Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CIRCO DA NOTíCIA > ECOS DE 1964

Fritz Utzeri

13/04/2004 na edição 272

‘Estou ansioso para comprar e ler a coleção História Oral do Exército: 1964. Vale a pena ouvir um lado que pouco falou até agora e que, quando fala, acusa os jornalistas de distorcerem a verdade. Com a competência que lhe é habitual, a editora do Idéias & Livros, Cristiane Costa, nos deu no último sábado, no JB, um apanhado impressionante desses livros que contam a versão dos vencedores de 64 e dos opressores de 68. Num dos textos, a TV Globo é acusada de fraude. Para ser mais exato, o repórter Caco Barcellos, que ganhou prêmios de jornalismo por ter entrevistado um desertor do Exército que disse ter participado do assassinato de dois ‘terroristas’, que – segundo o tenente coronel aviador Juarez de Deus Gomes da Silva – teriam morrido num acidente de carro em Vassouras. Caco é chamado pelo militar de ‘falsário e farsante’.

Não conheço o episódio, mas conheço o jornalista, que é um dos mais íntegros e corajosos da imprensa brasileira e sei, por experiência própria, de muitos casos em que a censura divulgava versões falsas de ‘terroristas’ mortos em combate e que, na realidade haviam sido executados. O JB nos anos de chumbo não publicava as versões mentirosas dos bilhetinhos dos censores, mas os repórteres iam ao local apurar o que ocorrera e – freqüentemente – voltavam com a informação de que tudo fora uma farsa. Isso também não era publicado, mas foi guardado e tornado público pelo jornal quando acabou a ditadura. É só ir aos arquivos e conferir.

Minha curiosidade em esmiuçar a coleção deve-se a três episódios dos quais participei como repórter. O primeiro (e mais recente) é o Riocentro. A revelação do Coronel Romeu Antonio Ferreira de que o atentado, que visava ‘sacanear’ o show do Centro Brasil Democrático, braço do PC, já fora planejado um ano antes de ocorrer, em 1980 é novidade. Segundo o coronel, tratava-se apenas de jogar uma bomba na caixa de luz do Riocentro para acabar com o show. Ele disse ter proibido a ação, mas quando deixou o DOI, um ano depois, a operação foi feita.

Alvíssaras! Pela primeira vez o Exército admite, em livro histórico publicado pela Bibliex, que foi o autor do atentado. Na noite de 30 de abril de 1981, explodiram não uma, mas duas bombas no Riocentro. A da casa de força (que era para ‘sacanear’ o show, foi arremessada e explodiu, mas com tal incompetência que nada ocorreu. Caiu perto de um poste que não ofereceu resistência).

A explosão que abalou o Brasil ocorreu no Puma do capitão Wilson Machado, no colo do sargento pára-quedista Guilherme Pereira do Rosário, matando-o instantaneamente. Todas as placas de trânsito nas imediações do Riocentro estavam pichadas com a sigla VPR, grupo revolucionário do ex-capitão Lamarca, àquela altura já desmantelado. Tratava-se de promover uma carnificina e atribuí-la a ‘terroristas’. As portas do Riocentro estavam trancadas. A bomba que detonou a genitália do sargento e eventrou o capitão, era de alto poder explosivo e destinada, provavelmente, a ser colocada sob um carro, no estacionamento. Dentro do Riocentro, segundo o coronel da PM, que comandava o batalhão de Jacarepaguá, Ilen Marlen Soares, havia outras bombas, que foram desarmadas por militares identificados pelos policiais militares.

‘Sacanear’ talvez seja um verbo muito fraco para caracterizar o crime que o Exército cometeu nessa ocasião. E não foi só isso. Por falar em falsários e farsantes, há pelo menos um general que foi promovido e condecorado exatamente por ser falsário e farsante: o general Job Lorena de Santana, encarregado do IPM do Riocentro, que mentiu e falsificou todos os dados e atribuiu o ato terrorista à esquerda, um IPM tão desmoralizado que escandalizou a nação inteira, inclusive uma parte considerável dos militares (como o ex-presidente do Superior Tribunal Militar, almirante Júlio Bierrenbach).

