Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CIRCO DA NOTíCIA > CASO CESAR BENJAMIN

Ensaio sobre a dificuldade da prova

Por Carlos Brickmann em 01/12/2009 na edição 566

A Folha de S.Paulo fez uma aposta ousada ao publicar o artigo de Cesar Benjamin em que menciona frases atribuídas ao candidato Lula sobre atividades sexuais. A aposta é ousada por vários motivos:

1. Benjamin menciona uma conversa com Lula – uma conversa em que o hoje presidente poderia estar falando a verdade, poderia estar brincando, poderia estar simplesmente inventando uma história para passar o tempo, sem qualquer suspeita de que essa história poderia mais tarde ser usada contra ele.

2. Das testemunhas que menciona, o publicitário Paulo de Tarso e o faz-tudo Antônio Espinoza, nenhuma irá jamais falar contra Lula. Ambos são extremamente próximos ao presidente e não vão brigar com ele para referendar uma história da qual talvez nem mais se lembrem, quase vinte anos depois. E, se lembrarem do fato, certamente considerarão que se tratou apenas uma conversa de bar.

3. Falar sobre uma tentativa de violência sexual sem que a vítima se manifeste (e Benjamin, segundo disse, nem sabe de quem se trata) é complicado.

Para que a história ganhe consistência, é preciso que a Folha tenha guardado informações para divulgá-las depois que o governo fizesse seus desmentidos, ou outras publicações consigam novos detalhes e nomes. Sem isso, aquilo que poderia ser uma bomba terá dado chabu. E contribuirá apenas para fortalecer o político que se buscou atingir.

 

É apenas cinema

As reportagens que buscam mostrar que o filme Lula, o Filho do Brasil não é fiel ao livro que o gerou (embora tanto o livro quanto o roteiro do filme sejam obra da mesma pessoa, Denise Paraná, profunda conhecedora do presidente) têm um problema congênito: livro é livro, filme é filme. Os Dez Mandamentos não são apenas uma versão filmada de parte da Bíblia; são uma recriação, com novos diálogos, com novas cenas, com cenas cortadas. À Noite Sonhamos é uma biografia romanceada de Frederic Chopin, mas não é, cena a cena, o retrato de sua vida. Scarface é a vida de Al Capone, mas não exatamente como ela foi. Imaginemos: Al Capone se levanta, vai ao banheiro, toma banho, penteia os cabelos, escova os dentes, vai ao gabinete da ministra chamar o Alfredo, troca o pijama pela roupa de trabalho, verifica se as armas estão lubrificadas e municiadas, e isso todo santo dia. Não há espectador que aguente. E filme não pode durar o dia inteiro.

Reclamar que o filme não conta que Lula, então presidente do sindicato, demorou alguns dias para devolver os documentos de Mariza Letícia, pois estava interessado em encontrá-la mais vezes, ou omitir conversas com autoridades, ou modificar nome e personalidade do presidente anterior do sindicato, tudo isso é licença cinematográfica. É como, nos filmes de faroeste, o armamento do mocinho, que dispara dezenas de tiros sem necessidade de recarga. É como, em Casablanca, o momento em que os franceses desafiam os oficiais alemães cantando a Marselhesa e ninguém é fuzilado.

O filme pode ser bom, pode ser ruim. Mas deve ser avaliado como filme, não como documentário, não como retrato fiel da realidade até os mínimos detalhes. Ovo não tem pelo. Ou, para buscar um ditado mais recente, gato não põe ovo.

 

Atendendo a pedidos

Muitos de fiéis leitores desta coluna reclamam nomes de jornais situacionistas. Um chegou a dizer que, em todo o Brasil, de Norte a Sul, do Oiapoque ao Chuí, como nunca dantes em todo o Brasil, não há sequer um jornal situacionista. Todos são não apenas oposicionistas, como golpistas, secessionistas e sabe-se lá mais o que é que vão dizer agora.

Então, segue uma lista de jornais situacionistas – uma lista necessariamente incompleta, já que este colunista não tem paciência de pesquisar os motivos pelos quais dois mais dois são iguais a quatro. Vamos lá:

1. A rede de jornais, emissoras de rádio e tevês do senador José Sarney, importante líder do lulismo na área parlamentar;

2. A rede concorrente, que atua no mesmo estado, do ministro Édison Lobão;

3. Os meios de comunicação paraenses controlados pelo deputado Jader Barbalho e por sua ex-esposa Elcione Barbalho, ambos integrantes da base aliada;

4. Os jornais e emissoras do senador Fernando Collor, membro da base aliada;

5. Os jornais e emissoras de TV do ex-deputado Paulo Pimentel, do PMDB, partido que integra a base aliada;

6. Os meios de comunicação comandados pelo senador Wellington Salgado, do PMDB mineiro, membro da base aliada;

7. Os meios de comunicação da família Alves, à qual pertence o líder do governo na Câmara, deputado Henrique Alves;

8. Os veículos dirigidos pela família do senador Renan Calheiros, um dos mais importantes dirigentes parlamentares do esquema de apoio ao presidente Lula;

9. E, naturalmente, a TV Lula. Será que alguém imagina que o pessoal da TV Brasil, diretamente ligado ao ministro Franklin Martins, está na oposição ao governo?

