Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CIRCO DA NOTíCIA > DISCURSO ÚNICO

Em terra de cego quem tem um olho é caolho

03/11/2009 na edição 562

O presidente Lula diz que os formadores de opinião já não decidem nada: ‘O povo não quer mais intermediários’. É o mesmo Lula que, quando vencido por seu hoje aliado Fernando Collor, acusou uma grande formadora de opinião, a Rede Globo, de responsável pelo resultado das eleições.

Lula não tinha razão naquela época: formador de opinião, seja jornalista, artista, intelectual, o que for, pode até contribuir para o debate, mas não decide eleições. Jânio Quadros se elegeu pela primeira vez prefeito de São Paulo contra toda a imprensa; Leonel Brizola se elegeu governador do Rio tendo contra si a Rede Globo. Lula não tem razão hoje: se o eleitor desprezasse tanto assim os formadores de opinião, o próprio Lula não teria dado tamanha amplitude de ação a Franklin Martins, nem espalhado verbas de publicidade por todo o país, nem gasto dinheiro com a TV Brasil, nem lançado Frank Aguiar, o ‘Cãozinho dos Teclados’, como vice de Luiz Marinho, em São Bernardo.

Mas faz parte da liturgia dos governos odiar a imprensa – até Juscelino Kubitschek, um homem afável, democrático, tranquilo, deu um jeito de censurar seu grande adversário Carlos Lacerda, afastando-o do rádio e da TV. Os governos, em geral, gostam da imprensa que se limita a publicar sua versão dos fatos, e detestam esses chatos que ficam tentando descobrir o que não é para divulgar. Pior é ver que cidadãos comuns ficam felizes com o cerceamento da imprensa.

Um cavalheiro espalhou pela internet sua alegria com a censura ao Estado de S.Paulo. Uma frase exemplar: ‘O Estadão perdeu a vergonha de ser parcial (…)’. Acontece que o Estadão já nasceu parcial – contra a escravidão, pela República. Seria esta parcialidade também condenada pelo leitor? Provavelmente, não: quando a parcialidade é favorável às suas próprias idéias todo mundo a aprecia. Parcialidade condenável é aquela que é contra suas idéias. O cavalheiro chama a censura de ‘benéfica’ e pede que o jornal seja ‘um pouco mais patriota’.

O Sturm, de Hitler, o Pravda, de Stalin, o Il Poppolo de Mussolini, todos eram jornais extremamente patrióticos. Isso não os tornava bons jornais.

 

Trocando a camisa

Curiosa é também a posição de alguns jornalistas sobre a imprensa. Não a criticam, o que seria saudável (e é a função, a propósito, deste Observatório); mas a rejeitam como um todo e a condenam à morte.

Esta posição é curiosa por dois motivos: primeiro, porque é um ritual de suicídio. São condenados à extinção não apenas as empresas, mas também seus profissionais. Eles que se virem para conseguir outro emprego e seguir vivendo. Segundo, porque esses mesmos jornalistas, quando ocupavam cargos de relevo nessas empresas – que eram iguaizinhas ao que são hoje, com os mesmos problemas, as mesmas virtudes, os mesmos vícios, os mesmos donos – não as criticavam e eram capazes de tudo para defendê-las. Eram membros do conselho, eram secretários de Redação, eram editores, eram apresentadores, eram repórteres especiais, eram correspondentes internacionais. E amavam o Grande Patrão, fosse quem fosse. Assim que saíram, levaram consigo todas as virtudes da empresa; e os veículos, instantaneamente, perderam todas as qualidades que tiveram.

Nossos meios de comunicação têm, sem dúvida, uma série de defeitos – inclusive a prepotência, que os leva muitas vezes a insistir num erro só para não admitir que houve erro; inclusive a falta de memória, que os impede de avaliar até mesmo sua história recente; inclusive o espírito de manada, que faz com que todos corram atrás dos mesmos fatos, desprezando acontecimentos interessantes pelo simples fato de que os concorrentes também os desprezaram. Mas são coisas que devem ser corrigidas, sem que se tente matar a imprensa.

E, claro, a urbanidade deve ser recuperada. Debates com termos como ‘rato’, ‘esgoto’, ‘canalha’, ‘pilantra’, ‘bandido’, coisas desse tipo, não esclarecem rigorosamente nada. E como ensinou um dos maiores polemistas brasileiros, Carlos Lacerda, é possível nocautear o adversário chamando-o de ‘Vossa Excelência’ e evitando cuidadosamente palavras insultuosas.

 

Bandeira x bandeira

Um tipo de debate que antigamente era muito comum e havia caído de moda está de volta: parece discussão entre torcedores de futebol, mas é empregado jornalisticamente na análise política, econômica, social, como se tivesse alguma utilidade. O caso Manuel Zelaya é exemplar: cada lado proclama vitória. Examinar os fatos, buscar os bastidores, procurar determinar os pontos que signifiquem vantagem para cada um dos contendores é besteira: bom mesmo é o ‘nós ganhamos, vocês perderam’, como se num acordo como este pudessem ocorrer vitórias ou derrotas absolutas.