Com as revelações dos livros do Exército, seria justo, mandatório, que as forças armadas retirassem a patente de general de Job Lorena de Santana e o punissem por prevaricação. Mas é claro que, para isso, seria preciso primeiro responder à pergunta que até hoje não quer calar: Quem autorizou? Quem acobertou?

Os outros dois episódios são o seqüestro do ex-deputado Rubens Paiva, pela Aeronáutica, sua tortura na Terceira Zona Aérea, continuada no DOI-Codi até a sua morte. Assassinato puro e simples, seguido de ocultação do cadáver e a invenção de um fantasioso ‘resgate’ por grupos de esquerda, tudo sacramentado por um IPM que mentiu e adulterou os fatos. Até hoje sua família não pode enterrar o seu corpo.

O terceiro é o episódio Parasar, no qual um militar, com ‘M’ maiúsculo, resistiu à ordem de um brigadeiro insano e celerado, para promover um atentado de proporções apocalípticas, que seria atribuído, uma vez mais, à esquerda e seguido de um massacre. Sérgio recusou-se a fazê-lo, denunciou o crime e teve a sua carreira e vida destruídas. Honra ao Brigadeiro Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho, o imortal Capitão Sérgio Macaco.

O que dizem disso os vitoriosos de 64?’



Luiz Carlos Merten

‘‘O Sol’ nas bancas de revista: quem lê tanta notícia?’, copyright O Estado de São Paulo, 7/04/04

‘Foi uma bela festa. Tetê Moraes reuniu domingo, no terraço do Instituto Histórico e Geográfico, no centro – de frente para a Baía de Guanabara, com a vista deslumbrante do arco que vai da Ilha Fiscal ao Pão de Açúcar -, boa parte da elite jornalística e intelectual do País. Ela chamou toda aquela gente para rodar cenas que serão usadas em seu novo documentário, O Sol – Caminhando contra o Vento, sobre o jornal Sol, que teve uma vida tão efêmera – seis meses – quanto brilhante, no Rio da ditadura militar. O último número de Sol circulou em 5 de janeiro de 1968.

Tetê era uma das meninas do Reynaldo – o jornalista Reynaldo Jardim, criador do Sol. Trabalhava na diagramação.

O jornal – alternativo – era encartado no Jornal dos Sports e virou porta-voz da esquerda contra o regime que se tornava mais e mais autoritário e repressor. A redação toda era contra, mas havia uma divisão entre os conscientes e os desbundados. Esses eram os hippies do Sol, encastelados nas páginas de cultura, cuja responsável era Marta Alencar, hoje produtora dos filmes do marido, o ator e diretor Hugo Carvana. A própria Marta estava lá e foi quem entrevistou o ministro Gilberto Gil, da Cultura. Ele chegou à paisana, sem terno nem gravata, mas com lenço e documento, para reviver suas experiências da época.

A primeira pergunta – que não quer calar, como disse Marta – foi sobre Caetano Veloso. Num depoimento gravado dias antes, Caetano não esclareceu se pensava especificamente no Sol ao compor Alegria, Alegria. A música, que concorreu no Festival de MPB da Record com Domingo no Parque, de Gil, e A Banda, de um certo Chico, tem aquele verso que diz ‘O sol nas bancas de revista/Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?’ Caetano freqüentava a redação. Namorava Dedé Gadelha, que era da equipe do Sol. Como a música não tinha nada a ver com o jornal? ‘Não me lembro de ele ter composto especificamente, mas de um ponto de vista subliminar tinha tudo a ver. Aquilo fazia parte do espírito da época. A gente participava do Sol.’

