Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CIRCO DA NOTíCIA > JORNALISTA vs. JORNALISTA

Grandes duelos no cenário errado

Por Carlos Brickmann em 25/12/2007 na edição 465

Faz alguns anos, não muitos. Um dia, no Rio, um famoso intelectual descobriu que sua esposa tinha um caso com um jornalista não menos famoso – e, ainda por cima, seu grande amigo. Desafiou-o então para um duelo.

O local foi marcado, as armas e padrinhos escolhidos. Duelo a pistola, na praia do Leme, decidido ao primeiro sangue. Na noite anterior, os dois duelantes, cada um com seu grupo de amigos, foram por acaso ao mesmo bar. Um dos duelantes teve um súbito ataque de bom-senso: chamou o outro para uma conversa e argumentou que nenhum dos dois sabia atirar, que iam acabar ferindo algum desavisado, e que era uma pena acabar com um duelo uma amizade tão antiga.

Acabaram desistindo. Na conversa que se seguiu, o marido traído se queixou: por que o outro escolhera justo sua esposa, justo ele, que era seu amigo? A resposta foi franca e direta: ‘Eu só posso namorar com mulher de amigo. Com mulher de inimigo eu não me relaciono’.

Aquele tipo de embate já era ridículo na época. Mas, pelo menos, lutava-se por mulher. Hoje, qualquer duelo fora das redações é ainda mais ridículo. Pior, nem se luta por mulher: gente supostamente racional recorre à Justiça e briga por preferência partidária.

Briga entre jornalistas na Justiça? Besteira: que debatam em seus respectivos veículos de comunicação. E, de preferência, que debatam idéias. Xingar o adversário porque é petista, ou porque é tucano, é inaceitável. Chamar os adversários de mascates, baixinhos, descerebrados, vendidos, decadentes – nessa baixaria, onde fica a inteligência? Por que deixar que o fígado suplante o cérebro?

Isso é desmoralizar a essência da profissão, o raciocínio, a capacidade de entender os fatos. Já houve época em que um intelectual poderoso escreveu longo artigo contra uma adversária, chamando-a de prostituta e usando 63 sinônimos. Não, definitivamente este não foi o ponto alto de sua carreira (embora, para os apreciadores das nuances de nosso idioma, tenha sido muito instrutivo). Se é para xingar, tem um pessoal no cais do porto que pode fazê-lo melhor, mais alto, mais barato. E ainda tem porte físico para, logo em seguida, sair na porrada.



Redações nos tribunais

Um caso que exige reflexão e mobilização dos jornalistas é o que envolve o colunista Juca Kfouri (que tem um blog no UOL e uma coluna na Folha) e o promotor e deputado estadual paulista Fernando Capez, do PSDB. Capez, considerando-se repetidamente ofendido pelo colunista, pediu à Justiça que proibisse as ofensas. O pedido foi aceito pela juiza Tonia Yuka Toroko, da 13ª Vara Cível, que determinou, em liminar, que Kfouri pague multa de 50 mil reais sempre que ofender o promotor Capez.

Este colunista, por princípio, prefere o debate aberto: que se abra ao promotor, com transparência, espaço equivalente ao do jornalista, para que ambos decidam suas diferenças. Capez sustenta, entretanto, que Kfouri aproveita qualquer oportunidade para ofendê-lo e por isso preferiu recorrer à Justiça – um direito que lhe cabe. Mas cabe também, no caso, uma posição do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas. O que não se deve é, sem qualquer tentativa de busca de solução, remeter um caso de divergência de opiniões, a ser resolvido no debate livre de idéias, aos tribunais já congestionados. Fica com cara de censura.



O homem da KGB

É preciso prestar atenção na Rússia: lá têm ocorrido coisas estranhas, ultimamente. Agora, a correspondente Natalia Morare, da revista israelense The New Times, dedicada a notícias da Rússia, foi expulsa do país – embora tendo todos os documentos em ordem, embora viva e trabalhe legalmente em Moscou. Segundo a jornalista, a expulsão foi motivada por uma reportagem sobre o financiamento da campanha eleitoral. ‘Creio que a causa principal foi a reportagem `Caixa secreta do Kremlin´’, diz a jornalista. O presidente russo Vladimir Putin, ex-KGB (a polícia secreta do regime comunista), que venceu facilmente as eleições, deverá transformar-se em primeiro-ministro, mantendo o poder, já que a reeleição é vedada, e preparando-se para voltar à presidência da República no próximo mandato.



