Por aí.

 

…mesmo?

De um grande jornal:

** “Vento destroem aviões em aeroporto no Texas”

Tremendo vendaval, com certeza. Era um vento, mas um vento plural, que valia por vários.

 

As não notícias

Um suposto veículo de informação, que talvez seja ligado a um jornal possivelmente grande, publicou a seguinte notícia, que, conforme for, não o é:

1. “(…) Oito suspeitos foram presos (…) após suposta tentativa de roubo a um condomínio (…) O roubo teria começado às 15h30, mas não há informações de feridos e nem do que foi roubado.”

Outro suposto jornal teria informado que

2. No título: “Criminosos usam ‘mulher-bomba’ para assaltar joalheria (…) artefato (…) é detonado”. Houve, portanto, um assalto, uma mulher-bomba e uma bomba? Talvez. O texto diz que houve uma “suposta bomba” – embora tenha sido detonada pela Polícia. A “mulher-bomba” seria a vítima, em quem teriam, eventualmente, colocado um cinturão com os explosivos. Mas que algo aconteceu, aconteceu.

 

E eu com isso?

As notícias que se seguem podem ter sido combinadas, preparadas, distribuídas, ter a mesma fórmula, mas pelo menos aconteceram de verdade.

** “De férias, Bia Arantes quer viajar de carro pelo Brasil”

** “Mariah Carey curtiu um dia na piscina acompanhada da filha, Monroe”

** “Marcello Novaes curtiu praia com o filho, Pedro”

** “Kate Winslet e Sam Mendes concluem o divórcio”

** “Caroline Figueiredo e Sophie Charlotte passearam com Bruna Luz”

** “Beyoncé mostra fotos de sua intimidade”

Não se entusiasme: ela está tão coberta que nem poderia desfilar no Carnaval

** “Alec Baldwin publica foto íntima para comemorar número de mensagens no Twitter”

Ele beija a noiva na igreja, na frente de centenas de convidados. A parte mais íntima da foto é que ambos estão de mãos dadas.

** “Sem maquiagem, Letícia Spiller embarca em aeroporto do Rio”

** “Confuso, Robert Pattinson até esquece o zíper aberto”

** “Kristen está furiosa por levar a culpa da traição”

Quem, na opinião da jovem, terá a culpa por ela ter traído o namorado?

 

O grande título

Internet é ótima: pode-se corrigir o título a qualquer momento, aumentar o diminuir o tamanho das letras, dar um jeito para que a frase caiba no espaço. Só que é preciso prestar atenção. Dá muito, muito trabalho!

** “Indústria de Manaus perde US$ 16 mi por”

A indústria perde, uai! Por dia, por mês, por ano, mas é sempre prejuízo.

Há títulos que qualquer especialista no assunto sabe do que tratam:

** “A lúdica aventura da tradicional corrida de trenó”

Tenha certeza: alguma coisa isso quer dizer.

E agora, o grande título:

** “Após tatuagem anal, jovem quer escrever livro”

Certamente deve haver alguma relação entre um fato e outro.

***

[Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados]

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