 

Um livro essencial

Há muitos e muitos anos, quando dirigia o Jornal do Brasil, Alberto Dines fez questão de botar uma TV no meio da Redação. Era para lembrar nossos colegas de que aquela notícia seca, não-trabalhada, não podia sair no jornal: já tinha sido vista pela TV (e hoje, tantos anos depois, ainda é comum encontrar no jornal da manhã seguinte a notícia que a internet e o rádio deram à tarde e a TV divulgou à noite!)

Há 35 anos, Dines inovou de novo, com O Papel do Jornal. Na época em que os profissionais liam, este livro não faltou em nenhuma estante de um bom jornalista. A obra, que mantém sua importância, merecendo uma nova leitura, será lançado nos próximos dias no Rio e em São Paulo. No Rio, dia 7, às 19h, na Livraria da Travessa, Shopping Leblon; em São Paulo, no dia 9, também às 19h, na Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho, 915. Quem é jornalista não pode perder. Os bons livros não envelhecem: os tempos os acompanham.

 

Uma vida fascinante

O caro leitor conhece alguém que tenha sido residente e domiciliado no Coliseu? Vale a pena conhecê-lo: George Jonas, partisan que lutou contra os nazistas na Hungria e fugiu quando seu país foi dominado pelas tropas comunistas da União Soviética, estudou na Alemanha, trabalhou na Bolívia e se instalou no Brasil há mais de 50 anos. Aqui fundou o primeiro laboratório cinematográfico, o Líder; aqui criou uma grande produtora de cinema, a Espiral; aqui fez um grande filme, A Compadecida, baseado na obra de Ariano Suassuna, que foi proibido pelo regime militar e execrado pela esquerda e pela direita, simultaneamente.

George Jonas conta tudo isso em A Cor da Vida (Editora de Cultura), livro que lança no dia 3, quinta-feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, às 18h30. Mais um livro que vale a pena ter em casa.

 

Como…

De um grande portal noticioso, publicado em 26 de novembro:

** ‘USP adia posse do novo reitor para 25 de janeiro’

Nenhum problema no título – exceto a informação, no texto, de que o novo reitor da USP tomou posse do cargo no próprio dia 26 de novembro.

 

…é…

De um importante portal de notícias, ligado a um grande jornal:

** ‘A consumidora Andreia de Souza, do município de Campos (RJ), encontrou um pedaço de dedo dentro de um saco de açúcar. Apesar do produto estar com a data de validade em dia, a consumidora foi até a delegacia da cidade para fazer uma denúncia’.

Que consumidora mais chata! Se a data de validade está em dia, certamente o dedo está fresquinho!

 

…mesmo?

Também de um portal da Internet, grande fornecedora de notícias estranhas:

** ‘Lula defende o direito do Irã de manter programa nuclear pacífico em discurso’.

Já fora do discurso, seja o que Deus quiser.

Quatro extras inesquecíveis:

** ‘Dores na mandíbula podem ser provocadas pela chamada ATM’

** ‘Desgelo vai causar prejuízo de US$ 28 bilhões, diz ONG’

Desgelo, certamente, é a forma sólida de deságua.

** ‘Água é o tema mais cobrado na prova do Enem 2009 que vazou’

Vazou tudo: a prova, os temas da prova. Ou terá sido a água?

** ‘Björk compõe canção inédita para filme infantil’

Ainda bem: se a composição não fosse inédita, seria plágio.

 

E eu com isso?

Como não disse Gertrude Stein, uma arma é uma arma é uma arma.

** ‘Homem é preso por agredir a namorada com peru congelado’

** ‘Grupo montado em cavalos atropela BMW’

** ‘Mulher é acusada de arrancar testículos do namorado com as mãos’

Que coisa bárbara, fazer justiça com as próprias mãos!

Mas há notícias bem mais suaves – uma delícia para comentar na hora da cerveja, ou do sorvete da tarde. Você escolhe.