Gil não é uma pessoa facilmente entrevistável. Você pergunta o que quer, mas ele também dá a resposta que bem entende. Faz parte do seu charme. O ministro participou na semana passada de um debate, no Nordeste, para discutir o movimento de 31 de março. Foi paradoxal – disse que o regime militar foi responsável pelo surto de liberdade que acometeu o Brasil nos anos 1960. ‘Ao mesmo tempo que houve repressão, tortura, fechamento do Congresso e todos aqueles instrumentos excepcionais de que a ditadura lançou mão para se consolidar, o reverso também foi verdadeiro e o Brasil nunca teve tanta consciência da importância e da necessidade de liberdade.’

Ele encaixa o Sol nesse momento específico da vida política e cultural brasileira. ‘O jornal pode ter durado pouco, mas foi muito importante como farol para a chamada imprensa nanica, que se consolidou depois com o Pasquim e virou uma arma contra o regime. Com todas as tentativas de amordaçamento, o Brasil respirava liberdade por meio dessa imprensa independente.’ O Gil que deu seu depoimento podia ser o cantor e compositor que havia estudado administração e chegava à música após passar pela militância estudantil, mas o homem que falava também era o ministro da Cultura do Brasil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O repórter do Estado perguntou-lhe o que achava das recentes críticas de Caetano ao governo Lula. Caetano, na semana passada, cobrou urgência ao governo. Disse que está desapontado com o governo que prometia mudar o Brasil e agora está sendo mudado – adotando um perfil mais conservador, ‘Muitos de nós, dentro do governo, pensamos como ele. O governo não é um bloco único. A maioria de nós nunca teve experiência de governo e a máquina pública é algo difícil de controlar. Estamos aprendendo. é preciso paciência para que o governo possa fazer aquilo a que se propõe.’ Apesar dos percalços, Gil está otimista? ‘Sou sempre otimista’, responde o ministro com um largo sorriso, mas acrescenta que nem se trata de um otimismo pessoal – as coisas que precisam ser feitas terão de ser feitas. é inevitável, acredita. Para Gil, a realidade do mundo pós-moderno é fragmentada. O que existe hoje é o que ele chama de ‘flutuação do real’. ‘A simultaneidade dos meios de comunicação mudou o mundo nas últimas décadas. Qualquer tentativa de interpretação do mundo tem de passar por aí.’

A insatisfação com os rumos do governo, expressa por Caetano, ganhou eco em outros integrantes da festa promovida pela cineasta Tetê Moraes. Ana Arruda e Isa Guerra a manifestaram em conversa com o repórter do Estado. Ana faz parte da história da imprensa brasileira – não por acaso, vai ser tema de uma tese de doutorado. Houve mulheres jornalistas antes dela, mas Ana foi a primeira a trabalhar diariamente numa redação, a pegar a pauta de cada dia para escavar notícias na rua. Foi a primeira chefe de reportagem e também diretora de Redação do Sol. ‘Eu era responsável por botar o jornal na rua.’

Ana estava adorando o clima de festa, o reencontro com amigos, o antigo sonho compartilhado virando sonho, de novo. Mas tem dúvidas quanto à democratização do Brasil atual. Acha duro que o fiel da balança do governo Lula seja o ex-presidente Sarney. ‘é desapontador.’

Isa Guerra pensa da mesma maneira. Antropóloga, ela sempre foi guerreira até no nome. Viveu exilada e casou-se com um canadense que a transformou em ‘Labelle’ (era o sobrenome dele). Isa Guerra Labelle – a bela. Ana conta a história rindo. São duas senhoras, mas neste momento reencontram o fogo da juventude. Isa não é menos crítica. Vê sempre as mesmas pessoas, a mesma elite que luta por seus privilégios revezando-se no poder, no País, em cargos decisivos, mesmo que o presidente seja um homem do povo e seu governo queira ser popular. Há uma contradição entre o discurso e a prática, avalia.

