Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > EFEITO-MANADA

Fala que eu falo junto

Por Carlos Brickmann em 11/09/2007 na edição 450

Dois dos maiores jornais do país dão juntos um furo fantástico: os diálogos que, segundo as duas reportagens, divulgadas no mesmo dia, demonstram que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao contrário do que se pensava, enquadrou o Exército no caso do livro sobre torturas, em vez de ter sido enquadrado.

As duas matérias revelam diálogos sem testemunhas entre duas pessoas, um chefe militar e o ministro. Os diálogos aparecem iguaizinhos. A seqüência dos acontecimentos é idêntica. A leitura de ambas leva à conclusão de que a fonte foi a mesma. E, fazendo-se a clássica pergunta – quem se beneficia? – o nome da fonte, oculto nas reportagens, brilha e pisca como um luminoso de néon.

É o efeito-manada, já mencionado neste Circo da Notícia [ver ‘Síndrome de manada assalta a imprensa‘]. Há vários tipos de efeito-manada: quando uma mesma fonte, cujo cultivo é vantajoso, passa sua versão de um caso para vários veículos de comunicação; quando veículos de todo o país, seguindo os passos da grande imprensa, divulgam as notícias urbi et orbi; e, o mais intrigante de todos, quando a mídia inteira, por algum motivo, aponta sua artilharia para o mesmo alvo. Nesse caso, quando se conversa com os colegas, ninguém sabe direito por que aquele foi o alvo escolhido, e não outro qualquer, talvez tão merecedor, ou mais merecedor, de um obus no telhado.

Qualquer que seja o motivo do efeito-manada, seu resultado é empobrecedor. Veículos e jornalistas têm opiniões, preconceitos, vivências que, de uma forma ou outra, dão certo viés a seus trabalhos (é por isso que a objetividade absoluta é impossível: os melhores jornalistas buscam a objetividade, sabendo que não vão alcançá-la, e têm como atributo máximo outro fator inexcedível: a honestidade). A proteção do consumidor de notícias vem do entrechoque das idéias, da certeza de que diferentes jornalistas e diferentes veículos têm diferentes opiniões, preconceitos e vivências. Nesse entrechoque de versões é que se busca a verdade. Quando o choque deixa de existir, passamos ao pensamento único.

É ruim para o consumidor. É ruim para o país. É ruim para os jornalistas. Se um jornalista é suficiente para produzir a versão que todos os demais vão usar, para que as empresas vão gastar dinheiro contratando mais jornalistas?

Questionando a imprensa

Na semana passada, esta coluna transcreveu trecho do blog do jornalista Luís Nassif sobre conselhos de observação da imprensa. Como exemplo, Nassif citou o Press Complaints Comission, Comissão de Queixas de Imprensa, e informou que há mecanismos semelhantes em países de tradição democrática como, por exemplo, os Estados Unidos. E, ao comentá-la, este colunista sugeriu que se estude algo apartidário, livre de patrulhamento, como o Conar e o Procon, para manter certa igualdade entre produtores e consumidores de notícias e opiniões.

Dois leitores fizeram comentários interessantes (e um terceiro, opondo-se ao que foi escrito, fez um comentário tão bem articulado que lhe foi pedida autorização para publicá-lo na íntegra – ainda não houve resposta).

O primeiro é de um dos mais competentes jornalistas do país, Fernando Portela, hoje diretor do Conar – Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária. ‘É inacreditável’, diz Portela, ‘como o Conar é respeitado por quem se prejudica com ele (houve casos de campanhas de 1 milhão de dólares).’ E sugere: seria o melhor para nós, jornalistas.

O segundo é de um leitor que mora nos EUA há 30 anos, trabalha em TV e nunca ouviu falar de controle de imprensa por lá. ‘Na Inglaterra, sim, mas nos EUA não. A primeira emenda da Constituição continua em pé, firme e forte. O que realmente existe é que cada órgão tem seu ombudsman, nada mais.’