É mais fácil fazer jornalismo assim: o Fernando Henrique fala mais línguas, logo é melhor que o Lula; o Lula ganhou um prêmio que o Fernando Henrique não ganhou, logo ele é que é o bom. É um reducionismo que empobrece não apenas o debate como também o jornalismo e de nada serve aos consumidores de informação, que pagam os salários de todos. O pior é que é praticado por pessoas que, sabemos, seriam perfeitamente capazes de fazer uma análise embasada.

Certa vez, a propósito, um comentário nesta coluna ironizava o autor ‘por ter sido derrotado de goleada’ em questões de opinião. Lembra a reportagem histórica de um jornal paulista sobre um jogo entre Santos x Corinthians, em que o Santos tinha ficado mais tempo com a bola, feito mais desarmes, conseguido mais escanteios, dado mais chutes a gol, e perdido de goleada. No futebol, o melhor não é o que faz mais desarmes, nem quem chuta mais, nem quem fica mais tempo com a bola. O melhor é quem faz mais gols. Quando o critério da análise deixa de levar em conta o que é importante, decisivo, a análise não tem sentido.

 

Pois é

O ex-presidente da República Fernando Collor venceu processo contra a Editora Abril, por ter sido chamado de corrupto pela revista Veja. Tudo bem, não é questão de discutir a sentença: a lei é esta, e pronto. Mas não deixa de ser estranho que um presidente cujo impeachment foi determinado por corrupção processe quem o chamou de corrupto, e ganhe. É verdade que a Justiça o absolveu das acusações de corrupção. No Supremo Tribunal Federal, as provas da organização do chamado Esquema PC foram recusadas por terem sido obtidas ilegalmente. Mas foi exatamente a acusação de corrupção o motivo que o fez sofrer a pena de perda do cargo e de suspensão dos direitos políticos por oito anos.

É de interesse geral, também, citar a frase da relatora do processo, desembargadora Nanci Mahfuz, sobre os limites da ação dos meios de comunicação:

‘É bem verdade que o autor se viu envolvido em fatos que causaram grande repercussão e comoção pública, mas foi ele absolvido pelo Judiciário. Ainda que seja por falta ou invalidade das provas, não pode a imprensa substituir o poder competente para julgá-lo, tratando-o como corrupto. Misturar no mesmo contexto pessoas condenadas e absolvidas, ainda que para comentar a dificuldade de apuração de corrupção, é ofensivo à honra e à dignidade.’

 

Errar, jamais

Não se pode dizer que os meios de comunicação deixem a cautela de lado na preparação das notícias. Às vezes o cuidado fica engraçado: o cavalheiro dá 22 facadas num outro, diante de 44 testemunhas, e a imprensa fala em ‘suposto esfaqueador’, que ‘teria atingido’ o desafeto. Ou o tremendo fogaréu consome um depósito inteiro, os bombeiros passam o dia todo tentando apagá-lo, e a notícia vem com ‘todo o suposto estoque foi supostamente destruído pelo suposto incêndio’.

Um bom exemplo:

Título: ‘Mulher imita cachorro para espantar suposto ladrão’

Subtítulo: ‘Homem teria tentado abrir a porta da casa da mulher. Segundo registro policial, ele saiu correndo.’

Ele teria tentado, ou seja, não se sabe bem se tentou; mas, se tentou, talvez fosse, supostamente, para roubar a casa. E, antes de sopesar cuidadosamente os condicionais (ou ‘os futuros do pretérito’), a mulher começou a latir. Que cena!

 

Justiça em versos

Lázaro Piunti, uma figura interessantíssima da política paulista, com base eleitoral em Itu, onde foi várias vezes prefeito, teve apontado pelo Tribunal Regional Eleitoral um erro de R$ 86,00 – sim, oitenta e seis reais – na prestação de contas de sua última campanha para deputado federal. Certamente foi erro, jamais desonestidade: Piunti mantém-se ideologicamente no passado, adorando cubanos e norte-coreanos, mas é um homem honrado, correto, respeitável, cuja longa carreira política não se traduziu em enriquecimento.

Como advogado, apresentou sua própria defesa. Escolheu fazê-la em versos (e, apesar do pitoresco do caso, apesar do papel já desempenhado por Piunti na política paulista, os meios de comunicação não deram a menor importância à notícia). Segue a defesa de Lázaro Piunti:

Eminentes julgadores do egrégio tribunal:

Lázaro José Piunti, neste recurso informal

Enfermo, sem emprego, sem amparo social

Vem expor e requerer a compreensão final.

Candidatou-se em 2006 a deputado federal

Desprovido de recursos, nutrido só do ideal

A votação irrelevante – 11.647 votos no total

O custo unitário do voto? Inferior a um real.

 

Foi mesmo campanha pobre na disputa desigual.

Nove mil quinhentos e trinta – despesa angelical

O requerente protesta contra o rigorismo formal

Confiante no bom senso desse conspícuo tribunal.