Um encontro sobre a geração 68 não estaria completo sem Zuenir Ventura. Ele reviveu o clima da época no encontro com amigos. Acha que Maio de 68 é eterno. ‘Politicamente, fracassamos, mas do ponto de vista ético essa é uma bela história que continua’, diz. Os velhos, que viveram 68, lembram-se do ano em que viveram em perigo com excitação e entusiasmo. Os jovens, que não viveram a época, a idealizam. ‘68 é uma esperança que não acaba’, Zuenir arrisca. é essa emoção que Tetê Moraes, a diretora de Terra para Rose e O Sonho de Rose, quer colocar em seu filme sobre o Sol.’



Milton Temer

‘‘64 + 40’: o Brasil melhorou?’, copyright Jornal do Brasil, 7/04/04

‘Das reflexões sobre o ‘64 + 40’ que inundaram o noticiário das últimas semanas, restou um sentimento incômodo. Tudo bem: ditadura, nunca mais. Mas, espera aí. O que, concretamente, está sendo feito para que as condições objetivas e subjetivas que geraram o golpe contra o governo João Goulart não se reproduzam em edição atualizada? Por acaso foram encaminhadas as questões essenciais que nos marcaram como sociedade dividida entre ‘uns com pouco, outros poucos com algum, mas a maioria sem nenhum’, como cantava o filósofo Elton Medeiros, no saudoso Opinião? Avançou-se minimamente nos itens que justificavam as já então inadiáveis ‘reformas de base’?

A reforma agrária continua no plano da abstração. O controle de remessa de lucros virou poeira. Hoje, o que as multinacionais lucram no Brasil, em reais, enviam em divisas fortes para suas matrizes, sem tributação. E com Henrique Meirelles pedindo ainda mais desregulamentação. Mas há mais dados comprometedores.

O registro de que a variação negativa do PIB brasileiro em 2003 foi nosso pior resultado, depois de 92 – fim da curta era Collor -, vem sendo sucedido por outras pérolas. Antes de tudo, o registro de que padrão de vida da população caiu 3,3%, a maior baixa desde que o IBGE começou a pesquisar esse dado, em 1990. Quanto à concentração de riqueza, o quadro se agravou. Os 10% mais ricos já se apropriam de 74% do patrimônio e renda nacionais, segundo estudos de Marcio Pochman, secretário de Trabalho da prefeitura petista de São Paulo. Onde havia pobreza, hoje há miséria, no prejuízo dos ‘poucos com algum’ da classe média.

O atual governo que, por três campanhas presidenciais anteriores, se pretendia popular e democrático, insinuou qualquer mudança desse quadro dantesco? Os índices constatáveis de frustração e desesperança confirmam que não.

Não é difícil saber por quê. Desemprego crescente (que, em fevereiro, atingiu o nível mais alto, desde 85, na Grande São Paulo) e redução da renda salarial são dois vetores básicos. Mais: é indiscutível que o sacrifício da ‘transição’ de uma ‘herança maldita’ para algo que ninguém sabe definir só está sendo exigido de uma parcela da população – a que depende do contracheque no fim de mês, com imposto de renda descontado na fonte. Pois para os rentistas do capital, o ano de 2003 foi glorioso. Basta citar o balanço de lucros dos bancos, na comparação com o muito já acumulado em 2002. Vamos a ele.

Em abril de 2003, a consultoria Economática pesquisou sobre o setor financeiro no ano anterior, último de FHC, numa amostra de 17 instituições. O resultado bateu em R$ 9,875 bilhões de lucro, 30,3% a mais do que em 2001 (R$ 7,578 bilhões). Pois em 2003, primeiro de Luiz Inácio, ano perdido para a economia produtiva, o emprego e a distribuição de rendas , as sete maiores instituições financeiras atingiram valores ainda 6,7% superiores aos de 2002, segundo a consultoria Austin Asis.

Onde se constroem esses lucros, sem risco? Na especulação com títulos do governo, é claro. Num orçamento que destinou insignificantes R$ 18,1 bi à Educação, R$ 30,2 bi à Saúde e R$ 6 bi à infra-estrutura e saneamento básico, a rolagem de uma dívida nunca auditada nos tomou R$ 149,284 bilhões, em juros e serviços, sem abatimento do principal. Enquanto isso, na vizinha Argentina… bom, deixa pra lá para não parecer provocação.