Existe, sim: e à moda americana, com organizações estaduais independentes. Aqui estão os endereços eletrônicos de alguns deles: Minnesota News Council; Washington News Council; New England News Forum; Media Giraffe Project.

A primeira emenda da Constituição americana (que garante a liberdade de comunicação) não é ferida. Mas há ações que podem ser adotadas por alguém que se sinta vítima de comportamento inadequado da imprensa.

A grande reportagem

Esta coluna pediu detalhes sobre a vida e obra dos narcotraficantes estrangeiros apanhados no Brasil. O grande repórter Cláudio Julio Tognolli deu a resposta: em ‘Segredos do tráfico‘, no Consultor Jurídico, não apenas ouviu o traficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadia como chegou a documentos mantidos em segredo de justiça, que também publicou. O Consultor Jurídico explica: decidiu divulgar os documentos com base em voto do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, que considera o segredo de justiça restrito às autoridades e não aplicável a jornalistas que apuram fatos de interesse público.

Varadero

A Câmara dos Deputados decidiu enviar um grupo de deputados a Cuba para conversar com Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que fugiram durante os Jogos Pan-Americanos e foram rapidamente capturados, deportados e enviados de volta ao país de que fugiram, num avião venezuelano especialmente fretado. A coisa toda foi tão rápida que não houve tempo sequer para uma entrevista à imprensa.

Acontece – e isso não apareceu ainda em nenhum meio de comunicação – que a viagem não tem sentido. Se os cubanos voltaram porque quiseram, é isso que vão dizer; se voltaram porque foram enganados (e agora já sabem que nem o esporte que os projetou podem mais praticar), não vão admiti-lo a um grupo de estrangeiros, ficando depois à mercê da polícia; se houve ameaças a parentes, o que os forçou a voltar, o mesmo medo os impedirá de fazer qualquer denúncia – até porque os deputados voltam ao Brasil e eles ficam por lá.

Traduzindo, estamos gastando dinheiro à toa.

Coisa de pobre 1

E o desastre de trem, que matou e feriu gente, não merece uma investigação da imprensa? Certamente por falha deste colunista, que não deve ter prestado a atenção devida no noticiário, não se falou em ANTT, a ANAC do transporte terrestre, nem em seus diretores. Não se discutiu a qualidade e modernidade do equipamento. Ninguém cobrou CPI. Será muita maldade acreditar que, como trem é coisa de pobre, ninguém está dando muita bola para isso?

Coisa de pobre 2

A imensa cratera continua aberta, num bairro importante de São Paulo. Uma rua de intenso tráfego foi fechada, porque estavam aparecendo buracos profundos. E, no entanto, a imprensa parou de falar na Linha 4 do Metrô paulistano. Tudo se passa como se não tivesse havido desabamento, como se não tivesse havido mortos, como se não tivesse havido qualquer prejuízo material.

Vai ficar por isso mesmo? Será maldade acreditar que, como transporte coletivo é coisa de pobre, ninguém está dando muita bola para isso? Será maldade demais acreditar que, embora transporte coletivo seja coisa de pobre, as empresas que o providenciam são ricas e poderosas?

Seria interessantíssimo descobrir por que a obra está dando tantos problemas. E encontrar os responsáveis, então, contribuiria muito para melhorar os hábitos e costumes no setor das concorrências públicas.

Coisa de pobre 3

Seria ótimo apurar, por exemplo, como é feita a manutenção dos trens de passageiros. O transporte foi privatizado. Era mais ou menos seguro antes da privatização? Por falar em seguro, qual a indenização paga às vítimas?

Seria ótimo apurar, também, por que os sinais de que as coisas não iam bem na construção da Linha 4 do Metrô foram ignorados. As casas rachadas, os tremores, os ruídos, tudo o que indica problemas foi deixado pra lá. Por quê?

Por que, enfim, o PSDB e o DEM, tão interessados em investigar problemas aeroportuários, bloqueiam qualquer tentativa de instalar uma CPI do Metrô?

Erramos

Esta coluna informou erradamente que nos EUA não é permitido captar imagens durante julgamentos. É permitido, sim: há até uma emissora especializada, a TV Jury. E o julgamento de O.J. Simpson foi transmitido na íntegra.