 

Na preliminar e no mérito deste clamor original

Pleiteia ser desonerado doutra exigência arbitral

Devolver oitenta e seis reais parece quantia banal

Mas ao sexagenário se traduz em prejuízo colossal.

 

Por derradeiro o requerente, em defesa pessoal,

Apela, se necessário, ao direito explícito e legal

De formular no plenário em manifestação oral

A defesa de sua tese perante o honrado tribunal.

 

Nestes termos, pedindo deferimento

– vem sugerir em última instância –

Conceda-se ao ‘affaire’ acolhimento.

Base: Princípio da Insignificância!

 

Como…

De um grande portal informativo:

** ‘Dólar acompanha bolsas no mundo e fecha dia em alta, cotado a R$ 1,73’.

Tudo bem no título. Mas a matéria mostra que todas as Bolsas fecharam em baixa.

 

…é…

Acessar, inicializar, deletar, vá lá: são palavras que até entraram no dicionário. Mas há outra, que uma fiel leitora desta coluna encontrou numa publicação destinada à área de Comunicação, que bate todos os recordes: ‘Favoritar’. Significa, pelo sentido da frase, ‘incluir nos favoritos’ (do computador).

A língua não para de evoluir. Mas nem sempre para melhor.

 

…mesmo?

Há coisas que visivelmente são erros de digitação, daqueles que ocorrem todos os dias (e, com frequência, causam problemas sérios). Há os errinhos, como este, que não têm a menor importância, mas às vezes ficam engraçados:

** ‘Caçador confundi javali com vaca e é processado’

 

E eu com isso?

Por incrível que pareça para quem se habituou a buscar o noticiário frufru, as celebridades são muito parecidas conosco, os mortais comuns. Às vezes têm até as mesmas preferências, os mesmos hábitos:

** ‘Flávia Alessandra: `Amo leite condensado. Já virei uma lata toda´’

** ‘Marcello Novaes garante que não está namorando. Mas diz que gostaria’

** ‘Smigol arranca sorrisos de Dunga e pede carona para a Copa’

Smigol, apresentador do RockGol, faz aquilo que todo cidadão tem o direito de fazer. Se o Afonso jogou na seleção, se o Hulk está na Seleção, por que não ele, ou eu?

E há notícias altamente instrutivas, que permitem digressões culturais. Como:

** ‘Filho reencontra o pai após 16 anos. E acaba roubando a mulher dele’

Na Volta ao Lar (Homecoming), o dramaturgo britânico Harold Pinter inverte a parábola bíblica do filho pródigo. Quando o filho retorna depois de longa ausência, não matam um cabrito para recebê-lo com um banquete: insultam-no, põem em dúvida sua opção sexual e tomam a mulher dele. Nesta notícia temos a versão oposta: o filho pródigo volta e fica com a esposa do pai. Cafajeste? Talvez; mas ficar com a mulher do pai talvez seja seu destino, sua punição.

É aqui que conseguimos informações sobre certas descobertas fantásticas:

** ‘Rubens Barrichello está surpreso com o sol’

** ‘Estudo diz que as pessoas ficam mais éticas em lugares cheirosos’

** ‘Estudo de cientistas franceses concebe bule que não baba’

E é aqui que vemos o dia-a-dia de pessoas cujo trabalho é ser vistas:

** ‘Alexandre Frota curte sol com namorada’

** ‘Suri Cruise volta a circular de salto alto durante passeio’

** ‘DiCaprio é clicado com dedo no nariz em set de filme’

** ‘Daniella Cicarelli come lanche com amiga no Rio’

** ‘Luana Piovani joga sinuca em festa em Brasília’

 

O grande título

Numa semana com poucos bons títulos, um se destaca pelo inusitado:

** ‘Agentes penitenciários são acusados de masturbar cão policial’

O cachorro deve ser ultramanso. Certamente não serve para trabalhar na polícia.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/11/2009 Stanley PontAtlantica

    Pelo nível do debate, chego a ter saudade de um tempo em que o Brasil não era uma teocracia. Digo, supostamente uma teocracia na discussão política.

  2. Comentou em 05/11/2009 Stanley PontAtlantica

    Pelo nível do debate, chego a ter saudade de um tempo em que o Brasil não era uma teocracia. Digo, supostamente uma teocracia na discussão política.

  3. Comentou em 03/11/2009 Antonio Carlos Pinheiro

    ‘faz parte da liturgia dos governos odiar a imprensa ‘ – Também faz parte da imprensa odiar governos. Peraí, alguns! Não acho que Serra ou Aécio odeiem a imprensa, muito pelo contrário. Segundo o Millor imprensa é oposição, ok. Só que, oposição pra quem cara pálida? só pro PT??? E as coisas boas do governo não devem ser mostradas?
    A Globo influenciou de maneira determinante as últimas eleições; felizmente, o trem da história ninguém segura. A internet está aí para também influenciar a próxima eleição. Vamos ver no que vai dar.

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