** ‘Ísis Valverde leva Marley, seu filhote de labrador, à praia’

** ‘Ator global faz barraco em casa de swing de SP’

** ‘Jovem é preso ao fazer pedido nu em restaurante’

** ‘Jesus Luz passa dia com amigos no Rio’

** ‘Em dia de folga, Britney Spears leva os filhos ao jardim botânico’

** ‘Danny Glover cochila durante debate no Rio de Janeiro e apresenta a namorada brasileira’

** ‘Katie Holmes surge com cara de sono comprando café’

** ‘Mel Gibson joga ping-pong em Nova York’

E uma história notável:

** ‘Queimadura em moto pode tirar Adriano de jogo decisivo’

Esquisitíssimo: normalmente, quem se queima é quem vai na garupa, ao encostar a perna no escapamento da moto. Adriano nem vai na garupa nem queimou a perna: queimou o pé. E a outra versão sobre a queimadura que ameaça afastar o centro-avante do Flamengo do time é mais esquisita ainda: ele teria queimado o pé numa lâmpada, em sua própria casa.

Terá Adriano o feio hábito de andar pela casa plantando bananeira?

 

O grande título

Há manchetes que, como diria Roberto Jefferson, despertam nossas dúvidas mais primitivas:

** ‘Flagradas em estrada, cabras são algemadas pela polícia alemã’

Que estariam fazendo as supracitadas cabras quando foram flagradas? Como se algema uma cabra?

Há outras que presumem que o leitor seja um especialista no assunto, capaz de entender os mais disfarçados subentendidos:

** ‘Ativistas protestam contra matança de exemplares no Canadá; protesto seguirá durante Olimpíadas de Inverno no país’

Exemplares de quê? Quais os exemplares que andam matando?

E há manchetes que modificam aquilo que sempre imaginamos:

** ‘Apresentadora sofre para ficar grávida de novo’

A apresentadora, no caso, é Luciana Gimenez. É possível que esteja tendo algum problema para engravidar novamente. Mas de onde tiraram que ela sofre?

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/12/2009 Marcio Flizikowski

    Com relação a segunda resposta do Brickman, sobre a questão do Filho de FHC, lembro que ele afirmou que a grande imprensa fez ampla divulgação do caso e disse que em pesquisa no Google encontrou mais de milhão de respostas. Bem, sugiro então aos leitores fazerem a busca utilizando as mesmas expressões que Brickman usou e vejam as respostas. Eu fiz isso. E realmente encontrei muitas referências ao caso. A maioria absoluta eram de blogues e sites alternativos. Grande imprensa? Algumas referências ao UOL e raras referências ao Estadão e O Globo. E o resto parece que esqueceu o caso.
    Para contrapor a situação, sugiro que os leitores façam uma pesquisa no Google sobre Lula e o caso da sua filha Lurian utilizando o mesmo método de Brickman. Eu fiz. A maioria das respostas remete ao UOL, Terra, Estadão, Veja, O globo e outros grandes veículos. Caro Brickman, dispenso o tratamento de professor, pode me chamar pelo primeiro nome ou pelo segundo, e pode continuar escrevendo o nome errado, é só um rótulo mesmo… mas acho que você deveria ter mais cuidado em suas ‘pesquisas’ no Google e não fazer uma análise apenas quatitativa, mas também qualitativa dos resultado, pois como dizem por aí, tem muito lixo na Internet.
    PS: Apenas por diversão, resolvi mudar minha profissão para patrulheiro. Pode me chamar assim, você já fez isso ao generalizar todos os que criticam os críticos do governo.

  2. Comentou em 02/12/2009 Marcio Flizikowski

    O autor parece gostar muito dos dois pesos e duas medidas. Em artigo anterior, afirmou que a imprensa divulgou amplamente o caso do filho fora do casamento do presidente FHC. Os veículos de comunciação (jornalões, revistões e televisões) por meio de seus diretores e similares, à época, alegaram que não divulgaram o caso porque nenhuma das partes confirmou o fato. No caso CB, o sujeito fez uma denúncia e a FSP sequer foi procurar as partes. Tnato Lula como o rapaz do MEP. Aliás, só depois foi provurá-los. Lula negou. E o jovem do MEP negou, ou se negou, não confirmou e se negou a falar sobre o assunto (como fez a jornalista amante de FHC). Mesmo assim o assunto ganhou as páginas do jornal. São dois pesos e duas medidas, caro CB?
    PS: Pelo que entendi do artigo do CB, então a FSP, ao omitir informações, pratica o jornalismo de sensacionalismo, com gotas de informação a cada dia e por isso ainda não publicou mais informações sobre o caso CB? Como observador, o Birckman está parecendo um grande torcedor.

  3. Comentou em 01/12/2009 Luciano Prado

    O título do artigo cairia melhor assim: ‘Ensaio sobre a cegueira’. O autor até tenta ajudar a Folha nun transplante de córnea, mas não consegue. Ele também não enxerga muito bem. Mas é um ‘grande’ torcedor.

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