Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CIRCO DA NOTíCIA > COBERTURA POLÍTICA

Em nome de Sua Excelência, o leitor

Por Carlos Brickmann em 16/10/2007 na edição 455

As autoridades adoram ser chamadas por títulos medievais, tipo Excelência, Senhoria, Majestade, Eminência. Para os jornalistas, usar esses títulos é compreensível apenas como ironia. Para os jornalistas, Sua Excelência de verdade é o consumidor de notícias – o leitor, o ouvinte, o telespectador, o internauta. Os jornalistas atuam com uma procuração do consumidor de notícias, renovada a cada visita à banca, a cada clique; e seu compromisso único só pode ser com Sua Excelência.

Muitas autoridades, disfarçadamente, procuram institucionalizar um novo tipo de relacionamento com os jornalistas, que envolve manipulação e alianças inconvenientes. Outro dia, num dos processos contra Renan, um jornal deu de presente a um senador a fita com a entrevista de outra pessoa. Traduzindo: tomou partido na briga política, assumiu compromisso que não é com seus leitores.

Não é a primeira vez: em outros casos, entrevistas gravadas para um veículo de comunicação foram cedidas a autoridades, sem formalidades, para que as usassem como prova. Houve (e há) sessões no Congresso em que alguns jornalistas combinam com parlamentares o papel de cada um, garantindo notícias em troca da promessa de tratamento destacado e favorável. Exemplo: numa CPI, há algum tempo, um parlamentar solicitou que determinadas pessoas se identificassem, levantando as mãos. Uma repórter gritou, imediatamente: ‘Manda ficar de pé para a gente escrachar’. Que tipo de reportagem pode ser feita quando a intenção do repórter é ‘escrachar’ alguém?

A culpa é menos das Excelências de lá, que no fundo procuram puxar água para seu moinho; e talvez nem seja tanto dos repórteres, que às vezes querem aliar-se à luta do Bem contra o Mal e às vezes querem conseguir notícias sem ter de trabalhar muito. A culpa, sim, é do comando das Redações, a quem cabe reafirmar o contrato exclusivo com o consumidor de informação.

Muitos e muitos anos atrás, numa disputa de pênaltis, o goleiro do Palmeiras, Leão, saiu reclamando que o goleiro adversário estava se adiantando antes da cobrança. O técnico de Leão, o lendário Filpo Nuñes, foi duro: ‘Se o goleiro deles estava se adiantando, é porque o juiz deixou. Por que você não se adiantou também?’

Pois é: se o comando está deixando, por que seus subordinados respeitarão o contrato de exclusividade com as pessoas a quem devem informar?



Depois do vendaval

Todos recordam o escândalo dos aloprados, quando assessores do candidato do PT ao governo paulista tentaram comprar um dossiê contra José Serra, candidato adversário (e vitorioso). O candidato petista era Aloízio Mercadante, que foi execrado publicamente e acabou indiciado, com alarde, em inquérito.

Pois é: o indiciamento de Aloízio Mercadante foi anulado pelo Supremo Tribunal Federal, com apoio do procurador-geral Antônio Fernando de Souza. O caso vale até para um trabalho acadêmico: comparar o espaço destinado ao indiciamento de Mercadante (que este colunista, na época, considerou inaceitável) ao destinado agora à anulação do indiciamento. O espaço e o tempo destinados à acusação foram imensamente maiores. A anulação mereceu bem pouquinho.



Ateou fogo…

O ex-ministro Paulo Renato de Souza é comerciante, enólogo, professor de Economia, consultor – mas o que lhe faz falta, de verdade, é aprender a passar um e-mail. Mandou seu artigo para a Folha de S.Paulo, criticando duramente a venda do Banco do Estado de Santa Catarina ao Banco do Brasil, sem licitação, com argumentos semelhantes (e bons) aos que vêm sendo defendidas pelos bancos privados. Mas esqueceu de apagar as mensagens anteriores. E, nelas, consultava o presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, sobre o teor do artigo.

Paulo Renato explicou que, como o artigo era técnico, quis que um especialista o lesse antes da publicação, para encontrar eventuais falhas. Pode até ser verdade, mas Paulo Renato não deveria perder tempo se explicando. Há certas histórias em que ninguém vai acreditar mesmo. [Ver ‘Jornal entrega tucano que pisou no e-tomate‘]



…às vestes

Louve-se a posição da Folha: poderia simplesmente ter publicado o artigo, sem fazer menção às mensagens anexas. Poderia ter pedido ao professor Paulo Renato, numa discreta conversa telefônica, que mandasse o artigo outra vez, limpo de seus rastros anteriores. O jornal, que mantém excelentes relações com Paulo Renato, preferiu dar prioridade a seu compromisso com o leitor, e publicou a história. A única coisa não publicada foi o artigo. Paulo Renato preferiu retirá-lo. E o jornal não fez questão – afinal de contas, se era para publicar a opinião de Márcio Cypriano, por que não pedi-la diretamente a ele?



Obrigatório

As colunas (quase) diárias de Mário Magalhães, ombudsman da Folha de S.Paulo, são hoje leitura essencial para os jornalistas. Preciso, conciso, crítico, tem feito análises impecáveis do trabalho de seu jornal. Vale a pena. Clique aqui para ler.