Conclusão: não vivemos nenhuma ‘transição’ necessária à implementação de um programa posterior, auto-sustentável, de justiça social. Estamos é no bojo de uma rendição do PT ao grande capital. Optando por uma política pragmática, sem pejo de alvejar a própria história para se tornar bem-vindo aos tapetes vermelhos das instituições financeiras internacionais. Reduzindo a grandeza das ‘reformas de base’ à mesquinharia de um indefinido ‘espetáculo de crescimento’, cujos beneficiários são previsíveis – os ‘uns com tanto’.

Que um novo valor se alevante, para que o ‘Diretas-Já’ não tenha sido em vão.

PS – O Brigadeiro Fortunato levantou vôo. Militante da justiça social e combatente contra o fascismo nos céus da Itália, foi enterrado, como herói, no Panteão da FAB.’



Antonio Sepulveda

‘Ai dos vencidos!’, copyright Jornal do Brasil, 7/04/04

‘A poderosa mídia oficial que, durante mais de 20 anos, enalteceu e justificou a contra-revolução militar de 31 de março de 1964, cospe agora, com cara de nojo, no prato que comeu. Desde muito antes até pouco depois do período em que os militares estiveram no poder, quando ainda tentava ser independente e tinha firme liderança, sempre afirmou que a derrubada de Jango e seus pelegos era em defesa da democracia contra um golpe de Estado, cujo objetivo estava na submissão do Brasil a uma ditadura do proletariado. Os mesmos que admitiram ter até participado do movimento em entusiásticos editoriais, enchem agora a boca para falar em retrocesso e não se cansam de maldizer as Forças Armadas.

Foi, de fato, um longo regime de exceção e, como tal, apresentou as falhas inerentes a qualquer sistema autoritário, em termos do inadmissível cerceamento de liberdades e dos muitos inocentes que se tornaram vítimas inevitáveis dos excessos cometidos. Mas não é este o motivo de nossos comunas rosnarem suas frustrações, mas sim porque eles sabem ser impraticável, hoje, concretizar suas antigas obsessões, graças àquela intervenção. Explica-se, assim, o ressentimento contra o Brasil fardado.

Quando os americanos liberaram documentos que explicam como a Casa Branca acompanhou os acontecimentos há 40 anos, as esquerdas se comportaram como se o Kremlin não estivesse fazendo a mesma coisa, da forma que podia, pelos verdadeiros golpistas. Ainda que tamanha obtusidade fosse factual, como esperavam que Washington visse o movimento militar? Evidente que era a favor, ora essa. Nem precisava nos entregar a papelada. Gordon contava tudo a Johnson? Claro; para isso servem os embaixadores. Os Estados Unidos eram a favor? Óbvio; porque americano nunca fez graça para comunista. Dispostos a ajudar? Certamente; pois era assim que as coisas funcionavam na Guerra Fria. Lembremo-nos de que os soviéticos não hesitaram em interferir na Hungria e na antiga Checoslováquia. Os americanos, afinal de contas, fizeram o quê? Nada, porque nada lhes foi pedido.

O fato inequívoco é que os brasileiros tratamos de tudo sozinhos num dos maiores consensos políticos da nossa história. O resto é hipocrisia de um bando de sacripantas que dizem haverem lutado contra a ditadura, quando, na verdade, foi a ditadura que lutou contra eles; e, por causa deles, cometeram-se erros deploráveis. Autoproclamavam-se idealistas, e o ideal que acalentavam era transformar o Brasil numa Cuba.

Acontece que havia gente de bem, que era contra aquela sublimidade toda e lutou para impedi-la. Reagiram com determinação. Nada mais. Quem acredita nessa lorota de que os meninos estavam a estudar postos em sossego, e os ‘marighellas’ a cismar altas políticas, mas, de repente, descobriram que havia uma ditadura no Brasil e pegaram em armas? Negativo. Aquela gente tinha um propósito sinistro muito bem definido. E hoje sabemos que estavam errados.