O fascínio do ouro

Há personagens que, sabe-se lá por qual motivo, se transformam em alvos da imprensa, haja ou não motivos para isso. Este colunista lembra de uma reportagem sobre a casa de Fernando Collor em Miami, em que a repórter salientava que as torneiras ‘eram de ouro 24 quilates’. Bom, calcular o número de quilates do ouro não é simples: mesmo um ourives experiente precisará fazer alguns testes, quanto mais um repórter. Uma torneira não pode ser de ouro 24 quilates: o ouro é mole, não resiste ao abrir e fechar (a propósito, aquela torneira era de latão, como boa parte das torneiras existentes no mundo, só que em vez de cromada, ou niquelada, era dourada). E, enfim, a casa não era de Collor: era de um cunhado, até meio brigado com ele. Mas a crítica foi feita assim mesmo.

Outro dia, num grande jornal, citava-se a caixinha de cartões de visita do ex-deputado José Dirceu, ‘folheada a ouro 18 quilates’. Talvez seja; mas, olhando, nenhum repórter saberá dizer se a caixinha é de metal dourado ou folheada a ouro 14 quilates. Foi apenas a vontade de dar uma alfinetadinha (esta, sem motivo) em Dirceu.



A greve do bispo

A cobertura da imprensa sobre a greve de fome do arcebispo d. Luiz Cappio chama a atenção por duas falhas importantes:

1. Muita gente nos jornais ficou insinuando que d. Luiz Cappio fazia greve de fome de dia e comia melancia à noite (por que especificamente melancia, isso jamais foi dito). Será que nenhum repórter poderia passar uma noite em claro, para saber o que realmente acontecia? Isso teria duas vantagens: desmontaria a fofoca e daria uma boa reportagem;

2. Falou-se muito pouco dos prós e contras da transposição das águas do rio São Francisco. Já houve casos, um deles nos Estados Unidos, em que a intervenção humana no curso de um rio provocou tamanhos problemas que a obra teve de ser desfeita; já houve casos – como o Aterro do Flamengo, no Rio – em que a obra apresentou tamanhas vantagens que ninguém a contestou.

Há artigos bem escritos contra a transposição, mas usam um argumento falho: o de que a obra não é boa porque beneficiaria o agronegócio e a fruticultura de exportação. Só que beneficiar o agronegócio não é ruim: é bom. Estimular a exportação não é ruim: é bom. Sem empresas jornalísticas saudáveis não haveria emprego para jornalistas; sem empresas agrícolas saudáveis não haverá emprego para agricultores. E imaginar que a agricultura e o país vão crescer com unidades unifamiliares, trabalhadas com enxada e esterco, é sonhar com o passado e a escassez.

Há artigos bem escritos em favor da transposição, mas usam um argumento falho: o de que a obra é boa. Tudo bem, mas não haverá alternativas, talvez melhores, talvez mais baratas, que talvez possibilitem beneficiar mais gente?

O consumidor de notícias fica confuso e acaba optando por uma posição ou outra a partir de convicções ideológicas. A visão política é boa, mas não pode ser única: precisa, obrigatoriamente, ser amparada numa boa análise técnica.



É devagar…

Na quinta-feira (13/12), um garoto de 15 anos, Carlos Rodrigues Jr., foi morto por choques elétricos aplicados durante sessão de tortura a que foi submetido, logo depois de ser interrogado por seis policiais militares. Bauru é uma grande cidade do interior paulista; o governador José Serra é o comandante supremo da polícia. Serra levou quase uma semana para falar do caso. E, quando falou, falou fino: disse que a morte do garoto foi uma brutalidade e que a linha de seu governo é o respeito aos direitos individuais. Pode ser; mas Rodrigues não é o primeiro que morre. E que outra coisa poderia Serra dizer? Até o general Pinochet, que o governador conhece bem e detestava, garantia ser favorável aos direitos humanos.