E eu com isso?

Um ótimo jornalista de TV, Adib Muanis, de São José do Rio Preto, está surpreso com a notícia que recebeu:

** ‘Gisele Bündchen diz que acorda `parecendo um espantalho´’

‘Francamente, caro colega’, diz Muanis, ‘uma revelação desse tipo, forte assim, importante desse jeito… é muita informação. Puxa, saber como a Gisele acorda vai, realmente, mudar a minha vida!’

Caro Muanis: pois não é só isso. Há mais bombas a caminho:

** ‘`Oh, my God´, diz a entediada Gisele Bündchen, durante evento em SP’

Explica-se o tédio da modelo: ela está dando uma entrevista na qual se recusa a falar de sua vida pessoal Vai falar do quê: de Hillary Clinton vs.x Barack Obama?

** ‘Ator de Paraíso Tropical troca de roupa em praia’

** ‘Ex-BBB Íris está interessada em um grego’

** ‘Descabelada, Wanessa Camargo mostra o sutiã em novo CD’

** ‘Descubra o porquê de Britney Spears ser obcecada por pirulitos’

Os grandes títulos

Há bons concorrentes na semana. E um, de respeitabilíssimo órgão de imprensa, que muita gente (inclusive este colunista) considera um dos melhores do país, ou talvez até mesmo o melhor do país, que é imbatível.

** ‘Desta vez, treino do Fogão não tem rachão’

Os fanáticos por futebol entendem: o Botafogo do Rio não teve aquele clássico recreativo depois dos treinos táticos, técnicos e físicos.

** ‘Eles comem o que nós somos’

Que será: algo na linha do Brokeback Mountains? Reportagem sobre animais ferozes? Alguma entrevista do Oscar Maroni sobre o Bahamas? Ou tudo junto?

Agora, o título imbatível – aquela coisa que vem acontecendo muito, ultimamente, com erro na medição e cortes em sílabas essenciais:

** ‘Everardo Maciel defende CPMF dizendo que tributo é eficiente, simples e de baixo cus’

O pior é que provavelmente ele tem razão.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/09/2007 Ricardo Camargo

    Realmente, uma conduta que considerei abjeta, desde o início da história do vôo 3054, foi a tentativa de construir palanque com os ossos dos mortos. Algo que seria abjeto, também, se a oposição ao Governo Tucano de São Paulo o fizesse em relação aos que sentiram o chão, literalmente, desaparecer debaixo dos seus pés. O sr. Alberto Dines, no início do ano, já alertou para os perigos da politização das tragédias, que, em última análise, são, antes e acima de tudo, a marca das perdas das famílias. As causas delas têm de ser enfrentadas sem que se procure extrair daí proveitos políticos.. O mundo e o Brasil são muito maiores do que todos os Partidos existentes. e o que interessa é identificar e resolver os problemas, não transformá-los em insumo eleitoral.

  2. Comentou em 11/09/2007 Marco da Costa

    Um outro atleta Cubano que não mais voltou para seu país de origem, também é coisa de pobre, inclusive para o senhor. Em nenhum momento foi dito neste artigo que o atleta do esporte de lançar a bola com às mãos, também foi forçado a voltar para Cuba, ou que sua família recebeu represália pôr essa fuga. Esse cidadão encontra-se morando no ABC e pôr sinal muito mal. Portanto, ambos os casos são de pobres, bem como este artigo é paupérrimo.

  3. Comentou em 11/09/2007 Marco da Costa

    Um outro atleta Cubano que não mais voltou para seu país de origem, também é coisa de pobre, inclusive para o senhor. Em nenhum momento foi dito neste artigo que o atleta do esporte de lançar a bola com às mãos, também foi forçado a voltar para Cuba, ou que sua família recebeu represália pôr essa fuga. Esse cidadão encontra-se morando no ABC e pôr sinal muito mal. Portanto, ambos os casos são de pobres, bem como este artigo é paupérrimo.

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