Os militares agiram na hora certa e evitaram um cenário muito pior, dominado por um regime odioso que só causou o mal por onde passou. Assim fez o general Franco na Espanha, Pinochet no Chile, e assim fizeram os coronéis na Grécia. Agora, os marxistas tupiniquins podem dizer e escrever o que quiserem, porque, atualmente, são, todos eles, muito democratas. Mas o tempo não volta atrás. Perderam a única chance tangível que tiveram. Foram vencidos.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > ASSESSORIA & LOBBY

Fritz Utzeri

Por lgarcia em 18/04/2001 na edição 117

VIDA DE REDAÇÃO

"Vovô", copyright Jornal do Brasil, 11/4/01

"Escreve-me Zé Silveira, que sabe tudo sobre jornal, e sobre o JB em particular. Sua observação: ?Lamentei que ninguém tenha lembrado de um dos que partiram: Lago Burnet, meu chefe no copy e o mais talentoso reescrevedor de chamadas e autor de títulos que conheci.? Você tem razão Seu Zé, esqueci também, entre os que partiram, do Sandro Moreira (O Saldanha foi lembrado pelo suplemento 110). Durante anos comecei minha leitura do jornal pela historieta do Sandro, bem no pé de sua coluna. Em 99% dos casos era mentira, mas eram pequenas jóias, obras-primas do texto. Dava gosto começar o dia lendo-as.

Vale lembrar também Lea Maria, Bella Stal e Beatriz Bomfim. Foi Lea, antes do Zózimo, que inaugurou o colunismo social diferente, no estilo que consagraria o JB nos anos 60-70. Bellinha é dona de uma risada luminosa e de uma sensibilidade apurada. Beatriz foi ?a moça do guarda-chuva?, como chegou a figurar em peças de propaganda do jornal. Ela se especializara em educação e foi uma pioneira.

Também quero prestar tributo aos motoristas, numa época em que eles participavam efetivamente das equipes de reportagens e não eram terceirizados, como ocorre hoje nos jornais. Vestiam a camisa, apuravam e, sobretudo, jamais deixavam os profissionais na mão. Ao Luis, tão bom que era conhecido como ?Luis Motorista?. Conhecia a cidade como a palma da mão, fora motorista de Noel Rosa e de ambulância e contava histórias saborosas. Além disso, dotado de extraordinária força física, chegava a brigar com a polícia quando via algum colega ameaçado, o que era freqüente nos anos 60. O fotógrafo Alberto Jacó que o diga. Mas havia ainda o Marcelino, o Gilberto, o Nelcy e tantos outros.

E para encerrar minhas memórias, cito duas figuras. A telefonista Jaycy (?linha não tem?), ainda na sede velha que, sem querer, foi responsável por um episódio que me caracterizou como maluco no JB. Por incrível que pareça, louco impõe algum respeito…

A segunda era figura muito querida: o Vovô, ascensorista do elevador das docas. Negro, atarracado, vascaíno roxo, Vovô levava o seu elevador para cima e para baixo com muita alegria e calor humano. Quando o Vasco perdia, ele segurava a onda da rapaziada que o gozava. Quando ganhava, era a sua vez de gozar. Um dia fui mandado pelo JB, como correspondente, para Nova Iorque. Alguns dias depois de minha chegada, lembrei-me do Vovô, comprei um cartão-postal para ele e mandei, com algumas bobagens e a informação de que não tinha encontrado um só vascaíno em Manhattan. O Vasco não estava com nada em NY…

Alguns dias depois, um amigo me ligou e contou que Vovô estava no elevador quando recebeu o cartão. Leu, parou num andar e saiu. Como demorasse muito, a turma do elevador saiu para ver o que acontecia e foi dar com o Vovô encostado numa coluna, segurando meu cartão numa mão e chorando copiosamente.