Mas a nossa imprensa é boazinha. Ninguém está pressionando o governador Serra a dizer que providências está tomando, o que fará para evitar esse tipo de barbaridade, como garantirá que a linha-dura contra o crime não ignore os direitos individuais. A governadora Ana Júlia, do Pará, onde ocorreu outra barbaridade inaceitável, foi bem mais pressionada pela imprensa, mesmo não tendo havido morte.



…é devagar, é devagar…

O atentado contra o radialista João Alckmin, líder de uma campanha contra a Máfia dos Caça-Níqueis em São José dos Campos (SP), completou um mês. O atentado, em que o colega levou dois tiros pelas costas, foi filmado por câmeras de segurança e visto por testemunhas; mesmo assim, a polícia nada avançou. Os policiais encarregados da investigação são os mesmos que processam Alckmin, em razão das denúncias que fez sobre a banda podre do aparelho estatal de segurança. A imprensa nacional e internacional deu grande destaque ao atentado, o segundo deste ano. O governador Serra não se manifestou até agora. E nossa imprensa, muito boazinha, deixa a coisa correr solta. Ninguém pergunta!



…é devagar, devagarinho

Dentro de poucos dias, aquele buracão que se abriu nas obras do metrô de São Paulo completa um ano. Teve gente que morreu, teve gente que perdeu a casa. E a investigação? Gente, é Natal, é época de festas. A investigação deve estar andando, não é mesmo? E nossa imprensa, tão boazinha, não pediu ainda o projeto executivo da estação do metrô. Quando pedir, terá uma grande surpresa.



E eu com isso?

Dizem que no Natal as pessoas ficam melhores, mais tolerantes. Ainda bem: há certas notícias que exigem um pouco mais de paciência, do infindável exercício da tolerância. Por exemplo:

** ‘Katie Holmes faz compras de Natal’

** ‘Luana Piovani toma banho de chuveirinho em Ipanema’

**Paris Hilton veste cachorro de Papai Noel para cartão de Natal

Há um clássico:

** ‘Lembrancinha do filho de Winits tem erro de português’

O erro é escrever ‘rege’, do verbo ‘reger’, como ‘reje’.

Gente, trata-se de uma moça tão prendada, tão cheia de qualidades, e de qualidades tão visíveis, e ainda querem que ela saiba ortografia? Se jornalista de grandes veículos escreve ‘hermitão’, ‘endiondo’ (era para ser ‘hediondo’), ‘envangélico’; se jornalista de grandes veículos pega a imagem de Kaká com a camiseta ‘I belong to Jesus’ e transcreve a frase como ‘I belong in Jesus’, por que uma moça que nem jornalista é deve ser criticada por um erro de grafia?



Os grandes títulos

O pessoal com certeza tem a cabeça nas festas (ou está com a cabeça transtornada porque não pegou a folga que queria). Isso garantiu uma safra excelente de títulos:

** ’39 programas de pós são cancelados’

Tudo bem, faz sentido. Mas, à primeira vista, dá uma impressão muito errada

** ‘Show de Shakira é evento de importância maior para Geórgia’

Deve querer dizer alguma coisa, claro. Pode ser uma amiga dela chamada Georgia, pode ser um estado americano, pode ser uma república que até há alguns anos fazia parte da União Soviética. Como diria Caetano, ou pode não ser.

Há um título notável, daqueles para especialistas. Deve estar certo:

** ‘BC vende oferta total de swap reverso, com volume de US$ 1,47 bi’

E certamente deve haver alguém que o entenda.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/12/2007 Paulo Belarmino cristovão

    Ô Brickman cuidado com os jornalistas Jose Trajano, Milton ‘Merchan’ Neves, Juca Kfouri e outros inimigos da imprensa esportiva que vivem processando judicialmente uns aos outros. Vai que eles resolvam te processar por causa das opiniões…….

  2. Comentou em 24/12/2007 Marcos Adriano Rodrigues da Silva

    Caro Carlos Brickmann: se jornalista, na média, muito mal sabe português, que dirá inglês?

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