Em compensação

Mas, entre inúmeras coisas boas, a Folha mantém um certo ranço, uma posição prévia e estranha contra quem faz doações legais a partidos políticos. O jornal poderia tomar posição contra as doações em geral e propor novas formas de financiamento; mas criticar gente que está dentro da lei é esquisito.

Desta vez, os atacados são diretores de estatais federais que, segundo o levantamento do jornal, estão entre os maiores doadores particulares da campanha eleitoral do presidente Lula. As quantias são pequenas: no total, os 18 ‘companheiros’ citados deram 133 mil reais à campanha, tudo no caixa 1. Dá menos de 8 mil reais por cabeça. Não sejamos ingênuos de imaginar que, por uma doação deste tamanho, a companheirada recebe diretorias de estatal. Sairia muito barato.

É mais fácil imaginar que os citados cavalheiros, como militantes, participaram da campanha e fizeram doações. E foram levados ao governo por sua militância, não pela doação que, cá entre nós, é minúscula. Aliás, o escândalo, assim, é ainda maior: se foram levados às estatais pela militância (e não pela doação), fica claro que por competência é que não foram.



E daí?

A imprensa dedicou grande espaço à entrada do promotor Saulo Abreu, ex-secretário da Segurança de São Paulo, no ramo dos restaurantes. Não havia irregularidade alguma, não havia novidade alguma, o restaurante não estava sendo inaugurado (o ex-secretário só entrou de sócio). Então, por que as matérias?



Pistom de gafieira

Foi pouquíssimo comentada na imprensa a atitude do deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR), o ferrabrás, o durão, o implacável, o feroz inquisidor da CPI dos Correios. Pois é: foi ele mesmo que propôs que os contratos com agências franqueadas sejam renovados sem licitação. É negócio para uns 3 bilhões de reais por ano, que ele gostaria de destinar exclusivamente a quem já está por dentro. Como diz o samba de Billy Blanco, quem está fora não entra, quem está dentro não sai.



A idade da vítima

Um homem foi baleado dentro de uma agência bancária de um shopping center. O título do jornal: ‘Idoso baleado (…)’. Que é que tem a ver a idade da vítima com o caso citado? Por que não chamá-lo de ‘cliente’? É por isso que ele foi baleado: por ser cliente do banco e estar lá na hora do assalto. Sua idade não tinha rigorosamente importância alguma.



Imprensa, imprensa

Aliás, tanto a idade da vítima não tinha qualquer importância que, no primeiro momento, houve veículos de comunicação que lhe atribuíram 70 anos. Outros veículos garantiram que sua idade era de 30 anos. Deve ser 70: como suboficial reformado da Aeronáutica, é mais provável que tenha 70 do que 30.

Renato Pompeu, grande jornalista, costuma dizer que, para testar a precisão de um informativo, leia a notícia sobre um fato que você mesmo presenciou. Pelo que ele garante, nunca bate.



Não bate, mesmo

Esta é mais para os paulistas: outro dia, pegou fogo um prédio na Rua Augusta, entre as ruas Luís Coelho e Antônio Carlos. Boa parte da imprensa garantiu que o incêndio era na Alameda Santos. Um local fica de um lado da avenida Paulista, o outro fica do outro. E são no mínimo três quarteirões de distância.



E eu com isso?

Veja só o caro colega: a gente não sabe nem onde é que foi o incêndio. Mas há notícias na imprensa em que se pode confiar cegamente. Não que a falta dessas informações nos impeça de levar uma vida normal; mas que são verdadeiras, ah, disso não há dúvida. Verdades absolutas.

** ‘Lucielle e Barbara Paz tomam sol’

** ‘Marido de Carolina Dieckmann se estressa’

** ‘Com sutiã à mostra, Jessica Biel vê futebol com Timberlake’

A propósito do sutiã à mostra, a novidade era o seguinte: a moça estava com blusa de alcinhas e a alça do sutiã aparecia de vez em quando.



Os grandes títulos

Há uma boa seleção nesta semana. Começa com um daqueles que, aparentemente, não cabiam no espaço. Antigamente se mudava o espaço ou o título. Hoje sai assim:

** ‘Namora da Di Caprio desmente declaração contra Israel’

Continuemos com um ótimo, de duplo sentido:

** ‘Gol no final de Zapata apaga a redenção de Hugo’

No final de Zapata – afinal, onde é que fizeram o gol?

E o melhor, sem dúvida alguma, já que une não apenas a condição de ‘E Eu com Isso?’ com a de ‘Grande Título’:

** ‘Poluição faz encolher pênis de ursos polares’

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/10/2007 alfredo sternheim

    Fiquei preocupado com a manchete ‘Poluição faz encolher pênis de ursos polares.’ AFinal, que poluição é essa que atinge os ursos polares em suas regiões, seu habitat? Ou a notícia refere-se a ursos polares urbanos, que estão em zoológicos ou circos? Ou alguém que tenha um de estimação? Porém, o mais preocupante é saber o seguinte: até que ponto a redução do pênis do urso compromete o prosseguimento da raça? Com o que sobra depois do encolhimento, ele ainda dá conta do recado ? Satisfaza companheira? (ou companheiro s eo o urso polar for gay). Gostaria de saber se a nota ou notícia era esclarecedora a esse respeito. Os ursos são tão fofos (a distância, claro). Obrigado.

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