Nesse dia aprendi uma lição: muitas vezes não medimos a importância que nossos pequenos gestos têm para os outros. Eu vivia num mundo a anos-luz do de Vovô e o fato de mandar-lhe um cartão era para ele algo extraordinário, enquanto para mim representava apenas uma brincadeira, algo sem grande importância. Eu, sem pensar, mexi com a alma dele e ele me amou. Não havia qualquer possibilidade de comparar nossos dois sentimentos. Do fundo do coração, peço perdão ao Vovô e tenho certeza que nem em mil anos serei um ser humano à altura dele."

ASSESSORIA & LOBBY

"O lobista do Brazil", copyright no. (www.no.com.br) 13/4/01

"Higienópolis, o estiloso bairro onde mora o presidente Fernando Henrique Cardoso, no centro de São Paulo, é um dos lugares mais ?cosmopolitan? e ?cool? no mundo. Já o bar Baretto, na rua Amaury, também em São Paulo, está no ?Top 25? das coisas mais bacanas do planeta. E é muito ?trendy?. O Planetário carioca é um dos lugares mais astrologicamente educativos do universo. Sem falar na agência de publicidade DM9, que além de ser um das mais premiadas do sistema solar, ainda funciona no último andar do prédio comercial mais alto de São Paulo!

O listão, bastante, digamos, lisonjeiro para quem achava que o Brasil só tinha o estádio do Maracanã entre as maiores coisas do mundo, foi publicado em uma penca de edições desde março do ano passado, da revista britânica Wallpaper, o catálogo do que há de mais moderno e descolado na galáxia. Nas páginas da revista, vê-se um país cult, antenado, classudo e endinheirado, que também tem aparecido com bastante frequência nos últimos meses em outras publicações que são referência de estilo, como a Big, a Dazed Confused e a americana Surface. É tanto confete que o consumidor distraído das bíblias modernas pode até achar que alguma espécie de programa do governo, como o Avança Brasil, coloca finalmente o Brasil entre os mais desenvolvidos do mundo. Que nada. O que acontece é que o país entrou na rota do mundo fashion por uma mistura de curiosidade e interesses comerciais. Mais ou menos como acontecia com as especiarias dos países exótico nas época das grandes navegações. Nesse ?novo mundo? das publicações de estilo, pode-se dizer que o paulista Chico Lowndes é o maior lobista do país.

O Brasil sensacional das revistas modernas sai dos fundos de um antigo casarão da rua Groelândia, no Jardim Europa, um dos nacos mais chiques de São Paulo. Ali funciona o quartel-general de Chico Lowndes. Não é fácil rotulá-lo profissionalmente. Ele acumula tarefas: é um misto de empresário, editor, produtor, agente de fotógrafos bambas, representante comercial e relações públicas. Mas pode-se dizer que ele abriu uma espécie de Companhia das Ìndias, uma empresa que aproveita o interesse do mundo fashion pelas ?especiarias exóticas? do país. ?A Wallpaper, como qualquer outra revista, quer curiosidades. O Brasil é surpreendente para quem vive lá fora?, justifica Lowndes.

A ligação desse sujeito multimídia com as badaladas publicações internacionais começou há dois anos, quando ele abocanhou a representação comercial de seu primeiro título, a Wallpaper. Na paralela, ia tocando uma produtora de fotografias chamada Super Studio, que passou a reunir alguns dos melhores fotógrafos para participar da elaboração de catálogos de grifes internacionais como a Kenzo. Como se deu bem nas duas funções ? a de homem do comercial e a de produtor de conteúdo fotográfico ? acabou ganhando a confiança do escritório da revista em Londres. Por tabela, o Brasil entrou na pauta da publicação. Um ano depois, a revista colocou em seu expediente, pela primeira vez, o nome de um correspondente no Brasil, o suíço Lorens Ackerman, que hoje é o parceiro de Chico na produçãos das grandes matérias brasileiras da revista.

Para entender o contato de primeiro grau que Chico estabeleceu com as publicações representantes do circuito fashion, é preciso evocar o frisson em torno do Brasil. De uns tempos para cá, tonou-se ?in? ser brasileiro. Graças, talvez, ao estouro da top Gisele Budchen e de tantas outras modelos made in Brazil. Chico soube aproveitar a onda ?Brasil tem estilo?. ?O país está em evidência e tende a continuar assim por um bom tempo, muito pelo esgotamento do primeiro mundo?, acredita Ale Faljone, editor e publisher da revista Simples? e ex-gerente de circulação e marketing da Dazed Confused, em Londres. ?O maior mérito do Chico é imprimir profissionalismo ao Brasil. Os estrangeiros tendem a achar que aqui é um lugar confuso, desorganizado.?, completa.

Gurgel é bacana

Aos 30 anos, Chico Lowndes tem estilo mauricinho, é bom de papo e às vezes disfarçadamente arrogante. Tipo blasé. Formado em administração de empresas pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), ex-militante do mercado financeiro, filho de pais ricos e muito amigo de quem interessa, ele embrenhou-se no mundinho dos modernos em 1990, quando criou a Super Studio, a primeira empresa brasileira especializada em produção de fotografia. No começo, a produtora fazia exclusivamente publicidade. ?Fizemos campanhas importantes como da Souza Cruz, Shell, General Motors, Zapping, Iódice, Zoomp, entre outras?, recita.

Pouco tempo depois a produtora já estava metida em campanhas internacionais. E começou a paquera com o mercado de fora. Em pouco tempo, a representação comercial derivou para outras brechas. ?Começamos a sugerir pautas e fazer a produção fotográfica dessas reportagens?, explica. Com a multiplicação de tarefas, Chico foi criando empresas para atender aos diferentes segmentos. Hoje são quatro empresas. No comando delas, ele vai se metendo em novas empreitadas. Pense em um título ligado ao mundo moderno e ele está no meio. Sua última é a parceira com o fotógrafo Bob Wolfenson no lançamento da revista ?55?. ?O Chico é um empresário de imagens. É uma figura rara no Brasil. Ele não tem pretensões artísticas. Mas sabe vender arte?, comenta Wolfenson. Outra parceria de Chico, com a editora Denise Maler, emplacou o país duas vezes na revista Big, que já dedicou duas edições ao Brasil. Até mesmo na underground Dazed Confused ele deu um jeitinho de abrir espaço. A revista publicou reportagens sobre Chico Science, Oscar Niemeyer e a São Paulo Fashion Week.

De seu escritório de pé-direito alto, com fotos de nomes conhecidos como o da fotógrafa Cláudia Jaguaribe na parede, móveis baratos misturados a objetos de design e pilhas de revistas internacionais espalhadas por todos os cantos, Lowndes continua a dar pitaco na área editorial. Na maioria das vezes acerta. A reportagem publicada na Wallpaper de novembro de 2000 sobre as obras de Oscar Niemeyer na Pampulha, em Belo Horizonte, por exemplo, traz belas fotos e vende o bem o patrimônio arquitetônico modernista brasileiro.

Mas como a Wallpaper transformou-se na bíblia da turma que tem ?atitude?, ?proposta? e sabe distinguir trance de drum?n?bass ? suas dicas tendem a ter a força de um mandamento para os afeitos às modernidades em geral. É aí que está o perigo. Em sua fissura por mostrar que o Brasil tem selva, índios e onças mas ainda assim é habitado por gente que conhece ar condicionado e design, a revista acaba publicando coisas para gringo ver. O carro nacional Gurgel, considerado por aqui o maior mico da indústria automobilística ?nacional?, apareceu na lista dos 25 coisas mais surpreendentes do mundo. O bar Baretto, aquele que também foi classificado no ?top 25? é até bom, mas não tem nada que justifique sua inclusão em uma lista de melhores do mundo. Ainda assim, a qualquer momento algum moderno brasileiro vai aparecer no Baretto. De Gurgel."

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